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Guerra em Hong Kong, Macau no mundo da lua

Há guerra em Hong Kong, sem trincheiras. Presos e deprimidos, na barricada da autonomia e da agenda ocidental; e perda de face da China, na gestão do Segundo Sistema e do lugar de direito no clube de poder global. “Quem vai à guerra dá e leva”, diz o ditado popular, quando caiem por terra a justiça, a negociação, o dever ser… O poder, cego e animal, leva tudo à frente: manda quem pode, obedece quem cede. Macau contempla… no mundo da lua.

Quando a Inglaterra entregou Hong Kong à “Mãe Pátria” – 1 Julho de 1997 – deixou em curso uma campanha destrutiva. “Depois de nós será o caos”, dizia a corte de Chris Patten. A ditadura chinesa foi demonizada e o ego britânico sobrevalorizado. A Região sofreu, os turistas afastaram-se, o volume de negócios caiu… mas por pouco tempo. A City do Rio das Pérolas reencontrou a vocação de centro financeiro e trader global; mas foi mais longe: recriou uma identidade chinesa particular, mais próxima de Taiwan do que de Pequim.

Passados 23 anos, Hong Kong vive em clima de guerra. De um lado da barricada, confunde-se autonomia com independência, identidade local com xenofobia anti-continental, democracia plena com direitos inalienáveis. Do outro, o Primeiro Sistema invade o Segundo; o nacionalismo perde consciência global, a própria memória de Deng Xiaoping é desvirtuada e manipulada.

O artigo 23 da Lei Básica, aprovado em Macau em 2009, demonstrou entretanto não ser um drama em si mesmo. O problema da Lei de Segurança Nacional, em qualquer parte do mundo, está nos abusos e na cultura de aplicação. No caso de Hong Kong, a desconfiança é mútua. Ainda mais quando uns a negam, e outros a impõem à força. Entretanto, a violência urbana, o radicalismo do protesto e o caos em que a cidade mergulhou deram margem de manobra ao lado mais conservador do Partido Comunista.

Quando Trump ameaça com intervenção militar perante o protesto de rua anti-racista; se é fácil adivinhar o que faria a tropa de choque francesa no caso de um protesto incluir bombas incendiárias ou invasão do Parlamento, também é justo admitir que o dragão chinês tem sido até muito paciente. De facto, durante muito tempo não cuspiu fogo. Contudo, está agora a mostrar quem manda. É do seu ADN, e é complicado lidar com o poder em estado de fúria.

Se Hong Kong não pode ser grande sem China; é também um facto que nunca teve democracia sob bandeira britânica. Mais ainda: errou ao negar eleições diretas – ainda que condicionadas. Até porque isso teria deixado o ónus do lado de Pequim, caso viesse a rejeitar líderes da vontade popular. Mas é também verdade que a China não tem razão. Tem poder, como também pretexto: cavalga nos erros de um movimento pró-democrata que perdeu senso político, iludindo-se com um apoio internacional que a China aproveita, para desvalorizar os interesses de Hong Kong.

Defendo uma China democrática, de livre pensamento, aberta ao mundo. Mas essa China não existe. Já esteve mais longe, já esteve mais perto… não é estática nem monolítica. Sobretudo, essa é uma dinâmica que pertence ao próprio povo chinês e à sua relação com a ditadura comunista. Nunca foi – nem será – um projeto externo. Hong Kong é forte, mas não o suficiente. Tem de aprender a lidar com isso e encontrar outro caminho de afirmação. Não vai lá com choque frontal.

Macau é fraca; totalmente dependente da China, e irrelevante para as potências ocidentais. Vive tempos de excesso de amor continental e arrisca-se a perder o foco no valor da diferença e na missão de se relacionar com o exterior, em benefício da própria China. O medo que se sente nos bastidores é o de que a guerra em Hong Kong provoque estilhaços na liberdade e no estilo de vida em Macau.

A esperança, dita em segredo nos bastidores de Macau, é a de que Pequim perceba que não precisa cuspir fogo onde não há desafio anti-continental. Aliás, se o fizer pode mesmo alimentar problemas que não existem. Saberá o PC conter essa tentação? No fundo, ninguém sabe. O próprio Politburo hesitará em apertar o pescoço às duas autonomias, para que não haja dúvidas; ou dar o pirulito ao filho bem comportado, para que o rebelde e o mundo vejam.

A alma do Segundo Sistema vive em Macau sentimentos mistos: por vezes, excita ver a energia e a coragem do confronto em Hong Kong, mas dá pena perceber que isso só correr mal. É um descanso Macau ter consciência da sua menoridade – não corre riscos – mas assusta a sua letargia, falta de ambição e de capacidade negocial…

Macau não vai à guerra – não dá nem leva. Hong Kong leva mais no lombo do que as dores de cabeça que dá à Pequim. No fundo, há três enganos neste triângulo. Ninguém tira o melhor de si mesmo, nem desta relação.

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