O corte de energia ocorreu a 28 de abril de 2025, pouco depois do meio-dia, e teve efeitos imediatos no funcionamento dos serviços essenciais. Transportes ferroviários e metropolitanos foram interrompidos, aeroportos operaram com limitações, hospitais ativaram geradores de emergência e os sistemas de comunicações e pagamentos registaram falhas em várias regiões. Em algumas cidades, o trânsito ficou paralisado devido ao apagão dos semáforos. A reposição do fornecimento foi gradual e só ficou praticamente concluída no dia seguinte.
Durante semanas, as autoridades admitiram vários cenários, incluindo a possibilidade de um ciberataque. Essa hipótese viria, porém, a ser afastada de forma conclusiva. A investigação coordenada pela ENTSO-E — a rede europeia dos operadores de sistemas de transporte de eletricidade — apontou para uma falha técnica grave relacionada com o controlo de tensão na rede elétrica ibérica.
De acordo com os relatórios finais, o sistema registou um aumento súbito e anómalo da tensão, que não foi compensado atempadamente pelos mecanismos de estabilidade existentes. Essa instabilidade provocou uma reação em cadeia: várias centrais desligaram-se automaticamente por razões de segurança, levando ao colapso progressivo da rede e à separação da Península Ibérica do sistema elétrico europeu interligado.
As conclusões indicam que não houve um único erro, mas sim a combinação de vários fatores críticos. Entre eles estão limitações na capacidade de resposta a variações rápidas de tensão, falhas de coordenação operacional entre produtores e operadores de rede e uma insuficiente disponibilidade de produção síncrona no momento do incidente. Os investigadores sublinham que as energias renováveis não foram a causa direta do apagão, embora a crescente complexidade do sistema tenha aumentado a exigência sobre os mecanismos de controlo e estabilidade.
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O impacto político e regulatório do apagão foi imediato. Em Espanha, foram reforçadas as exigências técnicas para novas centrais elétricas e introduzidas regras mais rigorosas no controlo de tensão. A Comissão Europeia iniciou também um processo de revisão das normas de ligação à rede, com o objetivo de tornar o sistema elétrico europeu mais resiliente a oscilações extremas de produção e consumo.
Em Portugal, as autoridades energéticas defenderam a necessidade de maior investimento em tecnologias de estabilização da rede e numa cooperação mais estreita com os operadores europeus. O apagão passou a ser utilizado como estudo de caso nos fóruns internacionais sobre transição energética e segurança do abastecimento.
Um ano depois, o episódio é visto como um aviso sério num contexto de profunda transformação do setor energético. A principal lição retirada pelas autoridades é clara: a transição para um sistema mais verde exige redes mais robustas, inteligentes e preparadas para responder a falhas rápidas, sob pena de novos colapsos com consequências económicas e sociais significativas.