Queda dos junkets leva a maior dependência da reserva fiscal - Plataforma Media

Queda dos junkets leva a maior dependência da reserva fiscal

A detenção do diretor executivo do grupo Suncity, Alvin Chau, representa o fim de um regime para a indústria do jogo. O segmento VIP – impulsionado pelos junkets – embora em declínio, ainda representou mais de um terço das receitas brutas de jogo em 2020. O modelo de negócio dos casinos deve agora acelerar a mudança de identidade, tendo em conta que a aposta nas massas e clientes premium já estava nos planos das concessionárias. No entanto, a curto prazo, essa reconversão exige “depender mais da reserva fiscal”, aponta Carlos Siu, professor assistente no Centro Pedagógico e Científico nas Áreas de Jogo e Turismo do Instituto Politécnico de Macau.  

Até à data, o grupo Suncity é o maior angariador do mundo de grandes apostadores e está presente em mais de 40 por cento dos casinos de Macau. Em 2019, o setor de junkets representava cerca de 44 por cento das receitas brutas de jogo. No entanto, o cerco implementado pelas autoridades chinesas à fuga ilegal de capital do continente fez com que a atividade registasse uma queda nos últimos anos, e as previsões apontam para que estes promotores de jogo tenham os “dias contados” quanto à sua relevância e impacto na indústria de jogo. 

Alvin Chau era visto como “a maior (e certamente mais famosa) figura na indústria do junket”, na avaliação da JP Morgan.
Leia mais sobre o assunto: Mais promotoras de jogo sob investigação na China

O seu declínio (junkets) significa que teremos de depender mais da reserva fiscal para suportar os serviços públicos, pelo menos a curto prazo.

Carlos SIU

Alguns anos atrás, os resultados VIP chegaram a ser quase 80 por cento do total da receita de jogo do Território. Em 2020, entre as seis operadoras de jogo em Macau, a receita total do mercado VIP foi de 23 mil milhões de patacas, representando cerca de 38 por cento das receitas brutas de jogo (caiu 6 por cento face ao ano anterior), de acordo com os dados publicados pela JP Morgan.  

Opiniões sobre o impacto divergem 

Carlos Siu afirma ao PLATAFORMA que o imposto especial sobre o jogo contribui em 70 por cento para os fundos públicos, aproximadamente. E, portanto, se os junkets geraram quase 40 por cento das receitas brutas de jogo, “o seu declínio significa que teremos de depender mais da reserva fiscal para suportar os serviços públicos, pelo menos a curto prazo”. 

Carlos Siu, professor assistente no Centro Pedagógico e Científico nas Áreas de Jogo e Turismo do Instituto Politécnico de Macau.  

É certo que o Governo de Macau há muito que trabalha em soluções que permitam diversificar a economia e depender menos da indústria do jogo, “mas leva tempo a terem efeito, pois não há maneiras fáceis de resolver o problema”, acrescenta o académico. 

Na avaliação da JP Morgan, o impacto da recente detenção será “muito mau” para o setor VIP e dos junkets, dado que Alvin Chau é “a maior (e certamente mais famosa) figura na indústria do junket “, mas enfatiza que as receitas VIP já representavam menos de 15 por cento do EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) em 2019. Além disso, já se tinha assumido a reestruturação do segmento “dado o escrutínio intensificado” por parte das autoridades chinesas.  

A corretora também aponta que o facto de o diretor executivo da Suncity ser detido “por apenas fazer o que nos parece ser atividades normais de junkets” traduz-se num “arrepio na coluna vertebral de todo e qualquer junket.” Refere ainda que não surpreenderia ver as receitas da atividade “a contrair imediatamente nas próximas semanas, talvez 30 por cento a 50 por cento.” 

O declínio do mercado VIP nos últimos anos permitiu maior foco no mercado de massas premium e movimentos no sentido de trazer o jogo VIP diretamente às concessionárias – sem intermediação dos promotores de jogo (junkets). Essa aposta e as restrições da China continental levam a que a corretora preveja que o mercado VIP represente apenas 1 a 4 por cento do EBITDA dos operadores em 2023 – ou cerca de 2 por cento do lucro do setor como um todo”. Com essa estimativa em mente, a “agulha” pouco mexe com esta situação, atesta. 

O banco de investimento UBS Global também prevê um cenário “controlável”, dadas as expetativas já baixas para o segmento VIP. “Pensamos que os clientes de junket VIP podem dissociar-se dos operadores junket e ir diretamente às concessionárias como clientes VIP ou clientes de massa premium”. 

Apesar do domínio do grupo Suncity no passado, a Bernstein alega que nos últimos meses a quota de mercado da promotora passou a 20 por cento, enquanto que em 2019 correspondia aproximadamente a 45 por cento, ou seja, quase metade. 

“O negócio dos junkets está em declínio e não vai voltar à sua escala anterior em Macau”, assegura a corretora, reforçando que o futuro “mantém-se na recuperação das massas e das massas premium.” 

A área cinzenta na qual os junkets operavam foi altamente reduzida e o negócio pode não ser tão lucrativo como era antes 

Carlos siu

Mas o futuro pode não ser tão risonho para a cidade, vaticinou Albano Martins à Lusa. O economista considera que “para além da questão do emprego”, o dinheiro que passava pelo sistema financeiro local vai deixá-lo “descalço”, lembrando ainda que o grupo estava a posicionar-se para concorrer a uma das novas licenças de exploração de jogo, atribuídas em 2022. 

Segundo Alidad Tash, diretor da 2NT8, o maior impacto do declínio dos junkets será na “massa de jogadores premium, dos quais muitos vêm da China continental”, salientando que estes confiavam nos junkets para trazer dinheiro até Macau, ultrapassando o limite anual de 50,000 dólares por pessoa.  

