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“Sou totalmente competente para o cargo”

É o conselheiro mais novo da História da RAEM. Aos 30 anos, Gary Chao tomou posse como membro do Conselho Executivo há um semana. Ao PLATAFORMA diz que a juventude não é um problema, mas sim uma vantagem. Repete as palavras de ordem do futuro Chefe do Executivo – inovação e reforma – e defende que há representatividade no Conselho Executivo apesar de, e também pela primeira vez, não haver mulheres no organismo. Ausência que não o incomoda. Acredita que ser líder de uma associação patriótica – Federação da Juventude – não terá sido o critério primordial para a nomeação, mas terá tido peso, afinal de contas, sublinha: “Ser patriota é importante não apenas para mim como deve ser para todos os cidadãos de Macau”.

– Que significado teve ter sido nomeado para o Conselho do Executivo?

G.C. – É uma excelente oportunidade. Dedico-me à juventude há muitos anos. Esta nomeação pode dar mais visibilidade aos assuntos que preocupam os jovens. As nossas vozes nem sempre chegavam ao Chefe do Executivo. É uma excelente oportunidade de transformar o nosso trabalho em medidas. 

– Porque acha que foi escolhido?

G.C. – Porque trabalho e me dedico à juventude há muitos anos. A minha nomeação mostra que o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, quer que haja uma nova mentalidade no Governo. Quer que os jovens intervenham mais no processo de tomada de decisões. Isto mostra que Ho Iat Seng considera que o órgão com o qual se aconselha deve contar com uma maior participação da juventude e este é o motivo principal que fez com que fosse nomeado.

– O que acha que espera de si o Chefe do Executivo?

G.C. – A minha função principal é representar a juventude de Macau. Portanto o meu trabalho passará por por recolher opiniões e sugestões dos jovens. A expectativa do Chefe do Executivo é que as suas decisões possam ir ao encontro das expectativas dos jovens.

– E que papel pode desempenhar no Conselho que o diferencie dos restantes membros?

G.C. – Há 11 membros no Conselho Executivo. Cada um tem um papel, e representa um setor. Como há muitos anos trabalho com jovens e agora sou um dos líderes de uma associação que os representa, posso ser o intermediário entre o Governo e a juventude, e é isso que me diferencia dos restantes membros.

– Quem lhe disse que era um dos escolhidos?

G.C. – Foi o próprio Ho Iat Seng que me convidou. Também fiz parte da sua equipa durante a campanha eleitoral. 

– Que relações tem com o próximo Chefe do Executivo?

G.C. – Conheci-o pessoalmente no período pré-eleições. Antes disso, não nos conhecíamos. Só o conhecia da televisão. Provavelmente conhecia o meu passado e acho que foi por isso que me escolheu.

– Que opinião tem do futuro líder do Governo?

G.C. – Acho que é humilde e um líder ambicioso. Tem uma grande experiência política. Além disso, tem boas relações com o Governo central, o que é muito importante para nós, porque Macau é parte da China. A relação entre o país e Macau é muito importante. Estou contente e acredito que Ho Iat Seng vai ser um bom líder para Macau.

– Tem apenas 30 anos. Foi uma surpresa haver um membro tão novo. Não é muito cedo para ocupar um lugar desta responsabilidade?

G.C. – É verdade que sou muito novo. A minha carreira não é vasta e não tenho muita experiência política. Sob esse ponto de vista, concordo que pode ser muito cedo. Mas, como disse antes, esta nomeação mostra que Ho Iat Seng quer dar mais voz à juventude e esta postura é consistente com a que assumiu na campanha eleitoral: de reforma e inovação. Acho que a minha grande vantagem é a dedicação verdadeira e honesta aos assuntos relacionados com os jovens. A minha ambição é corresponder às ambições dos jovens e conseguir representá-los, e por este prisma sou totalmente competente para o cargo.

– Insiste que Ho Iat Seng quer mudança e inovação. Há uma intenção de rutura com o passado e com os Governos anteriores?

G.C. – Macau tem-se desenvolvido muito nestes 20 anos. Agora temos de pensar a longo prazo e pensar no que Macau precisa para se desenvolver ainda mais. Neste sentido, não podemos manter apenas a tradição e o sistema do passado, temos de pensar em inovar e o que é mais adequado para o futuro. Acho que Ho Iat Seng quer implementar ideias novas.

– De que reformas e inovação precisa Macau?

G.C. – Por exemplo, Ho Iat Seng falou da reforma na administração pública, que na verdade é uma área bastante difícil. Acho que é corajoso da parte de Ho Iat Seng ter esse objetivo e conseguir criar uma estrutura nova para que o Governo consiga servir melhor a sociedade. 

– Pode ser mais específico?

G.C. – Acho que Macau precisa de um Governo eficiente. As infraestruturas em Macau e o desenvolvimento económico enfrentam algumas dificuldades. Por agora não posso ser muito mais detalhado. Mas esta é a direção e o sentido que se pretende seguir.

– Vem da Federação da Juventude de Macau, uma associação patriota. Acha que terá sido esse o critério primordial na sua escolha para o Conselho Executivo?

G.C. – Não sei se terá sido o critério primordial, mas como referi antes, Macau é parte da China. Portanto quando consideramos qualquer decisão temos de estar alinhados com os interesses da nossa Nação. Neste sentido, ser patriota é importante não apenas para mim como deve ser para todos os cidadãos de Macau. A minha associação sempre se esforçou por fazer o melhor para Macau e para o País, e este deve ser um requisito básico para qualquer pessoa que integre o Governo ou o Conselho Executivo.

