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Doentes, desempregados e deprimidos

O medo de ser infetado pelo coronavírus não é o maior nem o mais descomunal dos medos. O bicho está a trazer outros, de bocarras maiores. O medo de ficar desempregado, o medo de entrar em depressão e dela não sair. Num cenário ainda mais dantesco, o medo de ficar doente, desempregado e deprimido juntando os três “d” numa infernal trilogia. Dizem os antigos que só não há solução para a morte. Assim é mas os países têm de agir já, sem perder um segundo.

A Organização Internacional do Trabalho veio corrigir as suas previsões para pior e, segundo as suas estimativas, as perdas globais de horas de trabalho no segundo trimestre deste ano vão equivaler a 400 milhões de empregos a tempo inteiro. 400 milhões. Na maior parte dos casos, cada emprego individual carrega uma pessoa em toda a sua construção e necessidades, e uma família atrás. Falemos pois em 400 milhões de pessoas com rosto, alma e dignidade.

Na crise financeira de 2008, que foi uma “epidemia” causada por investidores bancários que jogaram à roleta russa com o dinheiro de todos, os bancos centrais de todo o mundo injetaram biliões para o sistema bancário para o salvar da falência. Isto aconteceu diante dos nossos olhos e perante a perplexidade de milhões de famílias que perderam casas, empregos, vidas, por conta de uns jogadores viciados de Wall Street.

Agora há muito mais do que bancos para salvar, há vidas. Não apenas as que já foram afetadas pela doença da Covid-19 mas as que estão a ser ou ainda vão ser pela queda no abismo que é ficar sem trabalho (e eventualmente sem saúde mental, também).

Atualmente no Google a palavra mais procurada é “insónia”. Supera a anterior campeã, “Deus”. A pandemia e o consequente confinamento fez elevar a compra de ansiolíticos e antidepressivos. Mesmo sem a perda de trabalho, os efeitos de uma situação inédita destas na saúde mental ainda não estão estudados mas já se percebeu que são reais.

Um novo Plano Marshall vai mesmo ser necessário. Os pacotes de estímulo do FMI e da Comissão Europeia terão de ser continuamente renovados. Os serviços nacionais de saúde terão de se preocupar com muito mais do que o vírus, com a saúde mental dos cidadãos.

Porque nunca como agora, o termo “Grande Depressão”, cunhado para a crise bolsista de 1929, foi tão apropriado.

*Jornalista do PLATAFORMA

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