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Vista de dentro

São professores na Zheng Guanying e dizem que é um desafio diário. Assumem que há dificuldades mas têm uma certeza: o projeto está a funcionar.

O edifício grande e moderno de fachada colorida aparece no meio dos prédios altos e esguios que enchem a zona do Canal das Hortas. O contraste dá outra cor à Areia Preta. A Escola Oficial Trilingue Zheng Guanying foi inaugurada em 2011 – um ano depois do primeiro-ministro chinês da altura, Wen Jiabao, ter vindo a Macau e anunciar o Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento entre a China e os Países de Língua Portuguesa, e ter destacado o papel da RAEM como plataforma para a lusofonia. Sete anos passaram desde a abertura da escola. E muito mudou. 

O diretor e subdiretora da altura – Hon Iok e Ana Cigarro, respetivamente – saíram. E hoje é Wu Kit quem lidera a escola que fez questão de mostrar. A primeira paragem foi no pátio amplo e cheio de cor onde os alunos do secundário estavam a ter Educação Física. É uma das disciplinas lecionada em português – língua que só entrou no momento em que também o professor entrou em campo. Antes e enquanto trocavam bolas por cima da rede de volleyball, os alunos falavam em mandarim, incluindo os dois ou três estrangeiros que estavam entre os 16 estudantes. 

“Os portugueses e estrangeiros falam em inglês entre eles, mas se alguém chinês está no grupo, falam em mandarim”, explicava mais tarde a professora Carla Sá.

Ao lado, na biblioteca, estavam os mais novos do 2º ano da primária a ouvir uma história em português. Sentados, atentos, entre risos, iam repetindo o que a professora dizia na língua de Camões. “O Sapo Apaixonado”, de Max Velthuijs, era o livro da semana. Mas há mais iniciativas que visam criar o gosto pela leitura e ajudar na aprendizagem do português, como a atividade “os pais também sabem contar histórias” em que os encarregados são convidados a participar.

Uma das turmas do ano acima – 3º da primária – dava ao dedo em lugar de dar à língua na aula de Artes Visuais. Ao longo do corredor que leva à sala no primeiro andar, veem-se as paredes decoradas com trabalhos em português, inglês e chinês. As portas das aulas estão fechadas, mas por serem envidraçadas deixam ver o que se passa. “Optou-se por este design que tem como conceito a ideia de transparência”, contextualiza a diretora. 

Métodos

Rapidamente se confirma que se trata de uma escola onde se misturam idiomas. Do fundo de outro corredor, no piso de baixo, chega-nos uma voz sonante num português perfeito: “Fila. 1, 2, 3. Não se esqueçam de estudar”. E lá aparece mais um grupo de alunos, em fila como foi ordenado, maioritariamente de origem chinesa. 

Não é fácil ajustar o ensino quando aos objetivos normais da educação, se acrescentam as metas de formar alunos trilingues e de juntar estudantes de diferentes nacionalidades. “É um projeto pioneiro”, recorda Carla Sá, representante de grupo das atividades educativas da disciplina de língua portuguesa do ensino infantil.

O método, diz a professora, tem-se baseado muito na tentativa e erro. “Estamos todos em fase de experimentação. Se aplicarmos uma coisa e der resultado, continuamos. Se não, procuramos outros meios. Agora, estamos a tentar fazer os nossos próprios manuais porque os de Portugal não se adaptam a este  contexto”, explica.

A docente realça que não servem nem aos alunos nativos nem aos restantes já que ninguém está imerso num ambiente de contacto constante com a língua. 

Leila Silva complementa, referindo-se aos estudantes que aprendem português como língua estrangeira. “Só têm contacto quando estão connosco. Por isso, fazemos muita pesquisa e somos capazes de usar dois e três manuais para ter os recursos necessários e conseguirmos ensinar a língua”, afirma a professora de português do ensino primário.

Já a professora de mandarim, Chong Sam Fong, diz que não se notam “muitas discrepâncias” entre os alunos uma vez que o ensino primário tem como finalidades ensinar a ler e escrever. “Fazemos atividades como conversar três minutos antes de a aula começar; contar histórias em que cada aluno tem de preparar uma que depois vai partilhar com os colegas e receber a opinião do professor. E isso ajuda”, exemplifica a docente do 1º ano do ensino primário.

Lou Kuok Iong, professor de inglês também do ensino primário, reitera que o truque nestas idades é apostar na oralidade. “Quero que falem a maior parte do tempo para lhes criar o interesse e motivação para aprenderem a língua.” Jogos de mímica e adivinhação são alguns dos meios a que recorre para fazer com que os alunos apliquem o vocabulário que aprenderam.

Dificuldades

Carla Sá realça que é complicado ensinar línguas numa escola que junta alunos com diferentes níveis e dá o exemplo das aulas de português, onde também há nativos. “Tentamos dar-lhes um apoio maior. Há uma turma, por exemplo, que tem três alunos nativos. Estão num grupo à parte com uma professora que lhes dá português como língua materna”, realça.

Quando só há um aluno, acrescenta, procura-se que haja um professor que dê apoio uma ou duas vezes por semana. “Para ir acompanhando e explicar alguma coisa, já que a professora está com a maioria chinesa.”

A docente ressalva que o desafio não é só para os de língua materna portuguesa, já que grande parte tem o cantonês como língua-mãe. “É preciso lembrar que os alunos que aqui estão também não são falantes de mandarim. É uma língua nova para a maioria.”  