“Dada a margem de lucro elevada da massa premium, é bem possível que quem sofra mais o impacto sejam os casinos”, declarou à Macau News Agency. 

Carlos Siu sublinha que “a área cinzenta na qual os junkets operavam foi altamente reduzida e o negócio pode não ser tão lucrativo como era antes”. 

O que não se vê 

Em 2019, a Polícia Judiciária de Macau detetou a existência de um grupo criminoso que se aproveitava das operações das salas VIP para criar redes de plataformas de jogo e angariação de residentes do interior da China para jogo online ilícito. 

Alvin Chau desenvolveu uma rede de pessoal no interior da China para organizar visitas a salas de jogo no exterior e participar em atividades de jogo online transfronteiriças, de acordo com uma nota das autoridades chinesas. 

Entretanto, todas as salas de jogo VIP em Macau exploradas pelo Suncity foram encerradas na quarta-feira, após a prisão preventiva do diretor-geral do grupo Suncity, Alvin Chau, que pediu a demissão do cargo. 

Leia mais sobre o assunto: Fechadas todas as salas de jogo VIP do grupo Suncity em Macau

As práticas exploratórias dos junkets, a associação à saída de capitais do continente e esquemas de lavagem de dinheiro através de bancos clandestinos levou a que a China entrasse em cena 

Carlos siu

O Ministério Público defende a existência de indícios suficientes da prática dos crimes de participação em associação criminosa (punível com pena de prisão até 10 anos), chefia de uma associação criminosa (até 12 anos de prisão), branqueamento de capitais (até oito anos de cadeia) e de exploração ilícita do jogo (até três anos). 

“As práticas exploratórias dos junkets, a associação à saída de capitais do continente e esquemas de lavagem de dinheiro através de bancos clandestinos levou a que a China entrasse em cena”, afirma Carlos Siu. 

 “A partir do momento em que o Governo Central começou ‘a limpar’ as atividades ligadas ao jogo, tentando impedir a saída ilegal de capitais, controlando os fluxos e aplicando com severidade as leis internas da China, mais dia menos dia essa operação chegaria a Macau”, explicou o advogado Sérgio de Almeida Correia ao Ponto Final.  

Apesar da atividade ter contribuido para a riqueza e desenvolvimento da cidade, também tem sido prejudicial, dada a “falta de transparência” e o “conúbio com familiares de poderosos em empresas e associações das áreas culturais e do turismo”, asseverou o jurista, assinalando também que o Governo Central “não anda a dormir e percebeu, embora tivesse demorado tempo, onde estão os problemas da RAEM”. 

Zheng Zhonglu, professor no Centro Pedagógico e Científico nas Áreas de Jogo e Turismo do Instituto Politécnico de Macau, aconselha todos os casinos e colaboradores a estudar as alterações ao código penal da China. No início do ano, o país dividiu o crime de jogo em três tipos diferentes ao abrigo do artigo 303, sendo um dos crimes a organização de residentes chineses para jogar fora das fronteiras. 

“A China continental está muito preocupada com o dinheiro que sai do país, especialmente nos últimos anos, uma vez que muitos casinos foram estabelecidos fora da China em países como o Vietname, Filipinas, Rússia, e outras regiões (…) que vêm os cidadãos chineses como clientes importantes”, referiu Zeng Zhonglu à Macau News Agency. 

“Entre fevereiro e abril deste ano, houve três reuniões especiais administradas pelo ministro da Segurança Pública para discutir a repressão do jogo transfronteiriço. É possível ver a preocupação do Governo chinês com a questão. Por isso mesmo é que precisam de alguma coisa para reverter a tendência e estão determinados a travar o seu desenvolvimento”, rematou. 

“Desde 1 de abril do ano passado que ficou explícito que qualquer atividade de promoção de jogo no interior da China era ilegal. Enquanto anteriormente havia uma série de critérios para aplicar essa proibição, para aplicar a qualificação desses dados como crime (…) ficou claro que uma mera proposta a uma única pessoa passou a ser passível de ser sancionada”, disse o jurista Carlos Lobo em entrevista à TDM-Rádio Macau. 

De acordo com analistas da JP Morgan, a maioria das detenções nos últimos seis anos “concentraram-se em agentes e ‘soldados’ que efetivamente levaram a cabo as operações ilegais.” A detenção de Alvin Chau prova que a China está empenhada no combate ao jogo ilícito e que a Região Administrativa Especial de Macau é considerada além das fronteiras. Apesar do receio na indústria, a corretora salienta “a melhoria significativa da aplicação da lei.”  

De acordo com a Global Times, de 2020 até outubro deste ano, as autoridades chinesas investigaram mais de 30,000 casos de jogo transfronteiriço, prenderam mais de 160,000 suspeitos, e encerraram mais de 5,100 plataformas de jogo e 3,900 plataformas de pagamento ilegais e bancos clandestinos. 

No futuro, “pode ser que Macau adote a abordagem de Singapura em relação aos junkets, o que significaria uma regulação e supervisão mais intensas, e alteraria completamente o modelo. A massa VIP e premium pode ocupar parte da procura dos jogadores de junkets, mas não toda, uma vez que a circulação de dinheiro e a extensão do crédito serão muito mais restritas”, acrescentou a Bernstein. 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
EconomiaMacau

“As pessoas tendem a esquecer-se do que havia em Macau em 2002”

EconomiaMacau

Seis concessões em Macau com prazo inferior a 20 anos

ChinaEconomia

Pandemia, Hengqin e junkets: o que esperar de Macau em 2022

EconomiaMacau

Pandemia continua a pressionar resultados do jogo em Macau

Assine nossa Newsletter