Início » O Mundo precisa de “limpar” o prato…

O Mundo precisa de “limpar” o prato…

Solange Safrão

Em 2015, a comunidade global adotou os 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável para melhorar a vida das populações até 2030. O segundo objetivo– Fome Zero – promete acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover uma agricultura sustentável.

Cerca de um terço dos alimentos que produzimos todos os anos é perdido ou desperdiçado, custando à economia global quase um bilião de dólares norte-americanos por ano. Nos países desenvolvidos, os alimentos são muitas vezes desperdiçados no prato, enquanto nos países em desenvolvimento se perde durante a produção, uma vez que as culturas não são usadas ou processadas devido ao mau armazenamento ou porque os agricultores não conseguem colocar os bens no mercado.

O PLATAFORMA de Sabores conversou com três profissionais na área de restauração em Macau sobre o desperdício alimentar na cidade, que integra a rede de Cidades Criativas da UNESCO na área da Gastronomia. Genericamente, os profissionais consideraram o desperdício alimentar “um problema grave e mundial” e que a sociedade precisa de ser “educada desde cedo a valorizar e não desperdiçar comida”. Concordaram também que devem aplicar-se medidas mais concretas para resolver este problema.  

“A preocupação generalizada das sociedades modernas em relação ao desperdício alimentar é bem fundamentada, dado que ao conhecimento e informação ã que estamos expostos face às mudanças, não só climáticas, mas também sociais e económicas, são necessárias ações que viabilizem um futuro sustentável”, disse o chef do restaurante português GOSTO, André Lai. 

Para o chef Lai,a competitividade na indústria de restauração “anula o conceito de educar e sensibilizar individualmente o cidadão, para que a oferta excessiva não se transforme em consumo excessivo. Todos devem dar o seu contributo”.  

“A mudança começa desde a educação nas entidades de educação e formação, passando por apoios à indústria de produção alimentar local que incentivem a indústria de restauração a procurar competitividade pela qualidade e com o objectivo final de direcionar o consumidor à consciêncialização da sustentabilidade”, defendeu. 

O chef do Galaxy resorts, Fausto Airoldi, coincidiu genericamente com a argumentação de André Lai. 

“Acredito que a alimentação, a gastronomia, a gestão e redução de resíduos devem fazer parte do ensino primário e secundário, para que, desde a infância, as pessoas respeitem a alimentação e a proteína animal”, apontou.

Apesar de não ver “uma solução concreta” para o problema, o chef Airoldi notou que na restauração, assim como hotéis e resorts de negócios, está-se a “abordar a questão de muitas formas, quer através da implementação de sistemas de registo de resíduos, para que haja um objetivo diário, quer através da compra de uma certificação mais sazonal e mais sustentável”. 

Revelou também que em Macau, cidade de gastronomia, a UNESCO foca-se na sustentabilidade e autenticidade da comida, e isso tem contribuído para o setor da restauração estar mais sensibilizado. 

No final da refeição, a tradição chinesa exige que se deixe comida no prato, simbolizando assim que se comeu o suficiente. O chef Airoldi reconheceu que essa cultura prevalece em Macau, mas há cada vez mais pessoas a levar os restos de comida para casa, uma prática que classificou como “boa e que pode ajudar a minimizar o desperdício”. 

Já o diretor de alimentos e bebidas do Hotel Sofitel, Falko Flamme, considerou que o desperdício alimentar é um grande desafio em Macau e que pode ser resolvido com “mudanças radicais e algumas leis”.  

“A gestão dos resíduos em geral em Macau não é muito eficaz. Os resíduos não são separados e são depois enviados para a China para processamento. Assim, para que Macau combata o desperdício alimentar, penso que tem de fazer a gestão de resíduos mais eficiente”, indicou.

Disse ainda acreditar que restaurantes e hotéis locais podem ajudar a diminuir o desperdício se servirem “porções reduzidas nos buffets”. 

Tal como o chef Airoldi, adiantou desconhecer uma solução concreta para o problema, mas disse que tem observado “progressos na indústria de restauração”. 

“Muitos hotéis, inclusive em Bangkok, onde trabalhei, usam o Winnow. O Winnow é um programa que ajuda as cozinhas dos hotéis a desperdiçarem menos comida através da tecnologia”, lembrou.

A pandemia do covid-19, assim como outros desastres naturais, têm afetado o fornecimento de alimentosa nível global. A população mundial supera os 7 mil milhões e já antes da situação atípica de 2020 havia escassez de comida em algumas regiões. De acordo com o Programa Alimentar Mundial, 690 milhões de pessoas vão dormir sem comer e uma em cada três dessas pessoas sofre de malnutrição. 

O Presidente Chinês Xi Jinping, numa declaração recente, considerou o desperdício de alimentos no país “chocante e preocupante” e os banquetes sumptuosos, com vários pratos, foram banidos. A nova campanha contra o desperdício de alimentos no país designa-se “limpe o seu prato”. 

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website