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Ir antes que feche

Palawan, nas Filipinas, é considerada uma das ilhas mais bonitas do mundo. O turismo massificado é uma ameaça ao paraíso que parece ter os dias contados. É mais um.

O arquipélago de Palawan, nas Filipinas, já foi considerado a melhor ilha do mundo por três vezes. Os prémios da reputada revista norte-americana Travel & Leisure voltaram a colocar a ilha – e as cerca de 1800 ilhotas que a rodeiam – no topo da lista em 2017 e à frente de destinos como Santorini, na Grécia; Hawaii, nos Estados Unidos; Bali, na Indonésia; ou, os Galápagos, no Equador.

Hoje é difícil partir sem imagens. A internet não deixa. Mas qualquer foto que se veja antes é facilmente comprovada (e superada) pelas paisagens de Palawan. A beleza da natureza acaba, no entanto, por se esbater face à enchente de gente e condições insalubres.

Não é uma viagem curta nem barata, comparativamente com outros destinos no Sudeste Asiático. E também não é uma viagem fácil, a não ser que se opte por um resort com praia privada longe da cidade e do dia-a-dia dos locais. Aí a história será certamente outra.

O destino foi Coron. Uma alternativa a El Nido dada a possibilidade de evitar mais uma viagem por terra de quatro a seis horas desde Puerto Princesa, onde fica o aeroporto internacional de Palawan, e pela semelhança paisagística.

O voo de Macau sai por volta das dez da noite e cerca de duas horas depois aterra na capital Manila. O avião para Coron parte na manhã seguinte, por volta das sete, e demora cerca de uma hora.

No aeroporto são muitos os motoristas que por 150 pesos (cerca de 20 patacas) fazem o transporte até à cidade, com o mesmo nome do município.

Além das carrinhas, há os tuk-tuk que, pelo desconforto e preço mais caro (cerca de 700 pesos por pessoa), acabam por não ser uma alternativa. Alguns empreendimentos asseguram a viagem até à cidade sem custos adicionais.

O trajeto é curto, grande parte em caminho batido, por uma paisagem que varia entre o verde e o árido. Muito campo, pouca produção. Alguns restaurantes, casas, barracas, resorts vão aparecendo pelo percurso até que se chega ao centro. Confuso.

É aqui que se fixa a maioria dos turistas e locais. Há opções mais afastadas e isoladas (e, seguramente, mais tranquilas) mas a proximidade do porto de onde partem os barcos que fazem as travessias para os locais a conhecer acaba por ser um argumento de peso para se ficar na confusão.

O sol manda

Coron acorda e deita-se cedo. Às seis nasce o sol e meia hora depois já a terra mexe. Os barcos dos tours partem entre as 8 e as 8:30. Por norma, voltam entre as 4 e as 6, quando o sol se começa a pôr. Às dez da noite, a cidade acalma. A maioria dos restaurantes fecha por essa hora e à meia-noite já não há movimento.

Há duas opções para conhecer as redondezas: tours coletivos ou privados. Depende da viagem que se quer fazer. O tour em grupo sai a 1500 pesos por pessoa (perto de 200 patacas). Inclui as taxas de entrada nos locais que se visita, o almoço e as viagens de barco. Está tudo definido e o tempo contado.

O tour privado sai mais caro – cerca de 2700 pesos por dia para os destinos mais próximos de Coron –, fora as taxas e o almoço. Mas o tempo é nosso.

Tal como nos tours coletivos, viajam sempre um guia e um motorista, no mínimo, que cozinham o almoço nos fogareiros do barco com os produtos que antes se compram no mercado.

O tour em grupo valerá a pena, e acaba por compensar, nos casos em que se quer conhecer vários locais no mesmo dia e mais afastados. O privado quando se opta por ficar numa das muitas praias paradisíacas, como a Banol ou a Atuayan a vinte minutos da cidade. O peso na consciência por perder outros locais depressa se afoga na água quente e deserta. As praias são geralmente solitárias, com exceção da hora de almoço quando dezenas de barcos atracam e as enchem de turistas.

