Início » Nem verde, nem democrática, nem estratégica – Apreciação Parlamentar da nova Lei das Minas

Nem verde, nem democrática, nem estratégica – Apreciação Parlamentar da nova Lei das Minas

Alma RiveraAlma Rivera

Depois de meses de suspense, ao som de promessas verdes e entremeados pela atribuição de novas concessões de prospeção e pesquisa de minerais, o Governo publicou a 7 de maio o Decreto-Lei n.º 30/2021 que “procede à regulamentação da Lei n.º 54/2015, de 22 de junho, no que respeita aos depósitos minerais.”

Sem surpresas, o modelo defendido pelo Governo e presente no Decreto-Lei é a continuação de um perigoso caminho de entrega de setores produtivos estratégicos ao capital estrangeiro. Para além dos aspetos mais estruturantes da concessão a particulares da revelação e do aproveitamento dos recursos nacionais, do “quem”, levantam-se outros problemas com esta nova legislação relativamente ao “como”.

Foi precisamente porque estão em causa valores tão sensíveis como a salvaguarda da natureza e as potencialidades económicas de Portugal que o PCP requereu a Apreciação Parlamentar do diploma.

O PCP não é contra o aproveitamento dos recursos, desde que isso seja feito em consonância com as melhores práticas ambientais, tecnologicamente possibilitadas e sem desrespeito pelas populações e pela sua vontade, devendo haver uma ponderação séria de interesses, não apenas a curto prazo.

O PCP defende que o país pode e deve conhecer e explorar os recursos de acordo com o seu interesse em cada momento e não a reboque do interesse de algumas empresas.

O setor mineiro tem de trazer vantagens ao povo e ao país, tem de ter o interesse público em primeiro lugar. No passado, o Estado foi agente económico na área mineira, tanto na pesquisa como na exploração e foi até criada a Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM), EP. Entretanto, a política de direita seguida por sucessivos governos tratou de implementar a lógica de “divisão do bolo” da mineração entre o capital estrangeiro e a EDM é hoje uma empresa de reparação de danos, para remediar (dentro do que é remediável!) as destruições ambientais que os privados foram promovendo no país.

Aquilo que temos defendido é que só uma visão integrada do país, das suas potencialidades, das suas limitações ambientais, com planificação nesta como noutras áreas, pode conseguir alavancar a produção nacional, criar riqueza e emprego, garantindo que esse valor fica em Portugal e que, pelo contrário, não fiquemos apenas com a destruição dos ecossistemas e das outras potencialidades económicas dos territórios. Só a gestão pública deste setor sensível pode assegurar o adequado desenvolvimento económico e os padrões sociais e ambientais.

Para além disso, no DL não se assegura que a participação pública é levada a sério, continuando a ser tratada enquanto mera formalidade para cumprir calendário, tal como não está considerada a participação das populações em relação a todas as fases do processo. A nova legislação continua a não acautelar a concertação com o poder local, uma vez que o chama a participar em processos que já foram aprovados anteriormente (precisamente durante os meses em a lei esteve a ser produzida).

O novo diploma, por mais verde que se pinte, não garante nem a salvaguarda dos ecossistemas, nem dos diversos valores ambientais e patrimoniais, permitindo-se a afetação de áreas com outros potenciais, consonantes com necessidades existentes nas diversas regiões.

Nestas condições, apesar de se anunciar que se pretende prosseguir no sentido do interesse público e de acautelar os bens em presença e as populações, a leitura do diploma não demonstra que tais aspetos estejam de facto assegurados, nem que a participação de entidades e público em geral tenha ponderação nas tomadas de decisão.

Assim o PCP espera que o voto das restantes bancadas viabilize a Apreciação Parlamentar e assim se possam impedir erros de difícil correção.

*Deputada do Partido Comunista Português (PCP)

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website