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Raptos voltam a atormentar

Luís Fonseca

A maior associação empresarial já veio a público pedir ajuda para travar uma nova vaga de raptos, enquanto analistas alertam para “falhas sistemáticas” por parte de autoridades e outras entidades envolvidas nos casos

O ano de 2020 está já marcado por sete raptos de empresários ou respetivos familiares em Moçambique. Três vítimas foram recuperadas e sobre os outros quatro casos não se conhecem desenvolvimentos. Certo é que o tema voltou a marcar o debate público com intervenções da maior associação patronal do país, do Governo e da Procuradoria-Geral da República (PGR). Mas ninguém dá garantias de que haja mudanças para prevenir o crime que, de tempos a tempos, emerge com maior número de ocorrências. É o caso de 2020.

O último caso aconteceu a 16 de maio: um empresário do setor comercial foi raptado ao cair da noite na cidade da Beira, centro de Moçambique. Liacat Moreira e Silva, com cerca de 60 anos, fazia uma caminhada quando foi levado num automóvel por desconhecidos. Seria libertado cinco dias mais tarde em “circunstâncias por apurar”, segundo as autoridades.

Antes, a 05 de maio, Yassin Anwar, empresário da hotelaria e comércio, foi raptado também ao cair da noite, noutra capital provincial do centro do país, Chimoio, província de Manica. Ali, o crime envolveu vários automóveis e foi consumado após um tiroteio.

A 30 de abril, Rizwan Adatia, líder de um grupo comercial de grande dimensão e filantropo, foi raptado durante o dia numa via rápida, na zona do Bairro do Fomento, arredores de Maputo. A viatura da vítima foi bloqueada junto a um semáforo pelos raptores, que lhe apontaram uma arma e o levaram. Esteve 21 dias em cativeiro num bairro do distrito de Boane, até ser libertado pelas autoridades.

Ainda na capital, em março, um menor de 12 anos – filho de um empresário da firma Armazéns África – foi levado por desconhecidos na baixa de Maputo. No mês de fevereiro, quatro desconhecidos sequestraram o empresário moçambicano, Manish Cantilal, ao estacionar na garagem de casa, na capital. Foi mantido encarcerado no município da Matola, nos arredores de Maputo, durante cerca de três meses até as autoridades o conseguirem encontrar.

Também fevereiro, um outro empresário, Ossufo Satar, de 44 anos, foi raptado à saída do estabelecimento comercial de que é proprietário, na cidade de Chimoio. O empresário indiano Faizel Patel foi também raptado em janeiro na cidade da Beira, centro do país.

Empresários fazem soar alarme

“Moçambique já tem problemas que precisam de foco de todos e não podemos deixar que este, em particular, perdure”, declarou Osório Boane, diretor-geral do Parque Industrial de Beluluane, arredores de Maputo, e dirigente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA). A maior associação patronal do país tornava assim público e oficial a preocupação que já se ouvia em surdina entre os homens de negócios. “A CTA manifesta forte repúdio pelo recrudescimento de raptos de empresários. Fazemos um apelo para que quem de direito tome ações enérgicas para estancar este mal que afugenta qualquer empreendedor ou investidor”, frisou. A declaração foi feita no início de maio, dias antes de a PGR, Beatriz Buchili, divulgar no parlamento o relatório anual de atividade do Ministério Público. Na apresentação, defendeu “uma intervenção enérgica” contra os raptos no país, mas sem adiantar novas medidas. Buchili pediu um esforço das instituições judiciárias, a colaboração dos familiares das vítimas, das estruturas administrativas de base, dos agentes económicos e da sociedade, em geral. “Os locais que normalmente são usados como cativeiro situam-se nos nossos bairros e a angariação dos valores para pagamento do resgate conta, algumas vezes, com o apoio de familiares, amigos ou agentes económicos mais próximos”, referiu.

Sinais de “falhas sistemáticas”

A forma como surgem, recorrentemente, surtos de raptos em Moçambique mostram que há “falhas sistemáticas” e “ falta de integridade” nas instituições de combate à criminalidade, referem dois juristas. “Os raptos envolvem telecomunicações, sistema financeiro, mobilidade, abrigos e quando acontecem é porque há falhas sistémicas”, considera Custódio Duma, especialista moçambicano em direitos humanos. E conclui: “É alarmante que as vítimas raptadas recentemente na província de Maputo tenham sido colocadas durante várias semanas em cativeiros próximos da capital, que acolhe também a sede das instituições de justiça e das Forças de Defesa e Segurança”.

Baltazar Faela, jurista do Centro de Integridade Pública (CIP), organização civil moçambicana, considera que o combate aos raptos impõe “a promoção da integridade” no seio das instituições de luta contra a criminalidade, porque “há uma infiltração nociva de membros desonestos nessas instituições”. “Infelizmente, houve e sempre haverá agentes de autoridade não profissionais e pouco éticos. É preciso que o combate ao crime seja entregue a pessoas com integridade”, diz. O jurista advoga que o Banco de Moçambique tenha “mão dura” sobre práticas ilegais no sistema financeiro, porque o negócio de raptos é financiado por dinheiro que sai dos bancos.

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