Risco de novo surto em Macau pode ser mitigado - Plataforma Media

Risco de novo surto em Macau pode ser mitigado

Os dois surtos de setembro e outubro trazem à superfície a questão das medidas de prevenção tomadas pelo Governo de Macau. Ao PLATAFORMA, Jacky Cheong, virologista natural de Macau, enfatiza que os mecanismos de segurança podem ser melhorados, apesar de evidenciar também a falta de profissionais qualificados para lidar com a situação epidémica. Sobre a vacinação, o especialista indica que a principal razão para o aumento da taxa de vacinação tem sido as políticas governamentais, pois “o público não se sente em risco.”  

Macau entrou em outubro com 45 por cento da população com a vacinação completa. Pouco mais de um mês passou desde o início do surto de setembro, no dia 25, que forçou a cidade a implementar restrições locais e fronteiriças para conter a epidemia. No dia 25 de outubro, um mês depois, a taxa de vacinação completa subiu para 50 por cento, e o número de pessoas que se vacinou com a primeira dose mais que duplicou. 

De acordo com os dados oficiais, antes do surto de 25 de setembro, apenas 51,361 pessoas estavam vacinadas com a primeira dose, e 307,703 com as duas. Um mês depois, a 25 de outubro, 107,776 já estavam vacinadas com a primeira dose, e 343,230 com a segunda, tendo a taxa de vacinação completa aumentado cinco por cento.   

Leia mais sobre o assunto em: Deputados pedem planos de contingência, incentivos à vacinação e mais apoios

Apesar do aumento, campanha ainda está longe das expetativas das autoridades, que querem atingir uma taxa de vacinação de 80 por cento, pelo menos. Jacky Cheong, um virologista nascido em Macau que reside em Xangai, explica que a população ainda não compreende na totalidade os benefícios da vacina. “Alguns dos pacientes (destes últimos surtos) estavam vacinados e, mesmo assim, deram positivo à Covid-19. Há residentes que acreditam que a vacina expirou, e outros que pensam que a vacina doméstica não é eficaz, porque a maioria dos casos positivos já se tinha inoculado com essa vacina”, indica.  

Jacky Cheong, virologista.

Macau apenas oferece duas vacinas: BioNTech Pfizer, oriunda da Europa, e a Sinopharm, proveniente da China. Esta última, de acordo com os últimos dados divulgados, tem uma eficácia de 79 por cento. Tai Wa Hou, a 6 de setembro, sublinhou a importância da vacinação e frisou que a sua função máxima é a prevenção da morbidade, gravidade e mortalidade. À luz de estudos relacionados, apesar da vacinação não ser 100 por cento preventiva, a quantidade de vírus e a propagação diminuem significativamente se alguém for infetado após a administração da vacina. Ao mesmo tempo, a possibilidade de infetar aos outros torna-se reduzida.  

Contudo, é certo que a campanha de vacinação ganhou força após o surto de 25 de setembro, com metade da população já com a vacinação completa. Das pessoas que tinham apenas a primeira dose a 25 de setembro (51,361), mais de 35 mil tomaram a segunda dose até 25 de outubro. Ou seja, mais de 92 mil pessoas receberam a primeira dose durante este período, representando cerca de 13 por cento da população.   

O virologista, com um doutoramento em medicina clínica e doenças infecciosas, obtido no Imperial College London, diz ao PLATAFORMA que o aumento na vacinação foi afetado por vários fatores, não apenas os surtos. Mais que isso, Jacky acredita que as políticas implementadas pelos Governos de Macau e Guangdong é que tornaram a vacina mais apelativa. “Na última onda, Guangdong exigiu certificado de vacinação para atravessar a fronteira, bem como outras medidas administrativas. Em setembro, o Governo de Macau também passou a exigir vacina ou teste de ácido nucleico negativo todas as semanas aos trabalhadores da função pública, antes de entrarem no local de trabalho. Caso contrário, teriam falta injustificada.”

Os últimos dois surtos provaram, claramente, que ainda estamos em risco.

