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“Chegámos aqui à baía do Rio das Pérolas há cinco séculos, mas ainda somos desconhecidos”

Catarina Domingues

Ana Menezes Cordeiro é a primeira mulher portuguesa a assumir a chefia de uma missão diplomática na China. Chegou a Cantão há pouco mais de um mês e tem em mãos a representação de uma pequena comunidade, dispersa por cinco províncias, no sul da China, e uma área nove vezes superior a Portugal. Contrariar o “défice de conhecimento de Portugal” nessa região é uma das missões da nova cônsul-geral em Cantão. 

É a primeira mulher diplomata portuguesa a assumir uma chefia de missão na China. Como olha para este dado? 

A.M.C. – Chefiar uma missão, seja uma embaixada ou um consulado, representa sempre uma grande responsabilidade para qualquer diplomata, independentemente do género. Ser a primeira mulher a chefiar uma missão na China é uma coincidência, já podia ter acontecido, mas trata-se de uma coincidência que muito me honra. Existe hoje na diplomacia portuguesa um maior equilíbrio de género e as mulheres têm vindo a ocupar cada vez mais funções de chefia, quer internamente no Ministério dos Negócios Estrangeiros, quer no quadro externo e em todas as latitudes. 

Em termos da diplomacia portuguesa no mundo, quais são os números?  

A.M.C. – Atualmente, as mulheres representam um terço dos diplomatas, mas apenas 15% das chefias de missão no estrangeiro são asseguradas por mulheres. Ainda estamos longe da paridade de chefias, mas estamos a caminhar no bom sentido. Leva algum tempo, as mulheres entraram na carreira no pós-25 de abril. 

Na política chinesa, a mulher tem um lugar pouco representativo: são menos de 9% entre os secretários do partido ou líderes dos governos locais. Apercebeu-se desta realidade?  

A.M.C. – Não, já tive alguns contactos institucionais e tenho-me encontrado com mulheres. Se se refere a cargos de chefia, é verdade que a maioria é ocupada por homens, mas não penso que seja um problema, as mulheres estão bem representadas nas instituições chinesas. Não conhecia o dado que está a referir. Cheguei a 1 de setembro, estive em quarentena até dia 22 e fez agora um mês em que estou de facto a trabalhar. 

Quando soube que vinha para a China – para um posto com uma área ampla e populosa, num país grande e também controverso, nomeadamente ao nível dos direitos humanos, qual foi a sua reação? 

A.M.C. – Fiquei feliz, o consulado-geral em Cantão foi a minha primeira opção na candidatura que apresentei ao movimento diplomático. Tinha um fascínio de longa data pelo Império do Meio. Servi na América do Sul, na Europa, cresci em África, e achei que era altura de vir trabalhar para a Ásia. É um grande desafio, como referiu. A China é uma das maiores economias do mundo, primeiro exportador mundial, é o nosso 12º principal cliente, sexto maior fornecedor e estou muito animada com esta colocação. Temos sempre abertura para dialogar com a China e procurar soluções. 

É a primeira vez no país? 

A.M.C. – Sim, mas a adaptação não está a ser difícil. Gosto da cidade, é moderna e tem uma vegetação luxuriante, é muito agradável.  

Que balanço faz do primeiro mês? 

A.M.C. – Foi um mês bastante dinâmico, com contactos institucionais, presença em feiras e os primeiros encontros com a comunidade portuguesa aqui de Cantão. Tinha previsto deslocar-me a Hunan, mas devido às restrições em vigor tive de adiar. Há um evento que gostava de salientar: participei na inauguração da PorCham South China, a Associação de Negócios Luso-chineses em Cantão. 

Leia mais sobre o assunto em: Clube de negócios luso-chinês inaugura sede em Cantão
Ana Menezes Cordeiro na inauguração da PorCham South China, a Associação de Negócios Luso-chineses em Cantão.

Que perfil tem a comunidade que representa? 

A.M.C. – Contamos com 318 inscrições consulares, mas temos noção que estamos abaixo disto. Alguns foram embora. A maioria da comunidade na área de jurisdição do posto está concentrada em Guangdong, em particular em Cantão e Shenzhen, e é uma comunidade que se dedica sobretudo a atividades ligadas à importação e exportação, restauração, arquitetura, ensino, engenharia, temos também no futebol alguns treinadores, e alguns estudantes, não muitos. Um dos meus objetivos é precisamente ir ao encontro de todos os portugueses da minha vasta área consular. A comunidade pode não ser muito grande, mas a área consular é. Como disse o nosso primeiro-ministro há uns tempos, onde está um português está Portugal. 

