Não somos proprietários da Terra, somos inquilinos - Plataforma Media

Não somos proprietários da Terra, somos inquilinos

Se o Sol fosse maior ou menor, se a Terra estivesse ligeiramente mais perto ou mais longe dele, se não dispusesse de um interior em fusão que criou rugas à superfície permitindo não ser um planeta inteiramente coberto de água, se não se desse a fuga de gases do interior que construíram a atmosfera e forneceram um campo magnético protector de radiações, se o seu eixo não tivesse uma inclinação de 23º que possibilita haver quatro estações, se não existisse a Lua com o estranho e conveniente tamanho que possui e a força gravitacional que exerce sobre a Terra proporcionando a velocidade e ângulo certos para conferir estabilidade à rotação e assim promover o desenvolvimento da vida, se não tivessem acontecido extinções em massa, nomeadamente a dos dinossauros, e após isso uma ausência de grandes cataclismos, não existiria este texto nem ninguém para dar pela sua falta. A nossa casa é uma bolha frágil que sustenta uma causa ainda mais frágil, a vida. Porventura haverá vida diferente das condições que conhecemos, água e carbono, até agora ainda não a descobrimos fora da Terra nestas condições quanto mais noutras…

Um recente estudo efectuado por várias instituições académicas da Europa e Estados Unidos em 10 países concluiu que 8 em cada 10 jovens portugueses entre os 16 e 25 anos e quase 2/3 na média do conjunto crê que o mundo está condenado por causa das alterações climáticas. O período de vida destes jovens é menos que nada considerando a extensão do tempo universal, o seu pessimismo resultará das notícias que recebem, não das sensações porque não conhecem outras para comparar. Eu cresci numa época um pouco distinta, ganhei uma pequena adição de dados sensoriais, porém, se tivesse vivido entre os séculos XIV e XIX, altura em que sucedeu a chamada “pequena idade do gelo”, formaria sobre o clima noções totalmente diferentes das que disponho. Os ciclos da Terra são incomensuravelmente maiores que os das nossas vidas ou memórias, logo a experiência pessoal bem como a de gerações próximas não garante um juízo fiável do panorama completo. É o conhecimento científico, não necessariamente de acordo com as impressões sensoriais que providencia o cenário aproximado da realidade. Também será lícito duvidar da totalidade dos pareceres científicos, não só porque os cientistas divergem sobre muitos assuntos como algumas certificações levantam a suspeita de servirem determinados interesses, no entanto uma coisa é certa: a intervenção humana está de facto a destruir o ecossistema. O desaparecimento, por exemplo, das já bastante ameaçadas abelhas causará uma catástrofe ambiental irreversível devido à imensa cadeia ecológica que sustentam; o envenenamento dos solos e mares por metais pesados e microplásticos é demasiado evidente para se negligenciar. Malgrado a vantagem do córtex cerebral que facultou o prolongamento do tempo e qualidade da vida humana, a uma escala global ela continua tão frágil como sempre foi, dependemos totalmente do meio ambiente, sem o respeitarmos estamos condenados. Nem é preciso ir à Lua para se compreender quão vulneráveis somos, experimentem passar um dia no deserto ou nos pólos, subir ao pico de uma montanha ou descer uns metros no mar. Fomos moldados para viver numa ínfima faixa de condições, a mínima variação coloca-nos em perigo. Assim a nossa sobrevivência é a verdadeira questão de fundo das alterações climáticas. Quer tenham chegado por si ou sido conduzidos a essa impressão os jovens do estudo têm razões para se preocuparem. O mundo está-se borrifando para a nossa existência, há 65 milhões de anos aniquilou sem remorsos a espécie reinante no planeta e a Terra nada fez para a defender.

Mais que discutir se caminhamos para um aquecimento global (que geralmente origina um arrefecimento global), se a responsabilidade é 10, 50 ou 100% humana, importa mudar a consciência de cada um, desfocá-la do interesse individual e centrá-la no colectivo. Importa sobretudo interiorizar que não somos proprietários da Terra, somos seus inquilinos. Quem mais tem pago a factura é quem menos tem contribuído para os problemas, o que revela o nosso egoísmo, mas não julguem que directa ou indirectamente eles não irão bater à porta de todos, hoje já chegam ao primeiro mundo e nem a sua riqueza ou tecnologia os resolve: incêndios descontrolados, tempestades monstruosas, inundações inauditas, e consequentes migrações forçadas. Em 2021 os civilizadíssimos noruegueses, islandeses e japoneses praticam a caça intensiva à baleia; nas ilhas Faroé, território autónomo da Dinamarca, num só dia da semana passada chacinaram 1400 golfinhos. O prato da consciência ecológica serve-se conforme o freguês… Há uns 20 anos que faço reciclagem. Pode dever-se à informação, à genuína apreensão actual mas exceptuando a praga dos sacos de supermercado parece que nunca juntei tanto plástico como agora, aflige constatar o volume re-produzido diariamente por uma família. Admito que seja uma impressão transmitida pela consciência contudo significa igualmente o despertar de uma reacção meio orgânica, o caminho necessário para empreender ou estar receptivo à mudança. Não me interessa se são as emissões de carbono ou a maior actividade das manchas solares que estão a provocar o aquecimento; não me interessa se alguém está a fazer rios de dinheiro com o tema, sempre houve e haverá oportunistas para cada situação; não me interessa se o último século se baseou no requisito do plástico, dos combustíveis fósseis, da insustentabilidade predatória; foi uma fase, antes não era a norma e não poderá ser no futuro sob pena de não sobrevivermos.

*Músico e embaixador do Plataforma

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