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Juntos pelo desenvolvimento regional

Arecém-criada Aliança de Designers Urbanos da Grande Baía quer colocar a região na vanguarda. O objetivo é fazer da excelência o critério do desenvolvimento regional através de iniciativas que sensibilizem entidades governamentais e a sociedade civil da importância do espaço público. Há obstáculos, concordam os membros, mas que são superáveis.

Arrancou com cinco cidades fundadoras mas o objetivo é chegar às 11 que compõe a Grande Baía. Por agora, a aliança integra o Centro de Arquitectura e Urbanismo – Macau (CURB, na sigla inglesa), a Associação de Planeamento Urbano de Cantão, a Associação de Planeamento e Design de Zhuhai, o Instituto de Design Urbanístico de Hong Kong e o Instituto de Planeamento Urbano de Shenzhen. Ao PLATAFORMA,  Nuno Soares explica que a aliança pretende criar massa crítica para promover a qualidade do espaço urbano. “Cada um de nós já faz isso em cada uma das nossas cidades. Agora, vamos fazê-lo em conjunto. Quando falamos da Grande Baía é sempre do ponto de vista político, macroeconómico e da internacionalização da China, mas há mais”, vinca o presidente do CURB.

Joel Chan, presidente do Instituto de Design Urbanístico de Hong Kong, defende que a Grande Baía vai exigir soluções criativas em termos tecnoló- gicos e de governação para ultrapassar obstáculos como a existência de várias fronteiras físicas e administrações, que não existem noutras Baías como a de São Francisco ou a de Tóquio. “Nós faremos com que o urbanismo passe a ser tido em conta no processo de tomada de decisões e políticas”.

O maior problema e desafio que enfrentamos em termos de desenvolvimento urbano, vinca a vice-secretária geral do Instituto de Planeamento Urbanístico de Shenzhen, é a influência de grupos de interesse e do capital. “Sabemos que a Grande Baía é um das áreas mais ativas em termos económicos na China. O desenvolvimento da economia de mercado e o peso do capital criaram uma economia industrial pujante. Há o risco de o urbanismo ceder à pressão e de se negligenciarem as necessidades da população”, avisa Du Yan. A responsável acrescenta: “Como construir mais espaços públicos e melhorar o índice de felicidade da população ao mesmo tempo que se respeita as leis do mercado, confiando no poder das leis e da sociedade numa área como esta é um desafio complicado”.

Já Huang Dingxi, vice-presidente da Associação de Planeamento Urbano de Cantão, aponta como desafio a discre- pância entre as cidades, e de ainda haver projetos de desenvolvimento e regeneração urbana que ignoram a importância do planeamento urbano. “Os espaços de excelência associados a alta qualidade de vida são acessíveis a apenas uma parte dos cidadãos da Grande Baía. A nossa tarefa, enquanto grupo, é alertar para a centralidade do design junto dos de-cisores.”

O professor salienta que as cidades da Grande Baía estão num ponto de vira- gem: depois do crescimento acelerado, entraram agora num período em que se dá prioridade ao nível de vida no processo de desenvolvimento. O planeamento urbanístico, continua, vai ter um papel crucial no equilíbrio entre a natureza, a cidade e a população.

A Semana do Design Urbanístico da Grande Baía será a primeira iniciativa da união. Agendada para novembro, em Hong Kong, incluirá a cerimónia do Prémio e a Conferência Internacional de Design Urbanístico da Grande Baía. O plano é que ambos os eventos tenham lugar de dois em dois anos de forma rotativa. “Qualidade de vida atra- vés do Planeamento Urbano: Plano de Ação para a Mega Região” é o tema da primeira edição, que contará com pelo menos 500 especialistas das regiões, do Continente e internacionais. No caso do prémio, cujas nomeações por parte dos institutos começam este mês, serão selecionados os melhores no âmbito da qualificação do espaço urbano de cada uma das 11 cidades, depois avaliados por um júri que escolherá o vencedor, a ser anunciado numa cerimónia após a conferência.

No fim do ano, haverá exposições itinerantes com os projetos finalistas e vencedor. “Através da colaboração e cooperação das cinco principais cidades da Grande Baía podemos chamar a atenção para os mais diferentes setores e Governos de como é importante o planeamento urbanístico para se conseguir uma cidade mais sustentável e habitável”, vinca Joel Chan. Da aliança só fazem parte entidades sem fins lucrativos e com percurso reconhecido pelos pares.

