
Há imagens demasiado contraditórias para serem aceites. Há duas ou três semanas, em Portugal, um pai era impedido de assistir a um jogo amador dos seus filhos, para se evitar que 50 ou 100 pessoas potenciassem o risco de contaminação da Covid-19. De repente, em Londres, onde os níveis de contágios são altos, o Estádio de Wembley está cheio, porque a UEFA exige e o governo britânico cede. Ninguém percebe, afinal, como segue a vida dentro de momentos. Isso retira autoridade a quem decide – e o respeito de quem deve obedecer.
Em Macau, a prevenção continua a ser palavra de ordem. O que, tendo inúmeras vantagens, tem também um lado de exagero e irracionalidade. A mobilidade continua vedada, por força de uma quarentena que afunda a cidade num isolamento que nada de bom anuncia: do ponto de vista económico, político, intercultural e psicológico.
Não faz hoje sentido que cidadãos vacinados e/ou com testes negativos credíveis – residentes ou não – continuem sujeitos a longos períodos de isolamento forçado. Não se trata de relaxar a proteção, nem de menorizar os riscos da pandemia. O que importa é adequar as decisões políticas à necessidade de reativar o mínimo de normalidade, tendo em conta o sucesso da vacinação, um pouco por todo o mundo. É preciso uma visão mais arrojada sobre a própria cidade, o seu desenvolvimento e relações com o exterior. Quem esteja vacinado e/ou com teste negativo, deve no mínimo ter um isolamento reduzido – e se puder em casa, em vez do hotel.
Não faz hoje sentido que cidadãos vacinados e/ou com testes negativos credíveis – residentes ou não – continuem sujeitos longos períodos de isolamento forçado.
A ciência médica, como as ciências sociais, dizem-nos que nada se ganha em prolongar o que não faz sentido nem é racional. Aliás, as pessoas deixam de entender os limites à sua vida, sempre que o Estado perde sentido e racionalidade. Como dizia Confúcio, a autoridade é sempre contestada quando perde legitimidade.
*Diretor-Geral do Plataforma