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O paradoxo do suspense

João MeloJoão Melo*

Há duas décadas um conhecido contou-me ter sido vítima de uma gigantesca burla imobiliária pelo então presidente do Benfica, Vale e Azevedo. Depois de apresentar queixa e revoltado pela inacção da justiça conseguiu ser ouvido por um superintendente da polícia que lhe confessou: “tenha calma, não é o único, deixe-o sair da presidência; enquanto ele lá estiver é complicado tocar-lhe, ainda gerava uma guerra civil”… Salvas as devidas distâncias do tempo e da importância das instituições, encontro semelhanças entre esta história e a de Donald Trump à frente dos Estados Unidos, até o lema do máximo símbolo, a águia, é igual “e pluribus unum”. Vem isto a propósito de uma conferência de imprensa do agora ex-presidente durante a contagem dos votos onde este ia proferindo as suas habituais alarvidades sem provas, até que as TVs presentes resolveram cortar-lhe o pio. Podem dizer-me que nunca como antes as afirmações foram tão perigosas para a credibilidade do sistema, mas o timing, meus amigos, o timing… Quando se sente o odor a derrota de um oponente há logo quem subitamente sinta o peito inchar de coragem. Onde estavam os dedos sobre os botões do off quando, por exemplo, este artista munido de “instinto para a ciência” se lembrou de propor a ingestão de lixívia? O espectáculo estava a divertir ou tinham medinho de serem processados? 

Sem surpresa Donald Trump revelou-se um péssimo presidente. Tomei conhecimento desta personagem há uma década através de um reality show que apresentava chamado The Apprentice. Desde aí Trump nunca mudou, e pesquisando o historial anterior nota-se que repetiu na presidência os padrões de sempre. O que ganhou da experiência televisiva foram ferramentas para a arte de enganar um país. A indústria do entretenimento vive de mãos dadas com a política, qualquer candidato americano sabe que é imprescindível possuir ou adquirir o chamado factor X para fazer um bom boneco no ecrã; de resto basta debitar uns slogans e até há um meio ideal para os propagar, o Twitter. Pouco dado à profundidade de pensamento, nem sequer nos negócios fora brilhante, a ambição e as circunstâncias alavancaram-no para outro patamar, sustentado num inegável carisma e talento para o entretenimento. O problema da América é que este palhaço, assim chamado por Biden, representa uns 66 milhões de palhaços na ainda nação mais poderosa do mundo. Na minha opinião o “palhaço” foi apenas a figura disponibilizada onde desaguaram os anseios de uma larga fatia da população. Não é exclusivo dos americanos, por todo o ocidente democrático surgem estes artistas em geral de “direita” mas não só, que personificam a luta contra a dissolução dos costumes e de quaisquer fronteiras, uma luta contra o controlo e padronização do mundo, contra uma suposta agenda mundial. É curioso que se realmente existir uma agenda mundial, a esperança de quem pugna contra ela tenha de recair em cima de tipos do calibre de Trump… Parece-me mais plausível que no-los proporcionem para que a tal agenda se agilize. Assim também me parece lógico presumir que Trump terá sido usado e levado à “morte” sem se aperceber, qual tragédia de Júlio César. Entretanto o mundo perdeu 4 anos distraído pelas suas excentricidades enquanto a fractura se acentuava. Um cargo político em teoria destina-se a servir a comunidade; Trump usou a presidência para se servir a si, munido de técnicas de entertainer manipulou a realidade de modo a alimentar o ego e manter-se na função, convencido de que a maioria do público cantava os refrões consigo. Este é o logro em que caem muitos artistas, o tipo de atitude que lhes costuma abreviar a queda. E eis porque era tão importante para ele “andar na estrada”, para sentir o feed back das audiências ao vivo (embora só dos seus fãs), um desejo que se foi tornando difícil concretizar por causa do odiado covid 19. Ao construir o seu mito, Trump deixou-se iludir, acabando a enganar-se a si próprio, não entendendo como um cinzento político sem um décimo da sua capacidade de entretenimento, e que na sua organização seria o tipo que leva os cafés à sala de reuniões, possa entrar por ali dentro e ter legitimidade para lhe dizer “Donald, you’re fired”.

“É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas” – Mark Twain  Após esta aventura pessoal que nos manteve ocupados por um quadriénio sobram os destroços na nossa realidade. Desconheço Joe Biden, sei que era vice-presidente de Obama e nada mais. Suponho que com ele os Estados Unidos voltem a uma postura internacional semelhante à seguida por Obama, todavia os tempos são outros. Vivemos num contexto de pré-guerra acentuado pela pandemia, a dinâmica do mundo vai-nos empurrando para um conflito global. Terá Biden capacidade para o travar? Não creio. Os Estados Unidos estão divididos porém isso não se deve a Trump. Ele aproveitou a oportunidade para chegar à presidência empunhando as bandeiras do descontentamento generalizado, posteriormente, servindo o seu interesse pessoal, promoveu a erosão da camada de betume que tapava a fractura, aprofundando-a; agora custará bastante repará-la ou construir pontes. A tarefa de Biden é imensa e veremos que caminhos segue. Sabendo que os Estados Unidos necessitam em permanência de um inimigo externo para congregar a diversidade do seu povo, actualmente são um país desavindo, e por absurda que pareça não excluiria a hipótese de insurreições; armas em profusão na rua já há. Será que Biden dirigirá os seus esforços para uma pacificação interna ou enveredará pelo desafio à China, a potência emergente, reunindo os americanos em torno de um objectivo externo comum? À partida inclino-me para a primeira hipótese, é o óbvio, nunca esquecendo que a sua idade avançada dá azo a que a vice-presidente Kamala Harris possa subitamente assumir o papel principal, baralhando os dados actuais. A bem da dignidade das instituições Trump não será perseguido, afinal é um ex-presidente; talvez ignorado, contudo promete tornar-se uma incómoda verruga no traseiro do sistema devido à persistente atitude desbocada, bem como à quantidade de americanos que se reveem nele. 

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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