“Não vamos ser nunca um consórcio para concorrer a projetos”, vinca Soares. “Mas vamos lutar para que existam concursos de desenho urbano. O primeiro e grande objetivo é que se dê mais importância à qualificação do espaço público e a maneira que temos de o fazer, uma vez que não somos entidades governamentais, é promovendo a excelência. A nossa ambição é por a Grande Baía na vanguarda internacional”, reforça. “Estou muito à vontade que Macaupertença a esta aliança porque é uma aliança de bons princípios e práticas.”

IDENTIDADES

Pensar regional não é contudo uma abordagem nova para Nuno Soares, que recorda que o conceito subjacente à Grande Baía – de pensar regional – já estava patente noutro plano que a pre- cedeu, do Delta do Rio das Pérolas. Esta zona, além dos países de língua oficial portuguesa, Macau e do sudeste asiático, foi desde o início uma área de intervenção do CURB. “O que é quemuda agora? Antes tínhamos 11 cidades que trabalhavam de forma independente, que iam ter um desenvolvimento de acordo com o seu contexto, desenvolvimento e capacidades, e agora não”, refere.

O problema de uma cidade, reitera Chan, pode ser uma oportunidade para outra, sem prejuízo da identidade de cada uma. “A diversidade é aliás um princípio fundamental no desenvolvimento urbano. O denominador comum serão os critérios a ter em conta para esse mesmo desenvolvimento”, ressalva o arquiteto. Huang enfatiza que o planeamento urbanístico é determinante para preservar o contexto cultural e a identidade de cada cidade, ao mesmo tempo que a coordenação regional facilitará a construção de infraestruturas e espaços que permitam o intercâmbio aos níveis da Finança, Indústria e Comércio. “O Design e o Planeamento é como as mãos direita e esquerda. Aproveitando as vantagens de ambos, conseguiremos uma cooperação suave e a preservação das características únicas de cada cidade”. A aliança, frisa Du Yan, deve privilegiar a qualidade e o valor público da cidade, respeitando as características de cada uma. “Só assim é possível que haja uma interação saudável com os cidadãos para percebemos as necessidades e corresponder.”

A responsável do instituto de Shenzhen recorda que o principal fim do grupo é comunicar e cooperar de forma a acrescentar qualidade de vida, mais ecologia e visão nos projetos urbanos da região. “A aliança permitirá que urbanistas, arquitetos, designers das diferentes cidades trabalhem juntos e comuniquem de forma mais aberta, e assim possam melhorar a construção urbana e a qualidade de vida da Grande Baía”, insiste. Criar mais espaços públicos de qualidade é urgente, aponta Nuno Soares que nota que, pelo menos em Shenzhen, Macau, Hong Kong e Zhuhai, é evidente que a população sente essa falta pelas opiniões expressas nas consultas públicas.

Nos últimos anos, afirma, houve um forte crescimento urbano mas que priorizou a quantidade. “É tempo de se começar a pensar qualitativamente”, defende. O caso do Porto Interior, exemplifica, é sintomático já que o acesso à água é impossível para atividades de lazer. “O que procuramos fazer é sensibilizar o Governos de que o espaço público deve ser qualificado porque isso vai beneficiar todos os cidadãos”. Macau, insiste, tem tudo para ser uma cidade de excelência: é compacta, tem os limites claramente definidos – o que facilita o planeamento da totalidade do espaço urbano -, goza de capacidade financeira, e tem história. “Temos uma boa matriz – com vários períodos históricos plasmados -, que é muito raro no contexto regional e mesmo no asiático.

Nalgumas cidades chinesas há uma cultura de substituição. Em Macau, temos tido uma prática ao longo dos séculos muito diferente: expandimos, mas mantemos o que tínhamos”.O que para Nuno Soares será um fator diferenciador no novo contexto que, apesar de visar a integração, terá todo o interesse em manter a identidade de cada um dos territórios. “A riqueza desta região é que são 11 cidades. Cada uma delas tem um caráter próprio. Essas especificidades devem ser desenvolvidas e é importante que Macau desenvolva o espaço urbano a pensar na população e é isso que estamos a fazer nesta aliança. A ideia não é uniformizar. É precisamente o contrário”, garante.

A Grande Baía, acrescenta Nuno Soares, contribuirá para uma relação saudável de cooperação mas também de competição. “Ao criar-se esta rede estamos a por uma atenção no Delta e estamos a conseguir olhar para o mapa de uma forma mais integrada, ver onde podemos fazer sinergias em vez de nos centrarmos só nos interesses particulares”, acredita. A cerimónia de assinatura dos cinco institutos fundadores aconteceu no mês passado, ‘online’, devido às contingências da covid-19, e contou com a participação da Chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam.

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