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Pandemia e lei do jogo transformam o mercado laboral de Macau

Viviana ChanViviana Chan

A pandemia tem impulsionado grandes mudanças na estrutura do emprego em Macau. Ao PLATAFORMA, Ng Kuok Cheng, ex-deputado, alerta para a situação precária da classe média local, bem como para alterações que serão permanentes. Zeng Zhonglu, especialista em jogo, acredita que os despedimentos coletivos nas operadoras ainda não se deram devido ao “período sensível” em que se encontram com a revisão da lei do jogo. Samuel Tong, economista, explica que também houve mudanças positivas, mas que a situação do emprego não vai melhorar a curto prazo, e quem sofre mais são os menos qualificados e os mais jovens

Desde 2020 que a pandemia da Covid-19 se tem feito sentir na Região. A revisão da lei do jogo e a pressão para diversificar a economia, aliadas à política de casos zero a nível
nacional – que bloqueia as receitas provenientes do turismo e do jogo –, foram o coquetel perfeito para mudar a face de uma cidade que perdurou nos últimos vinte anos.

A taxa de desemprego dos residentes subiu para 4,3 por cento nos últimos três meses, um valor que obriga a recuar até 2009 para se encontrar números semelhantes. Além disso, desde o início da pandemia, cerca de 28 mil trabalhadores não residentes deixaram de fazer parte da força laboral de Macau. Importante referir que apesar da tendência e dos alarmes soados, a RAEM ainda se encontra dentro do intervalo considerado como “pleno emprego”.

Contudo, ao PLATAFORMA, o ex-deputado Ng Kuok Cheong alerta que a mudança na estrutura do emprego já começou: “As famílias da classe média em Macau caíram para a classe baixa”. Na sua observação faz questão de diferenciar entre a classe média tradicional e aquela que considera ter surgido com a prosperidade da indústria do jogo. Na sua opinião, esta última está “em perigo”, devido à crise pandémica, aperto de Pequim ao setor do jogo e crescente pressão para diversificar a economia.

Leia também: O papel da Lusofonia na diversificação económica de Macau

Um dos setores que Ng Kuok Cheong acredita ter sido erradicado é o dos junkets ou promotores de jogo. “É um facto. Os postos de trabalho desapareceram nessa área e não se vão recuperar no futuro”, reitera.

A indústria do jogo representa mais de metade do PIB da RAEM e contribui entre 70 e 80 por cento para as reservas financeiras da Região. Em 2019, os casinos de Macau fecharam o ano com uma receita bruta recorde de 292,46 mil milhões de patacas. Porém, no ano passado, este bolo decresceu para as 86 mil milhões de patacas, muito devido às restrições fronteiriças implementadas para suprimir a Covid-19. O peso do setor dos promotores de jogo foi crescendo a par da indústria e em 2019 representava cerca de 44 por cento das receitas brutas da indústria de fortuna ou azar. Contudo, analistas da Morgan Stanley dizem que a perda dos junkets está longe de ser catastrófica para as concessionárias, visto que os lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EBITDA) passaram de 32 por cento para 9 por cento entre 2013 e 2019.

Crimes e detenções

O grupo Suncity era, até 2021, o maior angariador do mundo de grandes apostadores e estava presente em mais de 40 por cento dos casinos locais. O castelo de cartas destes promotores começou a ruir quando, no final do ano passado, as autoridades chinesas emitiram um mandado de detenção a Alvin Chau, diretor-executivo e único acionista do grupo Suncity, por suspeita de liderar um grupo criminoso de jogo transfronteiriço.

O efeito dominó cedo se fez sentir quase dois meses depois, com a detenção de Levo Chan, diretor-executivo do grupo Tak Chun (um dos maiores da cidade), por suspeitas de operações de jogo ilegais. Na altura da detenção de Chau, o Ministério Público revelou que a decisão foi tomada dada “a gravidade da natureza dos referidos crimes, nomeadamente o seu enorme impacto e abalo causados à exploração lícita do setor do jogo de Macau e à estabilidade da ordem financeira”.

4,3%

Taxa de desemprego registada nos últimos

três meses recua para os valores de 2009

Com isto em mente, as autoridades locais esboçaram a nova lei do jogo, atualmente a ser discutida, onde consta que cada promotor de jogo “só pode exercer a atividade (de promoção de jogo) se estiver registado junto a uma concessionária”. As detenções de duas peças importantes do setor dos junkets, e a nova lei do jogo, deram origem a várias
repercussões no que toca ao emprego. O grupo Suncity e o Tak Chun encerraram todas as suas salas VIP, deixando vários trabalhadores num mar de incerteza.

Os casinos-satélite

Por outro lado, dos 40 casinos a operarem em Macau, mais de metade (22) são casinos-satélites, operados pela SJM, Galaxy e Melco. Venetian, MGM e Wynn não têm casinos-satélite. Um dos grandes pontos de discussão entre os deputados e o Governo acerca da nova lei do jogo tem sido em torno destes mesmos e do futuro dos trabalhadores caso haja uma falência.

Chan Chak Mo, presidente da 2ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, assinalou que nos contratos assinados em 2002 já estava previsto que as concessionárias tinham de ser os titulares de propriedade dos imóveis onde estão atualmente os casinos-satélite.

“Nos últimos 20 anos, as concessionárias não fizeram isso, ou seja, não adquiriram esses imóveis. Agora não vamos imputar a responsabilidade em ninguém. O essencial é que o Governo pretende dar três anos para as concessionárias remediarem a situação”, salientou.

