Estás comigo ou contra mim?

Estás comigo ou contra mim?

Há um efeito curioso chamado bandwagon, igualmente conhecido por “efeito de gado” que se pode exemplificar na seguinte experiência: pede-se a um grupo de pessoas para nomearem a mais comprida de três fitas. Todos são actores instruídos a apontar a segunda maior, excepto uma pessoa, desconhecedora da trama. Essa decidirá em último lugar, e após assistir a todas as escolhas inclinar-se-á a seguir a dos outros. O resultado mostra como os grupos influem consideravelmente no comportamento individual, pois tendemos a considerar o contexto e a posicionarmo-nos conforme as crenças dos que nos rodeiam.

O cérebro não é estúpido, sabe qual a escolha “certa”, mas porque somos animais sociais, em geral optamos pela via do conforto, do mais seguro. A realidade deverá apresentar-se razoável, dentro de parâmetros estabelecidos, senão dificilmente a suportamos. Apascentados, cedemos o controle a pastores, desde figuras habilitadas até à tecnologia, para sermos agrupados, rotulados, encaminhados segundo as nossas supostas preferências. Assumidos os rótulos passamos nós a fomentar a dinâmica de grupo. Existe sempre uma ovelha ronhosa disposta a escapar às regras, logo a precisar de levar umas valentes mordidas; ora no rebanho humano são outras ovelhas a executar o serviço, regulamo-nos mutuamente. 

Depois de décadas sem ouvir falar de “esquerda” e “direita”, a temática ressurgiu cheia de vigor nas bocas do mundo. Sim senhor, estou a par da semiótica, contudo também constato que estes termos respondem ao crescente esvaziamento do espírito crítico, ocupam o seu espaço, promovem a fractura da sociedade separando as águas de forma simplista; enquanto isso, voluntariamente aderimos a uma das facções. Donald Trump afirmou agora que as cidades de Nova York e Chicago têm governos de “super-extrema-esquerda radical”… Esquerda soava fraco, extrema esquerda não chegava, extrema esquerda radical ainda era insuficiente, super extrema esquerda radical já resume o ressentimento exaltado do momento, quiçá um passo antes do hiper, evoluindo via sinistra afora, de mega a giga-hiper-extrema-esquerda-radical, rumo ao infinito do superlativo. Alguém imagina norte-americanos de super-extrema-esquerda-radical em cargos de topo no poder público? Eu sou incapaz, no entanto o delírio reflecte uma ideia arreigada que nutre milhões de apoiantes. E assim, através da indução sistemática de conceitos cristalizados se criam fanáticos devotos ou soldados.

A pouco e pouco a visão maniqueísta instalou-se e generalizou-se, ameaçando desembocar num conflito global. Se ele chegar, o nosso cérebro continuará a não ser estúpido, mas só conseguiremos responder ao desafio da maneira que aprendemos: abordando o desconhecido munidos de cânones e rótulos familiares, optando pelo seguro seremos razoáveis, e devido ao “efeito de gado” não iremos contra as crenças dos que nos rodeiam quando formos colocados perante o derradeiro dilema “estás comigo ou contra mim?” Nessa altura espero bem lembrar-me de como isto começou, com uma falácia representada por actores.

*Músico e Embaixador do Plataforma

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