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(No) caminho

O ensino do mandarim, português e inglês foi o que pesou na decisão dos encarregados de educação quando escolheram a Zheng Guanying. Ao PLATAFORMA, os pais defendem que a escola está no rumo certo, mas faltam medidas para concretizar os objetivos do trilinguismo e multiculturalismo. 

O Diego é português tem 4 anos e anda no 2º ano do ensino infantil. Fandy tem 9 e está no 3º da primária na escola onde também estuda o irmão Ducker, com 14 anos, que está no equivalente ao 8º ano. Aos irmãos chineses juntam-se os irmãos Marilisa, de 8 anos, e Giovanni, de 6, – filhos de uma japonesa e de um italiano – que também estudam na Zheng Guanying. Ela no 3º ano da primária e ele no 1º do infantil. Saturnino e a irmã Filumena, filhos de pai nepalês e mãe macaense, são mais dois dos alunos do ensino infantil do projeto piloto Zheng Guanying. 

A escola convenceu os diferentes pais por ser trilingue e multicultural. Passados seis anos desde que abriu portas, os encarregados de educação esperam mais daquela que é a primeira e única instituição em Macau com ensino em mandarim, português e inglês desde o infantil até ao final do secundário.

Diana Massada optou pela Zheng Guayning por achar que era uma escola válida e uma iniciativa que Macau precisava, ainda que hoje seja bastante crítica face à forma como evoluíu. “Temos o preconceito de que as escolas chinesas são bastante rígidas e muito trabalhosas. Conheci este projeto e interessou-me”, recorda a mãe do Diego que queria que o filho aprendesse chinês por ser a língua mais falada no território, e que estivesse integrado na sociedade e não crescesse num ambiente só português ou internacional.

A oferta linguística também pesou para Coco Dell’Aquila quando teve de decidir onde estudariam Marilisa e Giovanni. “Não somos daqui e achamos que a possibilidade de aprenderem o mandarim é o mais importante. Têm chinês, português e inglês. Não se pode exigir mais de uma escola pública. É incrível que o Governo tenha tido esta iniciativa e criado este projeto”, elogia a empresária japonesa a viver em Macau há nove anos com o marido italiano.

O multilinguismo repete-se na lista de motivos que levou a macaense Elfrida Faria e o marido nepalês a escolherem a Zheng Guanying. “Queremos que os nossos filhos aprendam mandarim e português”, já que em casa se fala inglês e um pouco de cantonês. Mas há mais expetativas com a passagem pelo projeto-piloto. “Espero que os meus filhos cresçam num ambiente agradável, feliz e descontraído. As notas não são a minha prioridade.”

O ensino dos três idiomas também foi o que convenceu Chong Kit Hong, influenciada pela família que insistiu que seria uma mais-valia para Fandy e Ducker aprenderem as duas línguas oficiais de Macau. “A maioria das escolas privadas não tem aulas de português. Acho que a Zheng Guanying lhes vai dar boas perspetivas”, acredita Chong, que excluiu a Escola Portuguesa de Macau porque queria que os filhos também tivessem uma educação em chinês. “Não falo português e poderiam surgir problemas de comunicação caso tivessem uma formação exclusivamente em português”, esclarece. 

Prós e contras

O ensino do português é, aliás, a primeira grande vantagem para Chong, também presidente da associação de pais da Zheng Guanying. “É muito importante que a escola se foque na língua portuguesa. A eventual desvantagem que encontro prende-se com o facto de terem menos horas de inglês face a outras escolas”, refere.

Coco Dell’Aquila confessa que estava céptica em relação ao português no caso de Giovanni porque, ao contrário da irmã que esteve no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, não passou por uma escola de matriz portuguesa. Os receios desapareceram entretanto. Foi um dos alunos aprovados no sistema de ensino bilingue que a escola implementou este ano letivo no 1º ano dos ensinos primário e secundário.

 “São fluentes nas três línguas, e ainda no japonês e no italiano, porque eu e o pai lhes falamos nas nossas línguas. Nunca pensei ouvir os meus filhos a falarem em mandarim. É a primeira língua deles e depois o português”, realça.

A mãe japonesa só vê vantagens na escola. A pluralidade linguística e o ambiente são as duas que destaca. “Estão muito mais estáveis do que estariam numa escola internacional, onde estudam sobretudo expatriados que vão e vêm. As relações de amizade que estabelecem estão sempre a terminar. Aqui estão expostos a um ambiente multicultural e multilingue, e ao mesmo tempo estão em contacto com a cultura local duma maneira muito intensa porque estudam com crianças locais.”

Diana Massada elogia as instalações “fantásticas”, a dedicação dos funcionários, a facilidade de comunicação com a escola – que garante sempre tradução em português ou inglês nas reuniões – e o apoio quando os alunos têm dificuldades. 

Ainda assim, ressalva, haverá sempre um confronto cultural no caso dos portugueses e ocidentais. “Dos pais e não das crianças porque os miúdos adaptam-se facilmente ao contexto. Temos uma estrutura mental que nos faz olhar para as coisas com o nosso modelo de pensamento. Nestas idades não estamos preocupados se escrevem ou leem e ali estão. O meu filho já escreve e tem trabalhos de casa. São questões que nos confrontam”, explica.

E resume: “Como uma mãe chinesa me dizia. É uma escola chinesa mas muito mais flexível e leve para os chineses, e um pouco mais pesada para nós face ao que estamos habituados”.