Leia mais sobre o assunto: Concessionárias têm que comprar casinos satélite até ao final do contrato

Não obstante, o ex-deputado eleito por sufrágio universal admite que há aqueles que vêm a atual situação de forma positiva, pois “defendem que é o tempo certo para diversificar a economia” e que os “residentes desempregados podem assegurar emprego na Grande Baía”. Porém, defende que ainda não existe um consenso social, e que “o futuro de Macau ainda sofre de muita incerteza”. A par do desemprego, outro problema com que Macau se depara é o iminente fecho de pequenas e médias empresas.

“Pela minha experiência, o Governo de Macau vai aproveitar a vantagem de ter uma grande reserva financeira”, diz, referindo que os apoios financeiros podem aliviar o contexto atual, mas que esta não pode ser uma solução a longo prazo, “porque a reserva financeira não é ilimitada”, afirma Ng Kuok Cheng.

Despedimento coletivo

Para Zeng Zhonglu, professor no Centro Pedagógico e Científico nas Áreas do Jogo e do Turismo da Universidade Politécnica de Macau, o futuro do mercado laboral em Macau é negro. O académico aponta a incerteza da evolução pandémica como a maior dificuldade na recuperação económica local. “Não vejo sinais do fim da Covid-19. Muitas
empresas em Macau não conseguem sustentar os custos operacionais e, por isso mesmo, muitas começaram a fechar.

A população empregue pelo setor do jogo em 2019 era de 85.200, ou seja, 22 por cento do total da população empregada. No final do ano passado, desceu para 78.100, representando 20,6 por cento da população empregada.

Em simultâneo, os mesmos inquéritos ao emprego da RAEM indicaram que a taxa de subemprego aumentou de 0,5 por cento para 4,1 por cento, com a população subempregada a fixar-se em 15.900 pessoas – mais 14.100 pessoas de 2019 a 2021.

Zheng Zhonglu pinta um cenário pessimista, sublinhando que, à exceção da Galaxy Entertainment, que teve liquidez positiva, “todas as operadoras de jogo tiveram prejuízos enormes”. Sem acreditar em melhorias a curto prazo, aponta como “provável haver despedimentos coletivos dos trabalhadores na área do jogo”. O académico argumenta
que esse cenário ainda não se deu pelo “período sensível” em que se encontram as concessionárias, com a prorrogação dos prazos e posterior concurso para novas licenças de jogo no final do ano.

Leia também: Mais de metade dos casinos em Macau são satélite

“A depressão económica tem vindo a agravar a questão do excesso de mão de obra em Macau. Não há milagres… a resistência das empresas à crise não é infinita”, comenta.

Quanto à situação dos 22 casinos-satélite da RAEM, com o Grand Emperor a ser o primeiro a anunciar que não irá renovar a licença de jogo, mas com vários outros a serem confrontados com o mesmo destino, o perito em jogo não vê consequências imediatas: “O encerramento dos casinos satélite não teve, até agora, impacto grave no mercado
laboral”. Sobre o talento estrangeiro, considera que a redução dos trabalhadores não residentes no setor do jogo não irá aumentar muito mais. “Tenho um estudo sobre a estrutura dos trabalhadores nas operadoras de jogo. Muitos dos trabalhadores importados são técnicos, e não será fácil encontrar substituição no mercado local”, assevera.

Atualmente, o número de trabalhadores não residentes em Macau desceu para 168.442, conforme informou a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), num comunicado divulgado após a notícia do encerramento do Grand Emperor, um casino satélite.

Visão diferente

Por outro lado, o presidente do Instituto de Gestão de Macau, Samuel Tong, acredita que a classe média na RAEM está a crescer. “Normalmente a classe média tem o nível de educação superior, no entanto, não se pode simplesmente definir a classe média através dos seus rendimentos”, explica.

Ao jornal refere que o número total dos trabalhadores residentes com ensino superior aumentou de 111.400 para 119.900 pessoas entre 2019 e 2021. Essa variação representa um aumento de 8.500 pes soas. No mesmo intervalo de tempo, na categoria de “especialistas das profissões intelectuais e científicas”, o número de trabalhadores residentes aumentou de 15.8 mil para 18.6 mil. Não só houve um aumento no número destes trabalhadores, como também houve um aumento da mediana dos seus rendimentos nos
últimos dois anos, de 40 mil para 44.6 mil patacas, o que significa um aumento de 11,5 por cento.

O economista acrescenta que o desemprego tende a afetar mais os trabalhadores da indústria turística porque “não exigem habilitações elevadas”. E que quando “a economia não está boa, os empregadores despedem primeiro aqueles com menos habilitações”.

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Ainda no capítulo do desemprego, Samuel Tong nota que o grupo etário mais afetado é aquele de idades compreendidas entre os 16 e 24 anos de idade.

“A taxa de desemprego para os jovens dessa faixa etária aumentou de de 7,9 por cento para 12,2 por cento, quer isto dizer que as pessoas com menos experiência têm mais dificuldade no emprego”, realça. Face à recessão económica causada pela pandemia, o académico defende que não se deve esperar pelo apoio do Governo.

“As pessoas desempregadas devem estar conscientes de que os trabalhadores menos qualificados sofrem mais. Além disso, temos que estar atentos ao ciclo económico. Esta recessão pode ser prolongada e não é possível recuperar a curto prazo. Temos ainda que acompanhar o desenvolvimento das indústrias no mundo. Continuar o mesmo modelo de negócio pode não corresponder à tendência. Por isso, os trabalhadores devem abraçar as mudanças e as incertezas”, enfatiza.

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