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Neon, memória e cor em exposição em Macau

Criada em Portugal para ser apresentada em Macau, a exposição “POP lá”, de Raquel Gralheiro, transforma a distância geográfica numa ponte visual entre Oriente e Ocidente. A artista parte da relação histórica entre os dois para construir um universo de cor, memória e excesso, onde Macau surge como “um lugar único” com “uma intensidade visual” próxima da sua pintura

Fernando M. Ferreira

“O ponto de partida foi precisamente a relação histórica entre Portugal e Macau e a forma como estes dois mundos tão diferentes, Ocidente e Oriente, continuam a dialogar através de Macau”, diz Raquel Gralheiro ao PLATAFORMA. Para a artista, o “cá” e o “lá” convocados pela exposição “não são apenas referências geográficas”, mas “dois universos culturais que se encontram e influenciam mutuamente há séculos”.

Apresentada pelo Artyzen Grand Lapa Macau e pela Amagao Gallery, “POP lá” assume essa ideia de circulação entre lugares, imagens e sensibilidades. “Interessa-me essa ideia da ‘ponte’ entre os lugares, de circulação de imagens, memórias e sensibilidades”, explica a artista. Macau surge, nesse percurso, como “um lugar único onde o Oriente e o Ocidente coexistem de forma muito particular”.

A exposição, acrescenta, “nasce da distância física, mas também da proximidade cultural inesperada”, celebrando “o encontro entre diferentes olhares, histórias e formas de habitar o mundo”.

O próprio título concentra esse jogo entre deslocação, cor e linguagem. “O título surge de um jogo de palavras muito próximo daquilo que é a minha pintura”, diz. “O ‘lá’ refere-se ao facto de as obras terem sido criadas em Portugal para serem mostradas do outro lado do mundo, em Macau. Mas também existe uma brincadeira sonora entre ‘POP’ e ‘Lá’, quase como uma expressão espontânea, leve e alegre”.

“Sempre me senti atraída pela abundância visual, pela intensidade cromática e pela acumulação de padrões, detalhes e elementos decorativos”, afirma. “Gosto de criar imagens que convidem o olhar a percorrer diferentes camadas e a descobrir constantemente novos pormenores”

Gosto de questionar as hierarquias que tradicionalmente distinguem arte, decoração, ornamento ou cultura popular

A palavra “POP” remete também para uma energia visual que atravessa o trabalho da artista, marcado pela profusão cromática, pela acumulação de padrões e por uma relação assumida com a cultura popular. “Quis convocar a ideia de viagem e deslocação, mas também a energia vibrante da cultura pop que atravessa todo o meu trabalho”, afirma. “É um título que fala simultaneamente de distância e de aproximação, de geografia e de linguagem, refletindo esse diálogo entre o cá e o lá, entre o Ocidente e o Oriente”.

Cor e excesso

Na obra de Raquel Gralheiro, a cor é mais do que um recurso formal. “A cor é uma linguagem emocional e muitas vezes o ponto de partida para as minhas pinturas”, explica. A memória entra depois através das viagens, “dos mercados que visito, das pessoas, das paisagens, das comidas e das imagens que vou recolhendo pelo mundo”. São experiências que permanecem e regressam à pintura, já transformadas pela imaginação.

“Não procuro representar a realidade de forma literal, mas construir um universo próprio onde memórias, sensações e fantasia convivem livremente”, diz a artista. Nesse processo, “a cor funciona como o elo que une tudo isso e que transporta a energia que pretendo transmitir ao fruidor”.

O excesso visual é uma das marcas mais reconhecíveis da sua obra. Para Raquel Gralheiro, é sobretudo uma estratégia estética. “Sempre me senti atraída pela abundância visual, pela intensidade cromática e pela acumulação de padrões, detalhes e elementos decorativos”, afirma. “Gosto de criar imagens que convidem o olhar a percorrer diferentes camadas e a descobrir constantemente novos pormenores.”