As dificuldades que o filho de João Palla sentiu por não ter o mandarim como língua materna foram a causa para os pais o matricularem na Escola Portuguesa no 5º ano. “O salto do 4º para o 5º é grande em termos de exigência e de capacidades linguísticas. A sua frustração, e a nossa por não o podermos ajudar, fez com que o transitássemos para a EPM”, conta João Palla.

Os quatro anos na Zheng Guanying, garante, deixaram marcas. Além de falar e escrever chinês, ganhou a convivência com crianças chinesas – “que preza ainda agora” – e uma maneira de olhar para o mundo diferente – “a nossa e a dos chineses, sem necessariamente distinguir ou tomar partido”.

A isto, João Palla acrescenta ainda a capacidade de resiliência depois de quatro anos difíceis. “Não só pela questão da língua, mas também pela grande quantidade de horas letivas e pelos inúmeros trabalhos de casa diários”, conta.

A mãe do Diego foi-se ajustando à exigência, mas confessa manter alguns receios.

“Tenho medo que perca a flexibilidade de pensamento e análise crítica. O que mais me preocupa de o meu filho seguir um programa chinês é a metodologia e a forma de ensino nas escolas chinesas que é muito pouco dada ao pensamento crítico”, aponta.

E a este junta o medo da falta de exigência do português, já que na Zheng Guanying é ensinado como língua estrangeira. “Para os alunos que têm o idioma como língua-mãe pode ser desmotivante e fazer com que não evoluam.”

Por cumprir

A secundarização do português ao longo do tempo é uma das críticas apontadas por Diana Massada que defende que instituição não é o projeto multicultural que se propôs ser. 

“Se olharmos para a evolução do número de alunos de diferentes nacionalidades, vemos que tem vindo a diminuir. Sobretudo nos últimos dois anos, a escola tem tido uma política que afasta as pessoas de outras nacionalidades. A começar pela exclusão do português nas entrevistas”, sublinha a encarregada de educação.

Descontente com as mudanças, Diana Massada tomou a iniciativa de juntar alguns encarregados, falar com a direção e entregar uma carta ao secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, a expor as preocupações. 

Na altura, a direção explicou que deixou de incluir o português nas entrevistas para a escola poder avaliar o nível que as crianças tinham da língua veicular de ensino – o mandarim. Diana Massada entende o argumento, mas discorda: “Isso não se faz numa entrevista de 15 minutos, num enquadramento que a criança não conhece e que comunicam numa língua que não entende. Só contribui para garantir o insucesso no acesso à escola. Numa escola em que o português faz parte, é língua oficial do território, e que o projeto é visto como um modelo de formação de bilingues, é um contrassenso não se usar o português”. 

A mãe de Diego reitera que dificilmente a escola terá um ambiente multicultural se não for trabalhado desde o início. “Se não faz essa captação no ensino infantil, mais dificilmente o fará no primário. Logicamente que depois não teremos as comunidades portuguesa e estrangeira a apostar na escola na fase seguinte – a primária – porque já não conseguiram entrar no ensino infantil”, defende.

Chong Kit Hong, que nasceu no Continente, considera que a Zheng Guanying tem conseguido concretizar os objetivos e dá o exemplo dos filhos. Conta que o mais velho tem sido bem-sucedido na aprendizagem das três línguas e elogia o mandarim do mais novo. “O sotaque dele é melhor que o meu”, diz a mãe, ressalvando que ainda é cedo para avaliar os níveis de português e inglês do mais jovem. 

A encarregada de educação também se mostra satisfeita porque os filhos estão expostos a diferentes culturas. “Além dos chineses, têm colegas de outros países como Portugal, França e Filipinas.”

Melhorias

Apesar de contente, a presidente da associação de pais encontra falhas. “Devia haver mais aulas de português, e a escola devia ser mais dinâmica e encorajar os alunos a praticar a língua fora das aulas”, sugere.

Elfrida Faria concorda que há espaço para melhorar, por exemplo, na qualidade dos professores, dos materiais escolares, ambiente e a comunicação com os encarregados de educação. Elogia, no entanto, ser uma oportunidade efetiva dos alunos crescerem num ambiente cultural diverso, multilingue e que respeita outras culturas.

João Palla defende que tem de haver mais portugueses a acreditar no projeto para que a meta do multiculturalismo se cumpra. “Está preparada para receber os seus filhos. Tem para os alunos portugueses a disciplina de português dada por professores portugueses, o que faz toda a diferença”, exemplifica.

Já Diana Massada insiste que para ser realmente multicultural devia ter entre 20 a 30 por cento de estudantes de outras nacionalidades além da chinesa – “que será sempre a maioria pelo sítio onde estamos”. 

Para a encarregada de educação, o rumo que tem seguido nos últimos anos põe em causa as metas que definiu. “Se os alunos chineses não têm colegas de outras nacionalidades, dificilmente terão oportunidade de praticar o português. Um bilingue não é só a literacia de saber traduzir a palavra. É todo o enquadramento cultural e a capacidade de entendimento da língua. A política que a escola está a seguir compromete o projeto multicultural e de formação de bilingues”, lamenta.

A mãe do Diego percebe que a multiculturalidade e o trilinguismo são trabalhosos, mas afirma: “Ou se assume que não é esse projeto e é legítimo não se fazer nada. Ou se quer ser, tem de se fazer alguma coisa que demonstre que está a trabalhar neste sentido. É esta dicotomia que acho que a escola ainda não conseguiu ajustar ou então não está a conseguir transmitir a estratégia que tem.” 

C.B.S.  01.06.2018

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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