"Família de jovem raptada em Maputo muito preocupada mas com esperança" - Plataforma Media

“Família de jovem raptada em Maputo muito preocupada mas com esperança”

A secretária de Estado das Comunidades Portuguesas está a acompanhar o caso de Jessica Pequeno, a jovem de 27 anos filha de empresários da restauração raptada ontem de manhã à saída de casa na cidade de Matola, arredores de Maputo. Já é o 10º rapto a vítimas do setor empresarial este ano

Passou um dia sobre o rapto e até agora não houve mais informações sobre o possível paradeiro de Jessica Pequeno, segundo informou ao Plataforma a secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Berta Nunes. Jessica, de 27 anos, foi raptada na segunda-feira por um grupo desconhecido entre as 07.00 e as 08.00 locais (entre as 05.00 e as 06.00 em Lisboa), na rua da sua residência na cidade da Matola, momentos após sair de casa, adiantou à Lusa a diretora provincial do Serviço Nacional de Investigação Criminal (Sernic), Benjamina Chaves.

Os pais da vítima são donos do restaurante Burako da Velha, na cidade de Matola, arredores de Maputo.

“Não houve novidades desde ontem. A família está muito preocupada mas com esperança de a voltar a ver”, afirmou a secretária de Estado Berta Nunes. “Estamos a acompanhar o caso, em conjunto com a Embaixada de Portugal em Maputo e com o Consulado. Ontem foram falar com a família da jovem, ver que necessidades tinham e estiveram também em contacto com as autoridades locais que estão a investigar o rapto”.

Pela primeira vez no que têm sido os padrões de raptos com resgates a empresários moçambicanos de várias origens foi levada uma jovem de uma família de classe média, naquele que é já o 10º rapto a empresários e familiares de várias origens residentes no país, segundo dados das autoridades moçambicanas.

Berta Nunes, secretária de Estado das Comunidades Portuguesas

Segundo adiantou Berta Nunes, o rapto da jovem “não foi precedido de qualquer ameaça ou conflito que possa apontar para alguém em particular, o que é um pouco estranho”. Aparentemente também não terá havido intervenção de armas de fogo no caso.

“As autoridades do Serviço de Investigação Criminal foram céleres no envio de agentes para o local”, assegurou a governante. “Temos um dever de proteção da nossa comunidade em Moçambique. É por isso que estamos atentos aos raptos de empresários, contactamos com as autoridades e acompanhamos com preocupação estas situações”.

O Plataforma entrou em contacto com a Embaixada de Portugal em Maputo, que remeteu para a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas qualquer esclarecimento sobre o caso.

Fora do padrão: já não vão só a milionários

O rapto de uma filha de empresários de classe média do setor da restauração surpreendeu na região de Maputo, uma vez que o padrão dos grupos criminosos tem sido o de procurar empresários milionários para pedidos de resgate avultados. Os raptores podem estar então a virar-se para pessoas de classe média, como aconteceu na Venezuela durante muitos anos, dispostos a arriscar por muito menos.

Sobre o rapto de Jessica, o presidente da Associação Portuguesa de Moçambique (APM) mostrou a sua perplexidade , em declarações à Lusa: “Ninguém faria prever que seriam pessoas alvo, significa que ninguém está livre de ser colocado nesta situação”. Alexandre Ascenção receia que o momento de dificuldades económicas que se vive à escala global, com impactos severos em Moçambique, devido à pandemia de covid-19, aumente a probabilidade de as pessoas perderem o “discernimento” e cometerem atos desesperados.

O rapto de Jessica é o décimo deste ano contra empresários e familiares de várias origens a abalar a “paz de espírito” de quem investe, acrescentou Alexandre Ascenção, presidente da APM e empresário. “Na realidade, todos os empresários em Moçambique estão preocupados, portugueses e de todas as nacionalidades: isto afeta o nosso dia-a-dia, a nossa paz de espírito e faz olhar para o país com mais cuidado”.

Em outubro, um grupo de empresários na cidade da Beira, província de Sofala, centro de Moçambique, paralisou, por três dias, as suas atividades em protesto contra a onda de raptos no país.

A CTA – Confederação das Associações Económicas de Moçambique, maior agremiação patronal do país, também já exigiu por diversas ocasiões um combate severo a este tipo de crime e até o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, já pediu mais medidas.

Em setembro, o Sernic (Serviço Nacional de Investigação Criminal) apresentou à procuradora-geral da República (PGR), Beatriz Buchili, constrangimentos diversos que enfrenta para combater o crime violento, narcotráfico e raptos.

“Existem constrangimentos que o órgão enfrenta no seu dia-a-dia, relativos à exiguidade de fundos, equipamentos, meios circulantes e materiais”, referiu uma nota da PGR.

Antes do caso de Jessica Pequeno, um empresário português foi raptado em agosto de 2019, sem que se conheçam outros detalhes além da detenção de dois suspeitos, anunciada em abril deste ano pelas autoridades moçambicanas.

Noutro caso, em novembro de 2018, o empresário português José Caetano, de 51 anos, foi raptado e assassinado nos arredores de Maputo.

Na altura, a polícia moçambicana deteve três suspeitos que esclareceram ainda outros raptos entre 2016 e 2017, um dos quais envolvendo um outro empresário português, Aires Simões Alves.

Continua por esclarecer o rapto do empresário Américo Sebastião, levado de uma estação de abastecimento de combustíveis na manhã de 29 de julho de 2016, em Nhamapadza, distrito de Maringué, no centro do Moçambique.

Segundo a família do empresário, os raptores usaram os cartões de débito e crédito para levantarem “4.000 euros” e nunca mais se soube do paradeiro da vítima.

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