Concorrência asiática põe em risco máscaras 'made' in Portugal - Plataforma Media

Concorrência asiática põe em risco máscaras ‘made’ in Portugal

A falta de equipamentos levou o Estado, no início da pandemia, a apoiar centenas de novos projetos. Preço a que o material chega da China está a inviabilizá-los. Há fábricas em vias de fechar.

Há um ano, comprar uma máscara cirúrgica era quase tarefa impossível. A China, o maior produtor mundial destes artigos, tinha proibido a venda ao exterior e os poucos disponíveis eram, naturalmente, todos direcionados para os hospitais. Um ano depois, e com muitos milhões de euros gastos, o mercado está inundado de máscaras chinesas e quem investiu já se arrependeu. Os encerramentos estão à vista. “Tem sido uma luta constante e diária, é impossível concorrer com os preços que vêm da China”, diz Pedro Nicolau, da Vencer o Momento, Lda. “Não temos como dar continuidade a este projeto, com uma concorrência tão desleal e se não houver na Europa uma forma de proteger os seus interesses e contribuintes”, diz, por seu turno, Carlos Alexandre Brito, da OH Máscaras.

Para se entender melhor a situação, recorde-se que, em abril de 2020, quando finalmente começaram a ser vendidas nos supermercados as primeiras máscaras descartáveis, uma caixa de 50 unidades custava 26,99 euros. Qualquer coisa como 54 cêntimos a unidade. Hoje, a mesma caixa custa 3,09 euros, pouco mais de seis cêntimos por máscara. É verdade que a taxa do IVA destes produtos baixou dos 23 para os 6%, mas a grande diferença está mesmo nos preços praticados. Basta ter em conta que há empresas a apresentarem-se a concursos públicos com valores unitários de dois cêntimos. E até abaixo disso.

No contexto da covid-19, foram dois os sistemas de incentivos específicos criados para apoiar as empresas que pretendessem estabelecer, reforçar ou reverter as suas capacidades de produção de bens e serviços destinados a combater a pandemia. E, segundo os dados do Ministério da Economia, foram lançados três avisos para apresentação de candidaturas, dois na área da inovação produtiva e um para projetos de I&D.

No que à inovação produtiva diz respeito, os dados mostram que houve mais de 1400 candidaturas, das quais 675 foram aprovadas, correspondentes a um investimento total elegível de 342,6 milhões e a incentivos de 250,6 milhões, não reembolsáveis. Quem conhece o setor garante que há quem esteja a ganhar muito dinheiro, mas também há quem esteja em grandes dificuldades, porque não conseguirá nunca competir com as máscaras da China, que as põe cá a dois cêntimos ou menos. O problema, defende, é que não se cuidou de avaliar qual a capacidade instalada necessária e, agora, não há mercado para todos.

A Borgstena Textile Portugal, empresa de Nelas especializada no fabrico de tecidos para a indústria automóvel, investiu 3,6 milhões de euros, dos quais 2,9 milhões financiados pelo Feder, uma forma de encontrar alternativa ao mercado automóvel, então completamente parado, mas também de desenvolver uma nova linha de negócio na área médica. Não sem antes analisar os pontos críticos do mercado, designadamente a falta de matéria-prima na Europa para fazer máscaras. E, por isso, o investimento contemplava ainda esta área, com a produção de tecido-não-tecido meltblown (um material para uso em aplicações de filtros de máscaras), e a instalação de um pequeno laboratório vital para o controlo de qualidade dos produtos.

“Não correu tão bem como queríamos, porque os pressupostos em que montámos o negócio, acreditando que haveria uma mudança do quadro europeu no sentido de promover uma estratégia de autossuficiência interna na área da Saúde, não se verificaram”, diz o administrador da empresa, Joaquim Albuquerque.

Desde agosto, refere, os preços começaram a baixar drasticamente. “A China é o maior produtor de máscaras do mundo e ainda aumentou essa capacidade instalada em 2020, fazendo com que o preço tenha caído abaixo dos cinco cêntimos, valores que não são comportáveis na Europa, porque não cobrem praticamente os custos operacionais”, sublinha.

Também a OH Máscaras, uma unidade criada de raiz, em maio de 2020, em Oliveira do Hospital, chegou a laborar em três turnos, tendo criado 27 postos de trabalho. Arrancou a produção em junho de 2020 mas, entretanto, já despediu 18 pessoas e admite ter de encerrar até ao verão. “Com uma capacidade instalada para mais de 400 mil máscaras por dia, precisávamos de chegar aos grandes compradores, aos hospitais e às escolas, mas nos concursos públicos deparamo-nos com a concorrência desleal das tradings, que são meros intermediários da produção chinesa, sabe-se lá em que condições”, diz Carlos Alexandre Brito. Defende que o financiamento destes projetos com o recurso a fundos europeus deveria ser acompanhado do estabelecimento de uma preferência por artigos made in Europe: “São milhões e milhões de euros de apoios que vão desaparecer, sem futuro e sem consequência”.

Também Pedro Nicolau, da Vencer o Momento, em Odemira, admite aguentar mais um mês ou dois, e dá o projeto por terminado. Um investimento de perto de meio milhão de euros, majorado por ser no interior, que pretendia criar 10 postos de trabalho, laborando em dois turnos, mas que nunca conseguiu ter volume para isso. Pedro Nicolau diz estar “desencantado e desiludido” com todo este processo. “Tem sido uma dor de cabeça constante tentar arranjar soluções para dar a volta à situação”, sublinha.

A Pedro Pestana, da Basic Stuffs – Gestão de Equipamentos Médicos, não falta experiência na área da saúde. Na verdade, acumula 30 anos de trabalho no setor. Em 2020, e perante a dificuldade em importar máscaras e outros equipamentos de proteção individual, decidiu submeter um projeto para instalar duas linhas de produção em Caxias. Foi parcialmente aprovado em final de outubro, mas, mesmo assim, e apesar de já ter os equipamentos, ainda não conseguiu arrancar com a produção. “Está tudo à espera das legalizações e da certificação da instalação elétrica”.

A sua estratégia é apostar em Angola e Moçambique, tirando partido dos canais de distribuição que tem já implementados nestes mercados para aí colocar as suas máscaras sob a marca Space Eco.

A Inarbel, têxtil do Marco de Canaveses com 240 trabalhadores, nunca se meteu nas máscaras, mas dedicou-se às batas hospitalares e outros fardamentos, criando a marca Skylab. Vendeu muito para entidades públicas espanholas, mas não tem conseguido vingar em Portugal. “É muito complicado, aparecem com preços completamente impraticáveis, nunca consegui ter preços para ir a um concurso público”, diz José Armindo Ferraz.

A Trim NW, empresa de Santarém especializada no fabrico de tecido-não-tecido (TNT) para a indústria automóvel, cresceu 40% em 2020, graças à produção de TNT para batas e equipamentos hospitalares. Fechou o ano com 4,3 milhões de faturação, dos quais 30% assegurados pela nova área de negócio.

Desde o início do ano, a procura arrefeceu. “Há muito material a chegar de fora, da Turquia e de Marrocos, a preços muito competitivos”, diz Rui Lopes.

“Fui alertando que isto [das máscaras] era um mercado conjuntural – embora se esteja a prolongar além do que imaginávamos – e que o que valia a pena era apostas nas coisas mais elaboradas, com níveis de proteção mais elevados e que resultam de processos de investigação e desenvolvimento, um posicionamento que ajudou muitas empresas a entrar em alguns mercados com preços mais elevados”, diz o secretário de Estado Adjunto e da Economia.

*editado

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