Entre lagoas, lagos, praias, cascatas…há muito para ver. Coron está cheia de paragens obrigatórias. Kayangan – considerado o lago mais limpo do país e rodeado de rochedos gigantes; as Twin Lagoons – ligadas por um túnel e cercadas por montanhas de rochas; a zona de Siete Pecados – recheado de corais e peixes raros, são lugares imperdíveis.

É difícil excluir. Os indecisos podem confortar-se na certeza de que, seja qual for a opção, não ficarão a perder. Tudo parece um postal e merece uma foto. E este é um dos principais problemas. Mas já lá vamos. Para os amantes de snorkeling, Palawan é perfeito. Uma fauna e flora marítimas diversas numa água que quase dispensa óculos.

Paga-se entrada – entre 150 e 250 pesos (20 a 30 patacas) – em todos os locais, incluindo as praias. Fica por esclarecer para onde vai o dinheiro. As explicações parcas dão-lhe dois destinos: o governo local, que depois distribuirá pelas tribos; ou as tribos, diretamente que vivem nos destinos turísticos e, supostamente, se ocupam da limpeza do espaço.

No caso dos tours privados foi possível comprovar que eram as tribos quem recebia o dinheiro já que, antes de partir, o guia que nos acompanha o entregava ao grupo. Já nos de grupo, organizadas pelas agências e cujo preço incluí tudo, é difícil perceber como é feita a gestão. Os guias garantem, no entanto, que as taxas vão para o governo que depois as redistribui.

E assim, pululando por diferentes destinos ou sossegado num deles, se passa o tempo. Não fossem as viagens – de ida e retorno à cidade –, os dias são uma terapia avessa a stress. O vento que se levanta ao fim da tarde, o embalo do passeio de barco a juntar a toda a panóplia de cores que se espalham pelo céu, montanha e mar compõem um cenário idílico que faz lembrar que passamos demasiadas horas encerrados entre paredes. Mas nem tudo é perfeito.

O outro lado

E basta olhar para o lado. A quantidade de barcos que enchem o mar já é um medidor de como Coron está carregada. Em 2016, recebeu cerca de 178 mil turistas. O aumento dos visitantes a cada ano contribuiu para a proliferação de novos negócios, que descarregam as águas residuais sem tratamento, diretamente na Baía de Coron e agravam o problema da poluição das águas que afeta a cidade, sem uma infraestrutura de tratamento de águas centralizado. O Departamento de Recursos Naturais e Ambiente publicou um aviso em março que dava conta de que já não seria aconselhável nadar na Baía de Coron contaminada pelas bactérias de dejetos humanos.

É difícil abstrair-nos sobretudo quando a quantidade – ou o excesso – de gente briga com a paz que transmite cada um dos espaços que se visita. Piora quando a maioria anda de stick e telemóvel – chega a ver-se ipads – dentro de água para eternizar o momento. As enchentes acabam por estragar situações que pedem contemplação e silêncio.

A vida na cidade é mais uma prova de que algo tem de mudar para sobreviver ao monstro do turismo massificado. Os empreendimentos já são muitos – e a construção continua -, não há planeamento ou preocupação com a arquitetura dos espaços, abundam os cheiros nauseabundos, o trânsito e, consequentemente, a poluição ambiental e sonora.

Coron é dura. A pobreza está à vista e convive com o turismo que já devia ter trazido melhores condições. Não é limpa, não é bonita, não é agradável.

Pelo centro espalham-se lojas de conveniência, restaurantes, dois ou três bares, guesthouses, hostels e alguns hotéis. Casas há poucas. Baratas há muitas.

Há um mercado, a cerca de 15 minutos a pé do centro, que deixa saudades dos mercados cheios de cores e cheiros que se associam à Ásia. É difícil escolher mas, neste caso, pelos piores motivos.

O povo é peculiar. Oscila entre um servilismo exagerado que se reflete num incómodo “maam” ou “sir” constante e dispensável, e um certo tédio em responder, explicar ou ajudar. As jornadas diárias de trabalho de 12 horas a que muitos estão sujeitos, os ordenados magros e a vida precária contribuirão para alguma má vontade que às vezes deixam escapar. A comunicação é facilitada pelo inglês fluente – idioma oficial a par do tagalo.