Essa abundância pode abrir leituras críticas sobre consumo, saturação visual ou sociedade contemporânea, mas a artista situa o impulso inicial no campo da pintura. “Naturalmente, esse excesso pode suscitar leituras relacionadas com a sociedade contemporânea, o consumo ou a saturação visual, mas o meu impulso inicial é essencialmente pictórico e visual.”

É também nesse território que surge uma das tensões centrais do seu trabalho: a fronteira entre arte e decoração, entre bom gosto, mau gosto, gosto popular, kitsch e ornamento. “Sempre me interessou esse território híbrido onde as fronteiras se tornam menos rígidas”, refere. “Gosto de questionar as hierarquias que tradicionalmente distinguem arte, decoração, ornamento ou cultura popular”.

Não procuro representar a realidade de forma literal, mas construir um universo próprio onde memórias, sensações e fantasia convivem livremente

Para a artista, “o gosto popular, o kitsch, o decorativo e o exuberante” desafiam “ideias estabelecidas sobre aquilo que deve ou não ser considerado legítimo dentro da arte”. “É um espaço de liberdade que me cativa e me interessa explorar”, resume.

Domínio do feminino

As figuras femininas ocupam frequentemente o centro das suas pinturas, imersas em ambientes saturados, entre padrões, ornamentos e referências visuais populares. Mas, para Raquel Gralheiro, essas mulheres não são engolidas pelo cenário. “Penso que o dominam claramente”, diz. “Apesar de estarem inseridas em ambientes visualmente intensos, são sempre o centro da narrativa. São figuras que afirmam a sua presença e ocupam o espaço com confiança”.

“As minhas personagens podem ser simultaneamente fortes e vulneráveis, dominadoras e delicadas”, explica. “Existe um jogo entre a forma como são observadas e a forma como se apresentam ao mundo. Essa complexidade faz parte da riqueza da experiência feminina e é algo que procuro explorar”

O ambiente, acrescenta, “não as anula”; pelo contrário, “amplifica a sua força e a sua individualidade”. Ainda assim, a artista reconhece a leitura da mulher como figura simultaneamente poderosa e objetificada, presa entre desejo, pose, ornamento e estereótipo. “Sim, reconheço essa leitura”, afirma ao PLATAFORMA. “A mulher é uma presença constante no meu trabalho e surge frequentemente inspirada em imagens de folhetins antigos, revistas, publicidade ou referências da cultura visual popular”.

Essa ambiguidade interessa-lhe por não oferecer uma leitura fechada. “As minhas personagens podem ser simultaneamente fortes e vulneráveis, dominadoras e delicadas”, explica. “Existe um jogo entre a forma como são observadas e a forma como se apresentam ao mundo. Essa complexidade faz parte da riqueza da experiência feminina e é algo que procuro explorar.”

Macau, com as suas próprias camadas visuais, parece oferecer um território particularmente próximo desta linguagem. Entre património, turismo, néon, consumo, memória colonial e excesso urbano, a cidade dialoga diretamente com o universo de Raquel Gralheiro. “Macau possui uma intensidade visual que sinto bastante próxima do meu universo pictórico”, afirma.

A artista destaca “as cores do antigo casario português” e o contraste com “as luzes dos casinos, a ostentação dourada, os néones, o kitsch e uma certa ideia de futurismo”. “É uma cidade que parece estar em permanente movimento, mas que ao mesmo tempo me transmite uma sensação inesperada de familiaridade”, diz.

Em Macau, Raquel Gralheiro encontra “vestígios de um lar distante” e, ao mesmo tempo, “uma realidade completamente diferente”. É nessa tensão que “POP lá” se instala: “Essa convivência entre memória e modernidade, entre tradição e excesso, entre Oriente e Ocidente, dialoga profundamente com a linguagem visual que procuro construir nas minhas pinturas”.

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