De pequenino…

É unânime a opinião de que faz diferença entrar no ensino infantil. “É onde tudo começa”, sublinha Carina Rodrigues. “E agora já têm português aos três anos. Foi uma alteração bastante importante. Estamos a ter muito sucesso. Têm um contacto muito suave com a língua e depois, com quatro anos, já está muito mais coesa. Crianças que estão no inicio, com três, quatro ou cinco anos, motivam-se muito mais facilmente”, diz a professora de língua portuguesa do ensino infantil.

A educadora garante que os nativos não saem prejudicados. “Acabam por ser meninos que ajudam muito. Sentem-se incentivados porque têm ali o momento deles de ensinar aos amigos. Ainda só há oralidade, não há escrita, e por isso só têm a ganhar”, defende.

Wu Sok Chong, representante do Conselho do Ensino Infantil, reforça os resultados quando a aprendizagem das línguas começa cedo. “No segundo semestre, já conseguem falar mandarim”, garante.

Geração trilingue

Não foi ao acaso que a escola foi criada. Daqui pretende-se que saia um perfil de aluno distinto em Macau, idealmente “fluente nas três línguas que caracterizam a escola”, refere Lou Kuok Iong.

Carla Sá é mais modesta: “Têm de, pelo menos, ser bilingues. O ideal é serem trilingues. Esse é o nosso sonho. O que esperamos é que, por serem miúdos expostos a diferentes culturas, sejam pessoas diferentes”, acrescenta  a professora, que sublinha de seguida: “Vai com certeza sair daqui uma geração especial”.

É um dos professores que melhor pode avaliar. Entrou quando a escola abriu portas. Assume que projetos educativos com a ambição do plurilinguismo têm os seus perigos – como a mistura dos idiomas -, mas os anos que já leva na Zheng Guanying mostram-lhe que o trilinguismo deixou de ser só uma meta. “Já se notam reflexos. Do mandarim não tenho dúvidas. Do inglês também já lhes vejo algumas diferenças e no português também”, assegura, tendo por base os alunos que têm feito o percurso na escola.

Leila Silva reforça: “Vê-se que há interesse dos próprios alunos [no português]. Não é uma disciplina imposta. E a prova é que no próximo ano vai haver mais turmas bilingues.”

Uma visão de fora

Ana Paula Paiva Dias, com uma tese de doutoramento sobre a Zheng Guanying, sente que a escola “ganharia muito” com uma maior percentagem de alunos de outras nacionalidades. “Ajudaria a consolidar os objetivos relacionados com a aprendizagem de línguas e com a formação de indivíduos interculturais”, explica a investigadora do Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais da Universidade Aberta de Lisboa.

A formação/qualificação dos recursos humanos, tendo em atenção a fisionomia do projeto assim como a estabilidade do corpo docente, são outros fatores que a investigadora considera que podem ser aperfeiçoados. “De qualquer forma, este modelo de escola representa, indubitavelmente uma mais-valia no contexto de Macau e uma oportunidade para elevar a proficiência linguística dos alunos”, defende Ana Dias, cujo trabalho se centrou no modelo da escola e nos professores.

Os três anos que acompanhou o projeto permitiram concluir que o modelo de ensino tem “um grande potencial” para a formação de alunos plurilingues, tendo em conta que o mandarim é a língua veicular desde o infantil, a par do português, e do inglês, introduzido mais tarde no ensino primário. 

Apesar da investigação não se ter centrado nos estudantes, a investigadora diz que no caso dos portugueses e de alunos cuja língua materna não é o chinês foi possível confirmar que se tornam totalmente proficientes em mandarim e capazes de acompanhar o ensino em chinês. “Quanto à proficiência dos alunos chineses em português e inglês não tenho dados, mas dada a maior carga horária que esta escola dedica ao ensino de línguas é possível prever que a sua proficiência seja superior ao que é habitual em escolas cuja carga letiva é inferior. Note-se que esta é a única escola em Macau que apresenta esta orientação para o ensino trilingue, refletida no seu currículo e projeto pedagógico.”

Ana Dias aponta o esforço da escola em providenciar o reforço do ensino do português como língua materna aos alunos de nacionalidade portuguesa assim como de chinês, apesar de os alunos não chineses serem a minoria, além do apoio de português para alunos chineses.

As atividades de animação da leitura em português na biblioteca e atividade “os pais também sabem contar histórias” são outras iniciativas que elogia por permitirem que a língua seja aprendida e vivida em contexto. “Muito diferente do método tradicional baseado apenas na memorização e repetição de vocabulário ou frases, mais usual em Macau.”

A investigadora lembra que a Zheng Guanying é de Macau, para os alunos de Macau e dirigida à maioria chinesa e não uma escola “feita à medida para as necessidades dos alunos portugueses ou estrangeiros”. Por isso, ressalva: “Quando os pais optam por colocar os filhos num sistema de ensino em que a língua veicular de ensino não é a língua materna dos alunos, há obviamente dificuldades acrescidas.”

A imersão num meio linguístico e socioculturalmente diverso do contexto de origem (no caso dos portugueses) e o contacto com diferentes mundividências e formas de atuação (no caso dos chineses), continua, nem sempre são isentos de conflito. “Mas isso é positivo porque leva as pessoas a discutir ideias”, realça. 

Catarina Brites Soares  01.06.2018

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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