Covid-19 trama mecas do jogo - Plataforma Media

Covid-19 trama mecas do jogo

Las Vegas enfrenta uma crise de saúde pública sem precedentes. Analistas ouvidos pelo PLATAFORMA afastam a possibilidade de Macau beneficiar com mais jogadores e investimento, mas ressalvam que a crise na cidade pode ter impacto na região. O mais provável, apontam, é que o concurso para a renovação das licenças seja adiado. 

Cotai Strip

“A pandemia está a ter efeitos de todo o tipo, não apenas económicos. É muito cedo para ter uma noção clara de qual será o estado do setor do jogo no pós-pandemia. Podem ter ocorrido transformações de fundo. Não sabemos se tudo será como dantes e é provável que as empresas demorem algum tempo a recuperar a sua saúde financeira”, afirma o especialista em Direito do Jogo, Jorge Godinho. O académico da Universidade de Macau acrescenta: “Nestas condições, é possível que o final de 2021 ou princípio de 2022 não sejam o melhor momento para organizar o próximo concurso público. Poderá ser prematuro, dadas as condições excecionais que vivemos. A prorrogação das atuais concessões por mais algum tempo pode vir a tornar-se aconselhável, se não o é já.”

A Covid-19 abalou grandemente os dois centros mundiais de Jogo. As rivais Las Vegas e Macau foram obrigadas a fechar e a retoma está longe das avalanches de visitantes normais noutros tempos. 

As realidades são, no entanto, opostas. Las Vegas tem sido notícia por ter praticamente perdido o controlo da pandemia face à negligência das autoridades e dos privados. Macau faz manchetes pela resposta eficaz desde o início. 

O estado do Nevada enfrenta uma crise de saúde pública nunca antes vista com Las Vegas no epicentro. Com mais de 45 mil infetados na região, o sistema de saúde do estado ficou sobrecarregado com novos casos de Covid-19 desde a reabertura dos casinos em junho. Médicos e enfermeiros dizem-se assustados com este grande aumento. Na cidade, o distanciamento social e o uso de máscaras não têm sido respeitados. Em Macau acontece o contrário apesar de a cidade estar limpa e de no total ter contabilizado apenas 46 casos, sem mortes a registar.

Apesar do drama na capital do Jogo norte-americana, analistas ouvidos pelo PLATAFORMA afastam a possibilidade de Macau vir a beneficiar com mais jogadores e investimentos, mesmo a longo-prazo. 

“A distância física entre ambos é enorme e não me parece que os normais visitantes de Las Vegas equacionem vir a Macau. É verdade que se falarmos em alguns jogadores – poucos! – que têm enorme capacidade financeira (as chamadas baleias, devido aos montantes exorbitantes que gastam numa visita a um casino), esses sim, evitarão Las Vegas pelos próximos tempos e olharão Macau como principal destino. Nessa medida, sim, haverá alguma transferência de jogadores”, considera Carlos Lobo, que foi assessor do Governo de Macau, tendo participado na elaboração da lei do jogo e integrado em 2001-2002 a comissão do primeiro concurso público de concessão dos casinos.

Também Glenn Mccartney, especialista em Turismo da Universidade de Macau, acredita que, a existir, o impacto será diminuto uma vez que os mercados são muito díspares em visitantes, audiências e no tipo de propriedades. 

Las Vegas Strip

O capital

Apesar de distantes, Macau e Las Vegas estão ligadas. Muitas operadoras têm investimentos em ambas e são inclusivamente as receitas no território que aguentam as empresas-mãe no Nevada, como acontece com a MGM, Wynn e Sands. 

Se o drama que Las Vegas atravessa terá um impacto residual ao nível dos visitantes, resta saber se o mesmo acontece com a saúde financeira das empresas – um dos critérios mais relevantes para que sejam consideradas potenciais concorrentes aquando da renovação das licenças de Jogo, prevista para 2022. 