 Jacky Cheong também critica as medidas do Governo para motivar a vacinação, referindo que “dizer na rádio e televisão que a vacinação é segura, com vários cartazes e slogans na rua” são métodos que “já eram utilizados há 30 anos”. “Não são muito importantes para a taxa de vacinação, só se gasta dinheiro”, critica. O virologista enfatiza que a fraca adesão reflete a falta de confiança do público nas instituições de saúde. “O que precisamos de fazer é analisar quais os grupos que não têm intenções de se vacinar, as suas questões, e educar as pessoas em vários aspetos. Até devíamos incentivar o público a explorar a história das vacinas, a sua produção, razões para a sua distribuição apertada e porque devemos apreciar esta oportunidade”, sublinha.  

Leia mais sobre o assunto em: Macau apela à vacinação da população para proteger crianças

Quanto ao trabalho antiepidémico em Macau, Jacky refere que “o público não se sente em risco”. “Mas os últimos dois surtos provaram, claramente, que ainda estamos em risco”, alerta. “O facto é que a vacina é a forma mais eficaz de prevenir outros surtos, e esse princípio científico nunca será afetado”, assume.  

Relativamente aos dois surtos e a prevenção epidémica, Jacky afirma que as medidas implementadas pelas autoridades de Macau têm tido sucesso. No entanto, refere que o grande problema tem sido a falta de supervisão após a implementação dessas medidas. “Neste processo, observa-se que o mecanismo de revisão não tem sido eficaz. Por exemplo, ao anunciar que a causa da infeção foi um segurança de um centro de isolamento, confirma que há espaço para melhorias.” 

Há falta de transparência, e isso cria ceticismo entre o público

“No primeiro surto, em setembro, mesmo antes de haver provas científicas de que estava controlado, resumiram a atividade escolar, criando uma reação em cadeia para muitos dos estudantes de fora. Esta situação prova que o padrão científico não foi bem aplicado, mas também que as tomadas de decisão não se baseiam nele. Há falta de transparência, e isso cria ceticismo entre o público”, critica. Jacky acredita que o casamento entre os problemas com o sistema e a falta de profissionais qualificados são os grandes problemas de Macau na luta contra a pandemia. “Não é que o Governo não queira fazer um bom trabalho, mas Macau não tem os recursos humanos necessários”, acrescenta.  

Para prevenir a ocorrência de novos surtos, o virologista sugere reunir informação e opiniões de diferentes grupos, avaliar o risco, formular novas medidas, melhorar o sistema de monitorização e acelerar o sistema de resposta. Também há falhas na identificação dos contactos próximos, afirma, pois ainda existe risco de propagação do vírus. Jacky explica ao PLATAFORMA que vários especialistas da China defendem que o sistema de código amarelo devia ser mais apertado.   

Ainda não se sabe quem esteve no autocarro com os pacientes infetados, precisamos de estabelecer um sistema de monitorização eficiente

Sobre a monitorização, “ainda não se sabe quem esteve no autocarro com os pacientes infetados, precisamos de estabelecer um sistema de monitorização eficiente. Podemos considerar a utilização do código de localização em grandes espaços, como aeroportos e centros comerciais. Os locais mais pequenos podem ser ajustados de acordo com o desenvolvimento da epidemia”, exemplifica. A questão dos imigrantes ilegais e dos residentes que deixaram caducar o seu cartão também representa um grande desafio na prevenção da epidemia. Além disso, não se tem ajustado os pormenores a tempo quando o vírus está perto de Macau. Mas de um modo geral, não existem lacunas sistemáticas”, salienta.    

Jacky Cheong também sugere que os cartões eletrónicos de pagamento dos autocarros (Macau Pass) sejam sujeitos a um sistema obrigatório que utilize os nomes das pessoas, para rastrear de forma mais eficaz os contactos próximos. No entanto, essa situação tem sido criticada pela comunidade, que acredita que a medida interfere na esfera privada. O virologista sublinha que em alguns eventos de saúde pública não urgentes, como a SIDA, tem de se equilibrar a prevenção da epidemia e a privacidade, persuadindo a pessoa diagnosticada a contactar as pessoas com quem teve contacto sexual para realizarem testes.  No entanto, numa situação emergente de saúde pública, “infelizmente, não há muitas opções. O único equilíbrio é o de trocar vidas. Por conseguinte, a maioria das leis de emergência de saúde pública permitem à autoridade executiva exercer maior poder”, conclui.  

Até à data de publicação, Macau conta com cerca de 345 mil pessoas totalmente vacinadas (50,5 por cento) e 108 mil pessoas com a primeira dose. No Território, aproximadamente 66,4 por cento da população já foi vacinada com, pelo menos, uma das doses.  

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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