Numa altura em que a violência em Cabo Delgado está longe de acabar, o PLATAFORMA conversou com duas personalidades moçambicanas que vivem em Macau. Mesmo à distância, a preocupação é muita
Helena Brandão é a presidente da Associação dos Amigos de Moçambique (AMM), reeleita recentemente para mais um mandato de três anos. Para Helena falar de Cabo Delgado é falar de um povo “sofrido”. “Vejo com muita preocupação o que se passa na província de Cabo Delgado”, começou por dizer.
As consequências resultantes de um conflito que estava latente, e que se agravou e muito, nos últimos dois anos, são, para a presidente da AAM, imprevisíveis. “Os relatos que chegam, são preocupantes. Temos o apelo quase diário do bispo da cidade de Pemba [capital da provincia] e é de cortar o coração. A população está carenciada de tudo. Os alimentos não chegam, as atividades estão praticamente paradas e como se não bastasse, é a província moçambicana que apresenta maior número de casos de infetados com Covid-19″, desabafa Helena Brandão.

Para a moçambicana, natural da província da Zambézia e radicada em Macau há 35 anos, o que se passa em Cabo Degado nada mais é do que um conflito interno “com contornos muito complexos, dificeis de solucionar, que giram à volta de vários problemas – étnicos e sociais -, mas sobretudo de interesses económicos”. Helena lembra que “é nessa região que existe o maior investimento privado em África” com a exploração do gás natural, atividade que está paralisada neste momento por causa da instabilidade na província.
A presidente da AMM considera que a chave da resolução do conflito passa, no curto prazo, pela “intervenção militar”. Contudo, não é uma tarefa fácil, uma vez que essa intervenção carece de “organização e recursos”, algo que não abundam em Moçambique neste momento.
A verdade é que “não se definindo concretamente quem são os inimigos” é difícil avançar. “Primeiro falava-se em interferência estrangeira, mas ultimamente já se apontam algumas forças internas. Assim, torna-se difícil alguma forma de diálogo”, conluiu Helena Brandão.
“Cabo Delgado não é só gás”
E para tentar entender, de facto, se há uma interferência estrangeira ou se são forças internas que estão a empancar Cabo Delgado, o PLATAFORMA contactou Rafael Custódio Marques, cônsul-geral de Moçambique em Macau. “Terrorismo é de certeza. São uns malfeitores”, avançou, convicto, o diplomata perante a questão, explicando de seguida: “Contudo, não tenho informação quem são e de onde vêm esses terroristas. É sabido que há estrangeiros capturados e abatidos, mas não sei quais as nacionalidades.”
Para Rafael Custódio Marques, Cabo Delgado “não é um assunto só de Moçambique, uma vez que mais pessoas estão atentas ao que se passa”. “Internamente, o Governo está a fazer todos os possíveis para resolver o problema”, garantiu, lembrando que “se fossem motivos políticos, já teria aparecido uma qualquer organização a reinvindicar os ataques.”
Uma coisa é certa, “o conflito no norte de Moçambique atrasa o desenvolvimento do país”, defende o diplomata moçambicano. “Não é só o gás. Em Cabo Delgado temos variados investimentos como a indústria de extração de rubis, por exemplo. Este conflito está a impedir a exploração desses recursos, que muito são precisos a Moçambique.”