– Vê algum conflito de interesses entre o lugar que agora ocupa e as funções que desempenha profissionalmente e na sociedade civil?

G.C. – O meu papel no Conselho Executivo na área dos assuntos da juventude não é conflituoso com o meu trabalho. Posso dar opiniões e partilhar a minha experiência sobre assuntos económicos, mas há outros membros responsáveis por este setor. Antes de mim, houve outros membros no Conselho Executivo que também trabalharam no Banco da China. Posso aprender com eles, e em como encontrar um equilíbrio.

– Acha que há representatividade no Conselho Executivo? 

G.C. – Na verdade, acho que já há uma elevada representatividade no conselho. Antes, por exemplo, a juventude não estava representada e agora está. Acho que a representatividade está a crescer. 

– Não há mulheres, pela primeira vez.

G.C. – Sobre a ausência de mulheres, há assistentes sociais no Conselho Executivo e acho que podem refletir e transmitir os assuntos relacionados com as mulheres.

– Considera portanto normal que num conselho com 11 membros não haja uma mulher, sobretudo considerando que o futuro Chefe do Executivo insiste na ideia de mudar e inovar?

G.C. – Acho que Ho Iat Seng se preocupa e quer saber dos assuntos das mulheres. Desta vez, não há mulheres no Conselho Executivo, mas os assuntos das mulheres podem ser transmitidos pelos assistentes sociais que estão no conselho, acho que farão bem esse trabalho.

– Vai representar a juventude. O que é prioritário para o bem-estar desta franja da população?

G.C. – Primeiro a questão da habitação. Muitos jovens não conseguem ter casa por causa dos preços elevados. Ho Iat Seng já disse que ia pensar em medidas sobre esta matéria. Também faz parte do meu trabalho estudar novas políticas no sentido de garantir habitação para os jovens. A maioria não tem grande esperança. Como é que podem ter um futuro confortável em Macau tendo em conta o sistema vigente? Não há maneira para os jovens e jovens casais. Neste momento, vamo-nos focar não apenas na oferta de mais habitação como também na criação de mais políticas que resolvam o problema de acesso à habitação. O segundo ponto é a Grande Baía e as oportunidades para os jovens locais. É uma oportunidade muito importante. 

– De acordo com estudos de entidades locais, a maioria dos estudantes não quer viver nem trabalhar na Grande Baía. 

G.C. – Acho que não interessa que os jovens não queiram ir para a Grande Baía. Macau também é parte da Grande Baía. O motivo pelo qual sempre insistimos que devem aproveitar as oportunidades da Grande Baía é porque os nossos jovens querem mais oportunidades e mais diversas. Macau é um mercado pequeno e talvez o mercado não chegue para corresponder às aspirações da juventude local. A Grande Baía permite que os jovens locais não estejam limitados a uma cidade pequena. Sei que alguns dos jovens podem não conseguir adaptar-se à cultura do Continente e querer voltar a casa. Se forem para o Continente podem sentir que o custo de oportunidade é grande tendo em conta que, por exemplo e em geral, o salário em início de carreira é baixo. Em Macau, começa-se com um ordenado na ordem das 20 mil patacas, o que é muito. Este tipo de coisas faz com que os jovens locais não queiram ir para a Grande Baía.

– Quando diz que os jovens locais poderão sentir algumas diferenças no Continente, a que se refere?

G.C. – Sob o princípio Um País, Dois Sistemas temos um estilo de vida que difere do que se tem na China continental. Por exemplo algumas redes sociais, como o Facebook, são bloqueadas. Este tipo de diferenças pequenas pode desencorajar os jovens de cá a irem para o Continente. Também ao nível das políticas o sistema é diferente, o que faz com que tenha de haver um processo de adaptação e podem ter receio disso.

– A juventude tem sido notícia um pouco por todo o mundo, sobretudo por tomarem a dianteira em protestos contra governos. Como olha para essa insurgência e especificamente para o que sucede em Hong Kong?

G.C. – Acho que os estudantes e jovens preocupam-se sempre com o futuro da sociedade porque são eles quem vai viver esse tempo.No entanto, a maneira de observar dos jovens é por vezes restrita e simples, e nem sempre funciona, considerando a complexidade dos assuntos sociais e políticos. Sobre a situação em Hong Kong, vai fazer com que a juventude de Macau pense mais sobre o sistema político em vigor. Acho que é um bom momento para se deixar a juventude pensar e avaliar de forma profunda e objetiva. 

– A fórmula Um País, Dois Sistemas está na origem da RAEM. Como vê aplicação do princípio desde 1999? Há quem fale em ataques.

G.C. – Primeiro temos de perceber que Macau é parte da China e como a maioria dos países do mundo, a China quer um país unido. O desenvolvimento de Macau tem de estar a par com o interesse da Nação, em prol do bem-estar e segurança do país. Sob o princípio Um País, Dois Sistemas Macau é autorizado a ter um sistema próprio diferente do que vigora na China e do resto do mundo. Podemos ver que, de forma paulatina, houve melhorias. Em termos de ambições para o desenvolvimento económico, o que se quer é que as pessoas vivam e trabalhem em paz e felizes. 

 – Como imagina Macau e como gostaria que fosse em 2049?

G.C. – Se o sistema for bem-sucedido, porque se haverá de mudar? Depois de 2049, se Macau e a China forem mais prósperas, o sistema tem motivos para continuar: tanto o princípio Um País, Dois Sistemas como o estilo de vida de Macau. 

Catarina Brites Soares 27.12.2019

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