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“Ubuntu” na energia solar para um país mais inclusivo

Isabel Marisa Serafim

A Guiné-Bissau acolhe um projeto-piloto para produzir energia a baixo custo num dos países mais pobres de África. O projeto está feito, inclui financiamento de microcrédito e deve arrancar em janeiro de 2022.

“Ubuntu” é uma expressão de um dos dialetos da África do Sul que expressa o sentido da partilha e da inclusão nas comunidades e que é uma ideia transversal a toda a África subsaariana.

Foi com base no princípio do “Ubuntu” que o engenheiro guineense Adulai Bary e o sócio da BigTechnology, desenvolveram um projeto de energia solar que foi um dos vencedores de uma competição organizada pela Expo 2020 do Dubai, denominada Live Innovation Impact Grant Programe.

O programa apoia ideias inovadoras para melhorar a vida das comunidades e o ambiente e Adulai Bari juntou as duas num ‘kit’ de energia solar que vai ajudar os guineenses, em particular, e os africanos, na generalidade, a ter acesso à eletricidade.

“O projeto já estaria operacional. Mas a pandemia impediu o arranque. O plano previsto é que arranque em janeiro do próximo ano e agora está a ser afinado”, afirmou Adulai Bari. A tecnologia já existe e está a ser fabricado por um parceiro chinês.

Mas afinal o que é o kit “Ubuntu”? É uma pequena bateria solar com capacidade para ligar em casa entre três e cinco lâmpadas, um rádio e um telemóvel, que todas as famílias podem adquirir por cerca de 200 mil francos cfa (cerca de 300 euros) e pagar em prestações mensais de quatro dólares.

“As lâmpadas para iluminar as casas e facilitar a educação nas zonas rurais. A energia solar por causa das alterações climáticas e o acesso ao digital porque sem energia não se pode carregar o telemóvel. Todos têm direito ao digital e a energia é um componente importante”, afirmou o engenheiro informático guineense.

O projeto inclui também uma rede de quiosques solares, que vão vender kits, mas também serão um ponto de animação digital, com wi-fi gratuito e onde as pessoas podem carregar telemóveis, fazer transferências de dinheiro e estarem juntas.

“A nossa abordagem é inclusão digital”, salientou Adulai Bari. Como o reembolso do kit é feito em prestações mensais isso vai ajudar as pessoas com rendimentos mais baixos a terem acesso à eletricidade.

O kit também vai ser produzido numa versão que inclui um aparelho de televisão e numa outra para pessoas que pretendem apenas o fornecimento de energia elétrica. No final do pagamento do valor, as pessoas ficam proprietárias dos kits.

Mas, no futuro, o “Ubuntu” pode passar a incluir frigoríficos, ventoinhas e mais aparelhos elétricos. Como não funciona em rede, o kit pode chegar às zonas mais remotas do país. “São kits não conectados, são independentes e não dependem de um painel único. O kit, quando instalado, é para uma casa”, salientou.

Guiné-Bissau com potencial para outros projetos

Segundo dados da ONU, disponibilizados no último relatório da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, na Guiné-Bissau, com cerca de dois milhões de habitantes, menos de 20 por cento da população tem acesso a eletricidade e a água canalizada.

Em contrapartida, o país tem mais de 200 mil utilizadores na rede social Facebook e mais de 80 por cento da população utiliza telemóvel. “O país está numa fase de transformação”, afirmou o engenheiro informático, salientando que o Governo tem de criar “o ambiente” e apoiar os jovens inovadores e empreendedores, que também têm de fazer esforços, para “elevar o país para outro patamar”.

Para Adulai Bary, a Guiné-Bissau já utiliza telemóveis de quarta geração e isso “pode trazer oportunidades” para os empreendedores porque há cada vez mais guineenses habituados a usarem dados e a navegarem na internet. “São essas oportunidades que temos de explorar”, afirmou, salientando que existem soluções, independentemente do acesso à Internet, para desenvolver serviços e soluções para problemas de desenvolvimento.

No caso do combate à pandemia provocada pelo novo coronavírus, a BigTechnologies esteve envolvida no desenvolvimento de soluções, incluindo formas de sensibilizar as pessoas para as medidas de prevenção da doença.

Mas, o engenheiro alertou também para a necessidade de aumentar a literacia digital dos mais jovens. “Corre-se o risco de criar dois tipos de sociedade, a que tem acesso à tecnologia e que a usa de forma correta e com todas as vantagens” e a outra com uma literacia inferior, disse.

Segundo o promotor, é preciso trabalhar com o sistema de ensino da Guiné-Bissau, que “precisa de incluir literacia digital e explicar aos jovens que não devem divulgar fake news, e devem proteger os dados”, bem como questões relacionadas com segurança e privacidade.

“As pessoas não estão preparadas para isto. As pessoas têm de saber que isto é uma máquina que pode ajudar, mas que também pode destruir”, sublinhou, lembrando que o sistema de ensino na Guiné-Bissau “ficou muito atrás do avanço digital”.

A nível sub-regional, a empresa de Adulai Bari ganhou também o prémio do Next Einstein Fórum, do Instituto Africano para as Matemáticas e Ciências, que está a apoiar o desenvolvimento da economia digital e da ciência.

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