“Esta é, sem dúvida, a questão mais premente”, afirma Carlos Lobo. “Veja-se o que se está a passar com a Wynn, em Las Vegas, que iniciou um processo de despedimento coletivo. Estas empresas são enormes e têm imensas despesas fixas. Precisam de uma clientela estável para se manterem. Todas essas sociedades têm em Macau a principal fonte de rendimentos e foi provavelmente através desses rendimentos que conseguiram expandir-se noutras jurisdições. Com o encerramento em Las Vegas e a manutenção das despesas, todas as sociedades começarão a encontrar dificuldades e terão que tomar medidas difíceis”, diz.

O jurista deixa mais um aviso: “Ou se controlam em Las Vegas ou terão graves problemas a médio prazo. Sabendo que esta situação se vai arrastar pelo menos por mais um ano, se o concurso público for para a frente em 2021, vejo essas sociedades com dificuldades em prepararem-se. Vai ser mesmo complicado e por isso acredito que o concurso público será apenas em 2022 ou mesmo 2023, implicando uma extensão das atuais concessões por um ou dois anos”. 

A situação em Las Vegas, a dificuldade em retomar a atividade a 100 por cento e o impacto que terá nas empresas não podem ser excluídas da equação quando se pensa na renovação das licenças, defende Glenn Mccartney. Mas, mantém o académico, Macau é distinto. O professor refere que outros pontos serão tidos em conta quando se tratar de decidir quem continua no mercado. “O que quero dizer é que todas as operadoras têm sido bastante cooperantes com a sociedade, sobretudo durante este período de pandemia”, argumenta. 

Mccartney recorda que toda a indústria, em Macau e globalmente, está a sofrer um embate dramático porque está praticamente sem clientes. “É verdade que a maioria das receitas é gerada em Macau e por isso é fundamental que o sector recomece. Macau tem gerido toda a situação muito bem e acho que poderá reabrir, ainda que com cautela”, aponta. 

“A imagem conta, sem dúvida, e julgo bastante importante continuar a manter a saúde pública da população de Macau como prioridade, não obstante também ser defensor de uma certa abertura que permita o retomar da vida económica que assenta no turismo”, reforça Lobo.

Ainda que reconheça e elogie a postura das autoridades locais, Glenn Mccartney ressalva que importa referir que Macau é único pelas reservas generosas que tem. “Não é o caso do Nevada. Macau tem tido esta capacidade de resiliência económica porque tem reservas avultadas que o Executivo tem distribuído generosamente pela população e empresas. Claro que implica grandes custos, mas a possibilidade de o fazer é singular. A resiliência económica de Macau tem sido um fator deveras importante em toda a gestão da crise gerada pela pandemia”, considera. 

Cotai Strip

Guerra comercial

Além da pandemia, há outra crise que pode afetar Macau já que a renovação das licenças de Jogo se aproxima e são várias as empresas norte-americanas com investimentos no território.  

Na sequência da disputa sino-americana, os Estados Unidos da América encerraram o Consulado da China em Houston. Decisão à qual Pequim respondeu com o encerramento da representação norte-americana em Chengdu. A guerra comercial dura há cerca de dois anos e tudo indica que se arrastará.

“Esta questão é a mais complicada de todas”, vinca Carlos Lobo. O analista defende que a guerra comercial nunca existiu e foi apenas uma forma de iniciar o processo – “que temos visto a acelerar” – da separação das economias norte-americana da chinesa. “Veja-se os movimentos no âmbito do CFIUS [Committee on Foreign Investment in the United States], onde já em 2018 a comissão avançava com propostas de controlo dos investimentos chineses nos Estados Unidos”, fundamenta.  

Sobre Macau, o advogado afirma que pode ser usado de várias formas, mas ressalva que se deve manter fora da disputa e continuar como um centro de negócios, de encontros, de lazer e de entretenimento. “Envolver política na área do jogo será prejudicial para a indústria e para Macau. E sobre isso, apenas digo que as operadoras todas têm sabido gerir esta pasta bastante bem – mantendo-se nos negócios e evitando matérias políticas”, elogia.

Mccartney acrescenta que a política é mutável e cíclica, mas que o que importa é que a estabilidade económica e social se mantenha. “Haverá sempre tensões entre os Governos, mas não creio que afetará de forma significativa a situação em Macau. A política está sempre a mudar, e por vezes de forma dramática, mas a estabilidade económica e social é o mais importante”, reitera.

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