Ao mesmo tempo que é um destino com muito turismo ocidental, nota-se que também é uma preferência do asiático, sobretudo coreano e chinês. São vários os resorts, hotéis e restaurantes com serviços nas respetivas línguas e gastronomias dos países.

Dúvidas

Ficam muitas. Como é que numa cidade pobre onde se contam pelos dedos das mãos a habitação com condições básicas abundam os jipes com vidros fumados? Como é que numa cidade onde as águas das fossas andam pelas estradas, há uma obsessão com a limpeza desses mesmos jipes? Como é que o próprio povo justifica e aceita que muitos habitantes da terra continuem a viver em palafitas numa zona do porto com água suja onde boia demasiado lixo?

Em diálogo com locais, trocava impressões. A conversa foi com pezinhos de lã, evitando que pensassem que a arrogância ocidental impedia de perceber que o deles é um mundo diferente. Diziam que seria uma revolução se o governo tirasse as pessoas das palafitas para limpar a zona da baía. “É assim que as pessoas estão habituadas a viver”, respondiam conformados.

No meio de tantas dúvidas, ficou uma certeza: Palawan terá o mesmo desfecho de Boracay se nada mudar. É fácil antecipar que em poucos anos, sendo otimista, será encerrada para limpeza como aconteceu com Boracay sob pena de deixar de ser uma das ilhas mais bonitas do mundo.

É um alívio saber que El Nido e Coron, entre outras ilhas filipinas, também vão ser alvo de inspeções pelo governo. No início de abril, o secretário do Turismo do país, Frederick Alegre, referia em conferência de imprensa que Boracay era apenas o início. “O presidente já deu ordens para avaliarmos porque não queremos que as Filipinas sejam apenas um local de diversão,mas também um local ambiental.” Bom saber que já está debaixo de olho.

Acacia Garden Inn

Sítios para ficar

Há muitas hipóteses e dependerá das prioridades. O Acacia Garden Inn é uma boa opção. Boa relação qualidade/preço, a 20 minutos a pé do centro, mas suficientemente isolado e distante para se ouvir o silêncio. O restaurante oferece opções locais e internacionais a bom preço. O tuk-tuk faz a viagem até ao centro por 10 pesos (cerca de 1 pataca). O resort butique The Funny Lion é outra boa alternativa.

la-sirenetta-restaurant

Sítios para comer

La Sirenetta

Uma refeição para duas pessoas ronda os 2000 pesos (cerca de 300 mop). Boa comida local e marisco. Vale a pena provar o Kinilaw – prato típico da zona semelhante ao ceviche – e os camarões com alho. A meia-luz, a localização na zona do porto e a distância do centro dão ao sítio um ambiente intimista e tranquilo.

Churrascaria Carl’s

A carta não é vasta mas há opções de carne, peixe, marisco, vegetais e pratos locais. As lulas recheadas grelhadas, o sizzling de gambas e a lumpia são uma delícia;

No Epic Cafe

Tudo é biológico. Tem opções rápidas, como paninis, entre outras. Para os viciados em café e chocolate é obrigatório. O bolo e o brownie de chocolate belga são divinais. Ao lado há o Poco Deli, do mesmo grupo, com massas, pizzas, saladas, alguns pratos locais e tapas, como tábuas de queijos e enchidos. A comida não merece elogios, mas é dos poucos locais onde se pode beber um bom vinho numa esplanada em madeira e longe do caos da cidade;

Great Real Cafe

Ao lado do Epic, serve comida internacional e local. Doses generosas, bem confecionada e a excelente preço. O destaque vai para as massas;

Pedro’s Gelato

Tem poucos sabores, mas os gelados são caseiros;

Os sumos de frutas, também típicos nas Filipinas, são uma excelente companhia. A manga, o coco e a banana são os protagonistas em Coron.

Catarina Brites Soares  04.05.2018

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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