Diria que o posto consular de Cantão está sobretudo virado para o apoio à comunidade empresarial? 

A.M.C. – A nossa prioridade enquanto consulado-geral é sempre servir a comunidade portuguesa na área de jurisdição e proteger os seus interesses – neste caso em cinco províncias: Guangdong, Hunan, Guangxi, Fujian e Hainão. A dimensão económica e comercial é também uma grande prioridade. Quer eu, quer o delegado da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) vai procurar contribuir para promover a imagem de Portugal no sul da China, apoiar a internacionalização das nossas empresas, a divulgação das marcas, dos produtos nacionais e reforçar os canais de contacto, procurar captar projetos de investimento que sejam produtivos e estruturantes.  

Para mim, o maior desafio vai ser contrariar algum défice de conhecimento de Portugal nas províncias do Sul da China que o consulado-geral cobre. A criação do consulado-geral em Cantão, que abriu ao público em junho de 2018, representa uma oportunidade ímpar para reforçar a presença e a visibilidade de Portugal no Sul da China. É que nós chegámos aqui na baía do Rio das Pérolas há cinco séculos, mas ainda somos desconhecidos nas províncias do Sul. É muito importante reforçar os laços culturais e procurar dar a conhecer Portugal e o melhor que o nosso país tem para oferecer. Isto passa por apostar em ações culturais e pelas componentes de cooperação académica e de difusão de língua e da cultura portuguesas. Nas cinco províncias da jurisdição do posto, apenas a Universidade de Estudos Estrangeiros de Guangdong tem uma licenciatura de português, num universo de 294 milhões de pessoas. É manifestamente insuficiente.  

Ana Menezes Cordeiro com a Associação Comercial de Indústria de Importação, Exportação e Retalho Transfronteiriço entre Zhuhai-Macau.

Números indicam um crescimento dos cursos de português na China. 

A.M.C. – Não nestas cinco províncias. E é um espaço que representa nove vezes Portugal. 

Qual é a razão? 

A.M.C. – Haverá outras razões, mas o facto de não estarmos (consulado) aqui é um aspeto a considerar, porque é preciso pôr em marcha essa cooperação académica. Tenho estado em contacto com universidades em Portugal a averiguar o interesse em assinar ou renovar acordos de cooperação exatamente para conseguirmos identificar eixos de ação específicos. É um primeiro passo, há muito a fazer. Deixe-me dar-lhe um exemplo curioso, que tem a ver com aquilo que eu estava a dizer de Portugal ainda não ser suficientemente conhecido no sul da China. Há a Portuguese Egg Tart, como chamam aqui o pastel de nata, em todas as esquinas desta cidade. No entanto, apesar da designação, não é um doce que os cantoneses associem a Portugal. Aliás, seria também conveniente trazer o pastel de nata original para Cantão. 

A pandemia teve forte impacto nestes negócios portugueses na China? 

A.M.C. – Este é um período especial, muito complexo, que coloca grandes desafios, desde logo a questão da mobilidade que é fundamental para o tecido empresarial. Parece-me evidente que para quem tenha interesse em vir para a China fazer negócios e vice-versa, esta situação complique tudo. Em relação à pandemia, eu quero ser otimista. A China já vacinou mais de 70 por cento da população e eu quero acreditar que em resultado a situação melhore. 

Assistimos lá fora a episódios de discriminação contra asiáticos, motivados pela pandemia, e em Cantão contra cidadãos estrangeiros [elementos da comunidade africana queixaram-se de comportamentos racistas]. Como se sentiu a comunidade durante este período? 

A.M.C. – Não é uma comunidade de todo discriminada. Não senti isso em momento nenhum, não tive qualquer reporte de alguma queixa nesse aspeto. É uma comunidade pequena, mas bem integrada. 

No caso de Tsz Lun Kok – jovem condenado em Shenzhen por entrar em águas territoriais quando fugia para Taiwan – há familiares que disseram ter sido impedidos de contratar advogados. Portugal poderia dar mais apoio em situações que envolvem cidadãos nacionais?  

