Gonçalo M. Tavares abre "Dicionário de Artistas" nas páginas do CCB com Francis Alÿs

Gonçalo M. Tavares abre “Dicionário de Artistas” nas páginas do CCB com Francis Alÿs

O escritor Gonçalo M. Tavares inicia hoje a publicação semanal de uma série de textos sobre artistas contemporâneos, a reunir num “Dicionário de Artistas”, que abre com “Sapatos”, sobre o artista multidisciplinar belga Francis Alÿs, nas plataformas do CCB.

“Quando calçamos os sapatos o mundo perde altura, muda (…). Os sapatos levam atrás o caminho”, escreve Gonçalo M. Tavares no texto dedicado ao artista de 61 anos, nascido em Antuérpia, a trabalhar atualmente no México, que conjuga expressão artística, arquitetura e prática social, na sua expressão, e que em 2016 expôs em Lisboa, na Igreja de São Cristóvão, associando-se à recuperação do templo.

“Sapatos” e o mundo percorrido por Alÿs, na preocupação inerente à sua expressão, entre a política e a poética, entre a impotência de uma só voz e a possibilidade da ação individual, abrem assim o processo que todas as quartas-feiras vai ter lugar nas plataformas digitais do Centro Cultural de Belém (CCB), com a publicação de um texto de Gonçalo M. Tavares, Prémio Portugal Telecom (2007 e 2011) e Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (2011).

Afirma o escritor na página do CCB dedicada à iniciativa: “A arte contemporânea como ponto de partida; a literatura pega nela e vai indo sem olhar um segundo para trás; calcula-se o vago ponto zero – o nome de um artista, uma obra – mas tudo o que vem a seguir existe nesse texto que começa a pensar pela sua própria cabeça”.

Gonçalo M. Tavares prossegue: “Basta um indício visual para a linguagem se pôr a caminho e avançar por veredas estreitas e desvios a pique, subidas e descidas”.

“Interessa-me isto: a arte que se vê como modo de emitir por trás de si uma linguagem que é necessário extrair do solo da própria obra à força. O olhar de quem escreve faz isso: o que vê transforma-se em palavra, mas há neste começo claro, – as obras de arte contemporâneas – uma potência que conduz o texto por dentro. Sem este começo – a arte contemporânea – não haveria estes textos”. garante o autor de “Jerusalém” e “A Máquina de Joseph Walser”.

Para Gonçalo M. Tavares, este “‘Dicionário de Artistas’, este Museu, parte de um pormenor, detalhe ínfimo ou centro centralíssimo, da obra de um artista, nunca da biografia, e daí o texto vai para outro local qualquer”.

“Como um animal que tem fome parte do ninho para um ponto onde pressente o alimento, assim parte o texto à sua vida”, afirma o escritor, esclarecendo que não é “nada de didático ou explicativo”.

“Os textos deste Dicionário são seres autónomos que saem à rua livres e bem sozinhos depois da meia-noite”, remata o autor de “Aprender a rezar na Era da Técnica”.

Sobre a arte de Alÿs, escreve: “Há uma inclinação do dorso das costas que corresponde à postura atenta de um investigador, e uma outra, que parece ganhar ânimo com o tambor distante ou com a proximidade do silêncio, que corresponde à postura do esqueleto de um poeta ou de um príncipe. Duas formas de relacionar a geometria e a anatomia (portanto). Ou te curvas, ou não te curvas”.

Para o artista que atravessou continentes e somou reflexões do Iraque e do Afeganistão, ao México e à Turquia, que levou ao Peru a demonstração do muito e quase nada “Quando a fé move montanhas”, e que continua a testemunhar brincadeiras de crianças, dos pátios de escola em Paris, aos campos de refugiados, no Iraque, e à Ciudad Juárez, escreve Tavares: “Os sapatos levam atrás o caminho. Como se o caminho não fosse um elemento indiferente, mas participasse na perseguição, na fuga, na batalha. O espaço tem coisas, não é um mapa, não é um plano estúpido que só recebe; o espaço é uma forma de vigilância, é um volume, uma coisa orgânica. Tens cidade nos pés, alguém podia dizer.”

Gonçalo M. Tavares nasceu há 50 anos, em Luanda, e estreou-se literariamente em 2001. Publicou diferentes géneros literários, do romance à crónica, ao teatro e à poesia, e está traduzido em mais de 50 países.

Recebeu os prémios Internazionale Trieste (2008), Belgrado (2009), o Grand Prix Littéraire du Web – Culture (2010) e o Prix Littéraire Européen (2011).

O seu livro “Uma Viagem à Índia” foi distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Pela obra “Aprender a Rezar na Era da Técnica” recebeu o Prix du Meuilleur Livre Étranger (2010), em França. Recebeu por duas vezes o Prémio Portugal telecom de Literatura em Língua Portuguesa (atual Prémio Oceanos da Fundação Itaú).

Gonçalo M. Tavares escreveu para teatro, “Colher de Samuel Beckett” (2003) e tem editado um único livro de poesia, “Relógio d’Água” (2003).

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