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A Rádio não é Televisão

No dia 01 de Agosto de 1981 a MTV marcou o nascimento com a exibição do videoclipe da música dos The Buggles “Video Killed The Radio Star”. Muita coisa mudou com o primeiro canal de telediscos, mas a notícia da morte da estrela da Rádio foi claramente exagerada. Como o foram, aliás, todas as que se lhe seguiram.

Sem mudar assim tanto a Rádio continuou a ser, até hoje, um meio de comunicação extremamente importante e eficaz.

Vem a reflexão a propósito da minha experiência com a Rádio aqui no Brasil. Ouvir Rádio é um hábito de sempre. No carro, em casa dos meus avós ou em casa dos meus pais quase sempre houve um rádio ligado e na mesa de cabeceira os despertadores foram durante quase toda a minha vida radiodespertadores. Sempre foi a palavra que me fascinou, muito mais que a música. Talvez por isso tenha sido jornalista durante mais de 13 anos da TSF, e para além de trabalhar lá consumia tudo o que era produzido de uma forma quase compulsiva. Hoje, sobretudo quando viajo, é normal acordar e ligar imediatamente a TSF no telemóvel. Sempre que ando de carro procuro rádios de notícias, de palavra. O que tenho encontrado no Brasil, na Bahia para ser mais preciso, tem-me surpreendido.

Os brasileiros parece que foram feitos para a Rádio. O português adocicado pelo sotaque e a descontração na hora de encarar um microfone tornam-nos incrivelmente eficazes na hora de “desengravatar” a informação, para além disso são mestres da arte de conversar. Mas, como em quase tudo na vida, o talento não basta, e, na verdade, ouvir rádios de notícias tem sido, inesperadamente, algo bastante frustrante. O principal culpado tem sido… o vídeo.

Com o avançar da tecnologia, o nascimento dos sites, com as aplicações (denominados aplicativos no Brasil) e as redes sociais a Rádio passou a ter de dialogar muito mais com a imagem. E isso é até salutar. A imagem como companheira poderá ser potenciadora, são perfeitamente compatíveis. Mas a imagem em movimento pode complicar um pouco a equação. No dia-a-dia, na atividade da redação e nos programas gravados ou em direto no estúdio a questão quase não se coloca, quando definido que estamos a falar de Rádio filmada. A questão brasileira começa aí: não é de Rádio filmada que falamos. Da minha experiência como ouvinte, as rádios Band News (nacional), Jovem Pan (nacional) e Metrópole (local, baiana) deixaram (quiseram?) que o discurso e a ação sejam determinados pela imagem, pelo que os ouvintes estão a ver na transmissão no Youtube. Basta escrever para ficar claro que algo não está bem. Quando um jornalista que está a fazer rádio remete para o Youtube, para a posição da câmara ou para algo que quem ouve pode ver no vídeo está na cara que não está a fazer Rádio, sendo que também não está a fazer Televisão uma vez que boa parte das pessoas apenas o está a ouvir, e num rádio.

Talvez o sinal mais evidente de que o que escrevo não será tanto perceção, antes realidade, é o lema da Jovem Pan: “A rádio que virou TV”. Mas também é bastante revelador que a Band News passe em simultâneo na TV e na rádio o “Jornal da Band”, às 20:30. É como se o Telejornal (Portugal) fosse emitido em simultâneo na RTP e na Antena 1. O resultado é uma escuta de Rádio deplorável. Ouvir Televisão num rádio é uma experiência horrível para quem gosta verdadeiramente de Rádio.

Basta pensar que em televisão escreve-se para as imagens e na Rádio o som (que pode ser palavra) é rei. São duas linguagens e técnicas muito diferentes.

Imagino que no Brasil, como no resto do Mundo, existam muitos ouvintes apaixonados de Rádio e muitos jornalistas que adoram fazer e ouvir Rádio. Mas então o que justifica esta “televisação” da Rádio? Imagino que esteja a acontecer o dinheiro. Sobretudo isso. No caso da Jovem Pan, por exemplo, as audiências, bem como a receita, ao que parece, aumentaram. É o que basta, hoje, para que uma rádio vire, verdadeiramente, TV. A questão da sustentabilidade financeira dos órgãos de comunicação social, no Mundo, é tema que merece uma verdadeira série de artigos, quanto mais ficar agora aqui no meio…    

Uma das questões que mais me inquieta neste processo de perda de identidade da Rádio é que com a identidade se vão a força e o imaginário. Num Mundo que nos oferece tudo de forma tão explícita não será de valorizar um meio que tem a riqueza de nos colocar perante a necessidade construirmos na nossa cabeça as imagens que correspondem ao que ouvimos? A cara de quem está do outro lado a falar, seja jornalista, animador ou entrevistado, não é mais que som. O resto é connosco, com a nossa imaginação. Depois, ao perder força a Rádio perde força o Jornalismo. E isso é muito grave, como é evidente com a praga das notícias falsas e o que tem significado um Jornalismo cada vez mais fraco quando precisávamos dele mais forte que nunca.

Ainda sobre força, o imediatismo, a resposta rápida, a agilidade da Rádio tornam-na essencial na busca de uma reação rápida ou de uma informação de última hora, que não pode esperar por uma câmara e um sinal forte de internet. Poderão revidar que, por telefone, qualquer repórter poderá entrar em direto na emissão de uma televisão. Certo, mas aí estará a fazer Rádio. Rádio num canal de televisão, não Televisão.  

*Jornalista

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