A.M.C. – Apesar da detenção e julgamento do jovem luso-chinês Tsz Lun Kok ter ocorrido muito tempo antes da minha assunção de funções, estudei o caso no âmbito da preparação da minha vinda para Cantão. O cidadão em causa tem, para além da nacionalidade portuguesa, também a nacionalidade chinesa. Um cidadão chinês detido na China, por ilegalidades aqui cometidas, é julgado pela ordem jurídica chinesa. Aconteceria o mesmo se este cidadão tivesse cometido uma ilegalidade em Portugal, tendo a nacionalidade portuguesa seria julgado pela nossa ordem legal e de acordo com os trâmites do nosso país. O jovem está detido em Hong Kong e a aguardar julgamento por delitos alegadamente cometidos naquele território. 

Acompanha a realidade de Macau? 

A.M.C. – Sim, posso dizer que acompanho a situação na região administrativa especial de Macau. 

Como vê a existência de uma nova linha patriótica na Teledifusão de Macau, que já levou à saída de pelo menos dez jornalistas portugueses e a um apelo por parte do Ministro dos Negócios Estrangeiros português ao respeito pela lei básica? 

A.M.C. – Importa sublinhar que Macau representa um sucesso no quadro do relacionamento entre Portugal e a China, nunca tendo sido motivo de conflitos, quer no contexto da retrocessão, quer no pós-retrocessão. Macau conta com uma comunidade pacífica que respeita a soberania chinesa, onde é importante assegurar o escrupuloso respeito pelo enquadramento político, social e jurídico que ambos países definiram, em conjunto, antes da transição. 

Sente que existe pouca interação entre as comunidades portuguesas de Macau e do Interior da China, ou seja, que ambas não conhecem o espaço uma da outra?  

A.M.C. – Macau está aqui ao lado, com a nossa comunidade portuguesa e lusodescendente, com a sua história, cultura e tradições e é muito desconhecida aqui. Estamos a falar de duas horas de caminho de carro. Como é que é possível haver esse desconhecimento? Não estava à espera disso. O que pretendo fazer é trazer mais Portugal para o Sul da China. O relacionamento entre Portugal e a China é multissecular, é cordial, de respeito mútuo, ganhou um novo impulso com a assinatura da parceria estratégica global, mas, apesar deste quadro, as relações comerciais continuam marcadas por um forte desequilíbrio da balança comercial a favor da China. Há nas províncias do Sul oportunidades muito substanciais a explorar. Guangdong é a província mais rica do país, com o maior PIB. A iniciativa ‘Faixa e Rota’ e o projeto ‘Área da Grande Baía Guandong-Hong Kong-Macau’ [GBA, na sigla inglesa] representam um grande potencial para desenvolver e reforçar os investimentos e as trocas comerciais entre os dois países. A GBA pretende criar um núcleo de tecnologia e inovação do Sul da China, assente no reforço de algumas indústrias especializadas e com o apoio dos serviços qualificados que existem em Hong Kong (centro financeiro) e Macau (cultura e turismo).  

Cantão ou Guangzhou é a capital e maior cidade da província de Cantão (Guangdong), na China. Situada no Rio das Pérolas, a cerca de 120 km a noroeste de Hong Kong e 145 km a norte de Macau.

Que oportunidades existem para Portugal? 

A.M.C. – Portugal poderá trazer para a GBA a experiência e o conhecimento em áreas como turismo, a farmacêutica, componentes de inteligência artificial, smart cities, comércio eletrónico, suporte de operações logísticas, indústria verde e novas tecnologias de energia. Nós estamos aqui para dar o apoio necessário aos nossos empresários que nos colocam estas questões. 

Leia mais sobre o assunto em: “Temos que aprofundar as relações com Macau, a Grande Baía e a China”

Qual é o maior entrave ao posicionamento dos empresários portugueses, além da língua? 

A.M.C. – Há outras questões em que podemos ajudar, que passam por tentar obter informações relativamente à legislação, à prática de como é que se poderá fazer negócios. Há algumas queixas… Isto é um mercado muito competitivo. É preciso haver estratégias robustas de marketing e colocam-se, às vezes, algumas questões relativamente à proteção da propriedade intelectual e industrial, mas é uma questão das empresas e dos empresários serem bem acompanhados, e nós estamos cá para isto. 

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