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Racismo em Portugal tem a subtileza do “português suave”

Isabel Alves

Um debate sobre o racismo “só pode ser positivo”, defende o presidente da APAV, que acha que o racismo em Portugal tem a subtileza do “português suave” e teme que o momento beneficie objetivos totalitários, populistas e pouco democráticos.

Foram milhares os que saíram às ruas, em Lisboa, Porto e Coimbra, no início do mês, em protesto contra o racismo, motivado sobretudo pela morte do afroamericano George Floyd nos EUA e pela onda de protestos que se lhe seguiu no país, mas “com um pé” na discussão que o país continua a evitar fazer, a da existência de racismo latente na sociedade portuguesa, que invariavelmente leva a uma divisão entre os que acham que ele existe e os que acham o contrário.

Portugal tem receio de debater o racismo? Para o presidente da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), João Lázaro, “nós”, portugueses, “temos alguns tabus”.

“Nós temos alguns tabus. Temos uns tabus mais subtis. É os efeitos positivos e negativos do ‘português suave’. O nosso racismo muitas vezes é mais subtil. A nossa discriminação é mais subtil, a própria violência noutras áreas acaba por ser menos exuberante do que noutras latitudes, como sejam os nossos vizinhos de península”, afirmou.

Em entrevista à Lusa a propósito dos 30 anos da associação, que hoje se assinalam, o presidente da APAV entende que “só pode ser positivo haver um debate e uma reflexão alargada, um conhecimento, debate esse que nesta altura existem algumas dificuldades para ser feito sem ser manietado por objetivos mais totalitários e visões mais populistas da sociedade e da sua instrumentalização para objetivos que são muito pouco democráticos”.

Para João Lázaro, a manifestação de 06 de junho mostra que “vivemos num mundo em que está tudo polarizado e em que as reações são extremadas”, acrescentando que, do ponto de vista da APAV, o importante a valorizar é “o património de direitos humanos”, independente da origem e contexto de cada pessoa.

“Reflexão e debate sim, claramente, para a consagração dos direitos humanos ser de conquista em conquista, e não para ser apenas objeto instigante, para um retrocesso de direitos. Há direitos que não se discutem, exatamente porque são direitos humanos”, defendeu.

O estado polarizado da sociedade reflete-se no atual quadro político nacional, que passou a integrar no parlamento um partido, o Chega, com um discurso marcadamente hostil em relação a uma etnia específica: os ciganos.

“A nós preocupa-nos porque a discriminação é claramente uma forma de violência. Essa violência discriminatória anda paredes meias com crimes de ódio. Os decisores políticos devem claramente dar o exemplo da integração, da sociedade plural, de não discriminação que deveremos ser todos nós. A nossa história não nos ensina outra coisa que o desfecho não seja esse. Os crimes de ódio, de discriminação, têm vindo a subir e isso é claramente um fator que nos preocupa, quer em termos de prevenção, quer em termos de intervenção”, defendeu o presidente da APAV.

É do Chega a iniciativa da próxima manifestação em Lisboa, no sábado, que pretende juntar os que acham que não existe racismo em Portugal, na qual o líder do partido, André Ventura, espera reunir cerca de 1.500 pessoas.

Ventura demarcou-se entretanto do apelo lançado pelo líder da extrema-direita, Mário Machado, que pediu aos seus seguidores que se juntassem à manifestação.

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