Existe uma “cidade poeta” chamada Macau

Existe uma “cidade poeta” chamada Macau

21 de março é o Dia Mundial da Poesia criado pelas Nações Unidas. Tal como explica a própria organização, “a poesia marcou a história da humanidade. Independentemente da cultura ou continente, a poesia expressa os valores comuns da humanidade, transformando simples palavras em catalisadores de diálogo e paz.”

Muitos apelidam Macau de “cidade poeta”, afirmando que é uma das cidades com a maior densidade de criadores de poesia. Estes têm diferentes origens e escrevem sobre os mais variados assuntos. “A poesia reafirma a nossa humanidade comum, mostrando que todos, em qualquer parte do mundo, partilhamos as mesmas dúvidas e sentimentos”, escreve a UNESCO, a organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. E agora, através doa arte de fazer obras em verso, poetas de Macau de várias idades e culturas estão a dialogar.

“Primavera”

O fim da tarde
em asas negras de andorinhas
arrancando aos céus
uma calma enorme
… e tu não sabes
quanto sofro.
Fernando Sales Lopes

Lopes vive em Macau desde 1986, há já mais de 30 anos. A sua coleção de poemas publicada em 1997, “Pescador de Margem”, recebeu o prémio Camilo Pessanha 1996/97. O poeta relembra a juventude quando começou a escrever, partilhando que não se recorda do tema do primeiro poema, mas que se relacionava com a natureza e o amor. Fernando Sales Lopes descreve a poesia como uma forma de escrita distinta dos outros géneros literários, tanto em termos de conteúdo, forma e raiz, como no mistério. As respetivas formas de interpretação são também particulares. Nas obras não poéticas, as descrições são normalmente claras, porém, na poesia, a descoberta do verdadeiro significado do texto é difícil. “Diz-se que a música é a linguagem dos deuses, e como a poesia é essencialmente música, ela pertence ao Olimpo”, assinala.

O poeta acredita que a poesia é o principal estilo literário em Macau, podendo essa caraterística estar relacionada com a população da cidade ou o seu modo de vida. No livro “Pescador de Margem”, o autor escreve sobre a paisagem e cultura de Macau segundo o olhar do poeta, incluindo a Areia Preta, o Farol, o Porto Interior e até Feng Shui. Fernando Sales Lopes, que sempre procurou incluir várias culturas, festivais e costumes da cidade nas respetivas obras, possui uma licenciatura em História e grau de mestre em Relações Interculturais. Afirma que o objetivo sempre foi conhecer o mundo que o rodeia e partilhar esse conhecimento, não só em relação a Macau, como toda a cultura rica da China que “muita gente conhece muito pouco”. Porém acredita que o que faz de Macau uma cidade única é a diversidade que nela coexiste há tantos séculos. “Diferentes culturas, crenças e respeito mútuo, com tanto para contar, por isso tão inspiradora para as artes”, sustenta.

Além da escrita, Fernando Sales Lopes já colaborou também com vários artistas no passado, por exemplo na exposição multimédia “A Viagem” em 2008, uma colaboração entre a Kinomind e a Casa de Portugal, inspirada pela grande viagem de Vasco da Gama. Com poemas de autores como Luís de Camões e Fernando Pessoa, prestou homenagem a estes artistas e a todos os portugueses. A poesia foi exibida de forma visual, lida e até cantada. No ano de 2009, trabalhou também com os pintores Isabel Rasquinho e Rui Rasquinho para um projeto de pintura e poesia chamado “Convivências”. “Tudo isso prova que a arte pode estar interrelacionada, poesia pode ser pintada e a pintura recitada”, diz.

“As emoções são como uma primavera inesperada”

Às vezes,
irás reparar que
todas as caras que passam por nós
parecem mais novas e desconhecidas
Estas caras são como o nosso passado
Limpas, gradualmente esculpidas pelo tempo
Às vezes,
irás reparar que já não comentamos a paisagem
Já não existe charme na vegetação
Os tópicos com a idade passam a ser
trabalho, casamento, ou formas de investimento
As emoções são como uma primavera inesperada,
Húmidas, e cheirando a musgo

Jojo Wong

Jojo Wong, nascida nos anos 80, é a atual vice-diretora da Associação de Poetas de Macau Outro Céu. Chegou à cidade vinda do continente quando estava ainda no ensino secundário, e aqui vive já para lá de uma década. Trabalha durante o dia e escreve poesia à noite. Conta que começou a escrever quando a sua vida sofreu uma grande mudança. Embora a família a apoiasse, foi difícil de se reajustar a tudo. Mentalmente sofreu uma grande pressão e a escrita ajudou-a a expressar melhor os seus sentimentos, através de inspiração da sua vida diária. “Quando vemos algo que nos toca e inspira, sentimos a necessidade de o expressar através da poesia. Tanto no ensino secundário, como no superior, até ao primeiro emprego, casamento e formação de família, tudo foi como uma viagem. Em cada uma destas fases a minha perceção da vida foi diferente, levando também a diferentes criações”, aponta.

A poetisa acredita que a poesia, devido à sua linguagem concisa, é perfeita para expressar as emoções do momento e, apesar de parecer simples, é na verdade um desafio refletir tantos sentimentos em apenas alguns versos. “Não estamos apenas a expressar emoções, temos de considerar a forma como estas serão interpretadas, temos de conseguir transmitir ao leitor estes mesmos sentimentos”, afirma.

Na opinião de Jojo Wong existe muita gente a escrever poesia em Macau. Apenas na Associação de Poetas de Macau Outro Céu, por exemplo, existem membros desde os 20 aos 40 anos, sendo discutidos temas como urbanização, Macau, experiências pessoais, família, economia e até proteção animal e ambiental. “Até na povoação de Lai Chi Vun, em Coloane, existem poetas, os quais, depois de observarem os acontecimentos locais se expressam através de poemas. Todos vivem em Macau e as respetivas histórias são exploradas e refletidas na poesia”, indica.

“Penso que este é um fenómeno positivo. Todos nos preocupamos com o local onde vivemos e essa condição foi, gradualmente, caraterizando a poesia de Macau, mencionando a as respetivas localização e até urbanização. Todos amamos esta cidade e ela leva-nos a criar e a observá-la”, diz.

Para Jojo Wong isso é “uma condição inestimável”. Ao longo do rápido desenvolvimento de Macau, os poetas presenciaram a evolução do território da cidade com um olhar de fora, conseguindo ao mesmo tempo refletir os seus sentimentos e criar poesia apenas pelo seu amor a esta forma de arte. A poetisa espera que a poesia continue a crescer em Macau, sendo promovida e ensinada no ensino local para que mais jovens possam descobrir esta forma literária e “evitar uma possível interrupção na criação poética”.

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Assine nossa Newsletter