Mais de dois meses depois do início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, finalmente acordou e foi visitar ambos os países. Apesar de uma chegada atrasada, foi uma decisão de valor. Primeiro encontrou-se com Putin e manteve uma atitude neutra. Contudo, o líder russo insinuou que o secretário-geral não assumia de facto esta posição imparcial. As principais questões que mencionou foram a evacuação das forças armadas da fábrica Azovstal em Mariupol, a criação de uma passagem segura para civis em zonas de conflito e a oferta de auxílio das Nações Unidas e Cruz Vermelha a estes civis na Ucrânia. A ONU espera que ambos os partidos resolvam o seu conflito na Ucrânia através de ferramentas políticas, tendo Guterres afirmado que o lado russo tem sido repetidamente acusado de não possibilitar a evacuação de civis, e apesar de ter sido anunciada a criação de um corredor humanitário, o mesmo ainda não foi usado.
Putin contestou estas acusações afirmando que já deu ordens para o plano militar na fábrica de Azovstal ser ajustado antes da visita do secretário-geral. O ataque passou a um cerco, e as forças armadas no seu interior foram instruídas a baixar as armas e abandonar a fábrica, o problema foi que as mesmas se recusaram a seguir ordens, nem deixaram que os locais o fizessem. Quanto ao corredor humanitário, Putin afirma que já mais de 100 000 residentes de Mariupol abandonaram a região, e acrescenta que Guterres se deixou enganar por desinformação.
Discutindo a região de Donbass, Guterres menciona a Carta das Nações Unidas, contudo Putin citou o caso da independência de Kosovo, sendo que na época em que os EUA iniciaram a guerra na região, Guterres era primeiro-ministro de Portugal. O governo do agora secretário-geral apoiou a guerra do Kosovo e enviou até forças portuguesas para o bombardeamento contra a Jugoslávia como membro da NATO. Mais tarde estas tropas foram enviadas para Kosovo numa missão de pacificação, levando a que vários soldados contraíssem leucemia devido ao uso de armas químicas americanas. Guterres chegou a enviar uma equipa de investigação ao local, porém não foram produzidos quaisquer resultados. A referência de Putin a Kosovo vem salientar a dupla moral do ocidente.
Neste caso específico quer afirmar que Guterres há 20 anos atrás apoiava a invasão da NATO à Sérvia, lesando civis e enviando tropas para manter a paz em Kosovo e ajudar a região a ganhar reconhecimento internacional. Porém, atualmente condena a guerra e afirma não conseguir aguentar ver civis a sofrer, a hipocrisia normal nos políticos.
A China viu de bom grado esta visita do secretário-geral para a promoção de um discurso de paz e diálogo, visto que o país respeita o estatuto das Nações Unidas e já salientou a importância da promoção de união pela comunidade internacional. Queremos democracia, não hegemonia, queremos diálogo, não sanções, queremos neutralidade. Este é o conselho da China a pequenas e médias nações.