Guia básico para criar um sucesso musical - 3ª parte: a atitude

Guia básico para criar um sucesso musical – 3ª parte: a atitude

Mais importante que música ou letra, isso qualquer um faz, o sucesso no music-business é a atitude, apostando sobretudo na forma, o conteúdo vem por arrasto.

Quando fui para Londres no final dos anos 80 atrás de uma carreira musical deparei-me com uma postura contrária à dos portugueses. Enquanto cá existiam alguns projectos interessantes e imensos músicos focados em copiar modelos (devemos ser o país com mais bandas de covers do mundo), lá não conheci nenhum interessante e toda a gente era obcecada em ser “diferente”. Num meio de conteúdos pobres e regras limitadas, criar traços distintivos passa mais pelo marketing, recorrendo a truques através dos quais distinguimos um artista: um riff de guitarra, um efeito de estúdio, uma nova máquina de sons, um cabelo assim, uma tatuagem assado, uma determinada posição social ou política… Actualmente o mundo já percebeu como os ingleses funcionavam e todos queremos ser diferentes mas acabámos todos iguais no querer ser diferentes, uma chatice. Só os países ricos impõem a sua “singularidade” no panorama internacional como é o caso da K pop da Coreia do Sul, os outros não se livram dos exóticos catálogos de world music. Seja qual for o sucesso de um género musical ele está cada vez mais suportado no sector visual da indústria de entretenimento, e acessível desde o cinema ao smartphone. Se as estrelas da música popular não tivessem imprensa e redes sociais para expor o seu quotidiano, nem um décimo de notoriedade alcançariam, sei disso pelo comentário que mais ouço de estranhos: “então, anda desaparecido?” “Desaparecido” é um adjectivo curioso, próprio da percepção que o audio-visual inculca nas pessoas acerca do estar vivo, e lembra-me a sorte de Enoch que ao contrário dos outros patriarcas bíblicos não morreu, Deus “levou-o e desapareceu”. “Sim, de facto continuo vivo mas ando por aí num disco voador em viagens inter-dimensionais, nesta dimensão é natural parecer que desapareci”, respondo na esperança de que o indagador se assuste e não pergunte mais nada. Há semanas tomei conhecimento de uma banda chamada Brass Against por ler que num espectáculo um fã deitou-se no palco e a vocalista, Sophia Urista… urinou em cima dele: “that’s MY territory, dude!” Felizmente para o fã, julgo eu, ela não se chama Sophia Caguista. Continuo ignorante acerca da obra (musical) mas agora retenho estes nomes.

De modo oposto, na minha juventude escutava na RDP um programa de rádio gravado na BBC que passava as novidades “lá de fora”, sendo que nessa época “lá de fora” era como se fosse Marte. Fiquei fascinado com o tema “Head” de um tal de “Prince” que o locutor também ignorava quem fosse. Um dia comprei uma t-shirt com esse nome exibindo-a orgulhosamente, a típica fanfarronice juvenil “sei de uma coisa fixe que vocês não sabem”, e deixei de a usar após descobrir ser uma marca de produtos desportivos; pelos vistos somente eu desconhecia o que todos sabiam… Mais tarde ouvi uma “Madonna” e pensei “uau, esta voz vai arrasar o mundo da pop“. Tempos exóticos em que avaliávamos os cantores pelo ouvido. Já nos anos 90 a minha editora convidou-me para a inauguração da loja da Virgin no antigo cinema Éden, abrilhantada por uma girls band que estava a despontar. Apesar de ter uma legião de miúdas histéricas a assistir, aquilo era tão pindérico, qual grupo de faxineiras inglesas que se tinha reunido para vir esfregar umas escadas a Lisboa, que sentenciei do alto da minha convicção “isto não vai a lado nenhum”. Terminado o show fomos ao Alcântara Mar para uma festa privada e tive pena de vê-las cada uma para seu canto sem ninguém lhes ligar peva, armei-me em filantropo anfitrião e estive à conversa com uma delas. O grupo chamava-se Spice Girls e pouco depois tornavam-se mundialmente famosas. Até hoje não sei com qual delas falei, era uma morena… Só assistindo à lavagem cerebral das faxineiras o lerdo compreendeu na sua plenitude que a música pop é muito mais que música. No início deste século um amigo maestro de um programa de TV contou-me que a produção lhe pedira para despedir o baixista. Belos tempos em que havia uma certa ética: envergonhadamente a produção confessou-lhe que o problema se resumia a ele ser calvo, não ficava bem no “boneco”. O tipo foi despedido sem nunca conhecer o real motivo, se calhar desde aí viveu azedo à procura de (imaginários) inimigos que o lixaram, justificando-se com as “politiquices” da malta da televisão… Agora basta raspar o restante, a carequice virou cool e se uma figura tiver uma deficiência na imagem as produções não têm pejo em despedi-la sem passar cartucho, talvez até lhe esfreguem a razão na cara. Não será mau de todo, se eu tivesse uma doença grave também preferia que o médico me dissesse a verdade.

