Toxicodependência - Plataforma Media

Toxicodependência

A violência doméstica escapa ao meu entendimento, sempre que leio notícias sobre o tema vejo-me a mergulhar na quinta dimensão. O comportamento violento pode ser uma característica do carácter, todavia estou convencido que os excessos se tratam de uma questão de educação. Antes de este assunto ter ganho visibilidade seria normal não haver consciência cívica da maneira que está bem patente no dito popular “entre marido e mulher não se mete a colher”. É uma cultura enraizada e, tal como outras “tradições” absurdas, difícil de alterar. Eu tive sorte, em casa dos meus pais, ao meu redor, nunca assisti ou tomei conhecimento de casos desses; crescer sem determinadas experiências é meio caminho para não as replicar na vida adulta. Agora a partir do momento em que nos tornamos cônscios não será evidente polirmos os defeitos da nossa formação? Aparentemente, não. Há quem opte pela suprema estupidez de repetir amiúde padrões errados, não crescer, evitando assumir a sua condição de humano adulto que implica responsabilidade pelos seus actos, logo… ser livre. Alguns preferem a escravidão, aliás nem chegam a abandonar a condição animal, consumindo a existência numa espécie de bestialidade só limitada pelas leis. Eu pelo menos ambiciono ser livre e por isso desde a maturidade deixei de culpar o ADN, os pais, as condições, as circunstâncias, o universo, por tudo o que nem tentava mudar. Percebi que vivera preso na auto-comiseração, impedindo de me libertar, desenvolver brio pessoal, arregaçar as mangas e fazer-me à vida que é só minha; reconheci que os meus tutores fizeram o que puderam ou sabiam, e ademais já nem interessa, nenhum deles irá viver a minha vida, cabe-me assumi-la, aprimorá-la, e por consequência afectar para melhor a dos outros. 

O Santo Graal da opinião é o contexto, posso criar cenários ou imaginar respostas mas se não as fundamentar num conhecimento técnico ou empírico jamais saberei do que falo. Por desconhecer a matéria em causa e ela me deixar indignado busquei pistas dispersas por entre a minha experiência, encontrando algumas significativas. Fui pai de uma menina numa altura em que apresentava programas de televisão. Um conhecido apresentador, o típico macho competitivo andava há tempos afastado dos ecrãs, sendo meu assistente de plateau; tinha um filho pequeno e quando transmiti a feliz notícia da minha paternidade ele disse-me “parabéns, foi bom teres uma miúda para daqui a uns anos o meu filho a comer”… É possível que no seu círculo isto fosse uma piada, um picanço marialva, a mim deixou-me estupefacto. A quem discorreria responder uma coisa daquelas? Para lhe sair tão facilmente pela boca fora fica claro que consubstancia um conceito entranhado, faz parte da sua estrutura ainda que só se revele esporadicamente. Conhecendo a figura deduzi que a afirmação advém de uma sensação de superioridade em relação às mulheres, quiçá misoginia, um exagerado espírito de concorrência cujo objectivo é mostrar-se socialmente bem sucedido, viril, sem excluir os ciúmes pelo sucesso de outros “machos”, e o ressentimento por, na sua perspectiva do mundo reduzida a comer ou ser comido, as mulheres usualmente escolherem o prato, e ao mesmo tempo ele se conformar em projectar as suas fraquezas num ser que não lhe pertence porque é apenas o pai do miúdo, o tutor, não o dono. Estou fora das motivações da violência doméstica de mulheres sobre homens, as dos homens sobre as mulheres parecem-me mais ou menos condensadas neste exemplo. Acresce o medo de perder ascendência sobre a companheira potenciado pela falta de vitalidade, decréscimo de rendimento material ou estatuto social, e finalmente o arrogar-se no direito de propriedade sobre um humano cuja essência é ser livre. Mais valia comprar um animal de estimação, e aí aconselharia a que fosse um cão já que não se possui um gato. Se transportarmos esta visão do mundo e a introduzirmos dentro de uma casa, temos reunidos os ingredientes elementares do conflito. Daí até o caldo entornar depende das dinâmicas em disputa.

Ainda assim é preciso não cair na armadilha de substituir a responsabilidade individual pela do Estado, nada substitui o trabalho de cada um no seu auto-aperfeiçoamento

São precisos dois para dançar o tango; sem embargo a conivência entre agredido e agressor conta necessariamente para a equação. Penso que a manutenção do relacionamento por parte do agredido esteja associada à dependência psicológica ou material, mesclando-se com os problemas do agressor: medo de perder, desleixo pessoal, habituação a um baixo padrão. De certa forma pode-se dizer que “convém” ao agredido, pelo menos até ao ponto em que a sua vida se põe em risco. Embora aos dois provenham situações diferentes, a origem é idêntica: ignorância, falta de auto-estima, ausência de maturidade e brio pessoal, resignação perante o que se recebeu sem procurar lapidar-se. Os agredidos costumam ter uma imagem distorcida do agressor julgando que ao tentar agradar-lhes, cedendo à chantagem, submetendo-se a um hipotético aconchego debaixo da sua pata, se refugiam da violência exterior, ou seja, têm uma noção deturpada do relacionamento humano em geral. Ambos incorrem na falácia do “amor” para justificarem uma relação que se não for entre dois indivíduos livres nunca será digna desse epíteto, é apenas toxicodependência. Controlar, seja qual dos dois for o perpetrador, não é amar. Quando as mulheres que não são livres toleram um companheiro agressor, só tendem a largá-lo quando o prejuízo se sobrepõe ao ganho, quando o embaraço social já é grande, quando compreendem que ele é covarde, somente violento para elas. As que nunca os largam sugerem-me um comportamento aditivo tipo junkie, no fundo aquilo que eles também são. De igual modo verifico que quando o agarrado substitui uma droga por outra (neste caso, outro homem) pode contribuir para superar o vício, mas não estará realmente a libertar-se enquanto o mister pessoal quedar-se por realizar; essa é uma obra sua, de mais ninguém, e não basta trocar de droga ou de dealer, sendo que muitas vezes o antigo fornecedor tem dificuldade em largar o seu junkie, ira-se por ter sido excluído do jogo do controlo. É mais perigoso para elas próprias quando as mulheres não livres se fascinam com o fenómeno da violência, quando sabem que os homens são igualmente violentos com outros homens; mesmo que ele morra irão sempre sentir algo especial por ele, ao passo que acerca dos primeiros, uma vez desabituadas da violência, constatarão que não prestavam. 

É fundamental o Estado proteger todos, sobretudo aqueles que nem têm consciência de merecer protecção. Esta é uma conquista civilizacional a preservar e desenvolver, o foco deve-se manter na educação cívica dos cidadãos, torná-los conscientes dos seus direitos e deveres. Ainda assim é preciso não cair na armadilha de substituir a responsabilidade individual pela do Estado, nada substitui o trabalho de cada um no seu auto-aperfeiçoamento.

*Músico e embaixador do Plataforma

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