Se porventura o fito é alcançar prestígio, o aspirante a vedeta deve aprender que o mais importante é levar-se a sério. Não importa se apregoa o elixir da eterna juventude, a convicção com que vende o seu produto, sejam apartamentos, automóveis em segunda mão, ideias ou canções dar-lhe-ão o reconhecimento do público. Cuidado que isso tem um preço: quantos artistas pop que se acham especiais caem em desgraça na hora em que o público se seduz por um novo brinquedo? É triste mas qualquer criança que tenha visto o “Toy Story” conhece o complexo salvífico corporizado em Buzz Lightyear, uma personagem convencida de que o seu propósito era salvar o universo quando afinal era só um brinquedo. Conquanto não se obtenha prestígio, o levar-se a sério é uma técnica que proporciona sempre feed back nem que seja pelo escárnio, vide o Zé Cabra ou a Maria Leal. O show biz alimenta-se da exploração de emoções, drama ou comédia; quem neste meio produza drama e se leve muito a sério ou não é sério ou tem um parafuso a menos, para mim possui o mesmo nível de tolice de alguém que se considere o melhor palhaço do mundo. Havendo dinheiro tudo fica mais fácil embora seja complicado transpor certas barreiras: em Portugal a singela versão do clã Iglésias, o clã Carreira, tem vendas, visibilidade, popularidade mas apenas agrada aos fãs, não obtém reconhecimento dos pares ou da crítica; o máximo que o patriarca obterá fora da lógica do negócio é uma medalha dada por um político, e creio que ele crê que já a merecia. Pode contratar a Orquestra Sinfónica de Londres (que está à venda pelo preço certo) transmutar o óleo em margarina, no entanto a essência de bedum permanece a mesma. É mais saudável o azeite Toy… De qualquer maneira basta ter um nome absurdo ou místico para se ganhar uma saliência adicional: Fúria do Açúcar, Ena Pá 2000, Mão Morta, Mamonas Assassinas, Ritual Tejo, Sétima Legião, Conan Osíris, e por aí fora. A evitar como o diabo foge da cruz, são os nomes que já foram fofos um dia como Tonicha, Nucha, Tuxa, Xuxa, Concha e outros que tais; agora são tão démodés como Rajá, Ajax, Juá, Pajú, Javissol ou Dum-Dum.

Importante nota final: na eventualidade de já se andar há algum tempo nisto convém não mencionar o facto, é melhor fazer de conta que apareceu agora, o mercado interessa-se essencialmente por novidades. Sei que é difícil, o ego não resiste à tentação, e perante ameaças ao estatuto adquirido há sempre tendência para fazer da idade um posto, porquanto é frustrante ver chegar miúdos afinadinhos ou pascácios de carinha laroca despejados aos trambolhões de um casting e desatarem a mijar no território que já foi seu (o destino reservado para a Sophia Urista). Também sei que por vezes a derradeira forma de se distinguir é o artista lembrar que tem um passado mas atenção que em especial no nosso país se pode virar contra o próprio; este é um modo de vida efémero, sem gratidão, e a vedeta pode cair no ridículo se se apartar demasiado da realidade. Afirmar que se tem, por exemplo, 20 anos de carreira pode levar à incómoda questão “então andas aí há 20 anos e ainda não passaste dessa merda?” Manda a prudência e o bom senso efectuar uma série de poucos episódios em vez de uma novela onde a história se arrasta até ao patético ou pior, ao esquecimento.

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

Related posts
Opinião

A linguagem é um vírus do espaço exterior

Opinião

Os homens que sabiam de menos *

Opinião

Eternos adolescentes (revisited)

Opinião

Eternos adolescentes

Assine nossa Newsletter