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Crise venezuelana “invade” o país

Milhares de venezuelanos preferem fugir para um dos estados brasileiros mais pobres do que permanecer no meio da crise. São centenas de grávidas que preferem ter os filhos no Brasil, são muitos os que precisam de cuidados de saúde que lotam os hospitais fronteiriços. E nas ruas de algumas cidades, o espanhol é tão frequente como o português. 

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima (UFR) Carlos Jarochinski, o impacto deste fluxo migratório, evidente em Boa Vista, capital estadual de Roraima, mostra que o Brasil precisa de repensar políticas públicas na fronteira com a Venezuela. 

“A imigração dos venezuelanos trouxe como primeiro impacto a necessidade de repensar as fronteiras”, disse. Nesta área, o “Brasil dialoga, usando um discurso muito negativo, relacionando as fronteiras com problemas sociais como o tráfico de drogas e de armas. Muitas vezes o país não percebe que há pessoas circulando nestas áreas”, acrescentou.

Roraima e a capital Boa Vista, localizadas na região amazónica, tornaram-se na morada de uma população estimada entre 30 mil e 60 mil imigrantes que procuram alternativas para escapar da fome e de uma grave crise social e económica na Venezuela. A vinda em massa chamou a atenção das organizações internacionais no final de 2017, quando as autoridades locais declararam o estado de emergência em diversas áreas da cidade, como a praça Simón Bolívar, que se tornaram campos onde vivem centenas de venezuelanos com status provisório de refugiados sem água, comida e poucos pertences.

A dinâmica da fronteira do Brasil com a Venezuela alterou-se gradualmente nos últimos anos, segundo Jarochinski. “Três movimentos caraterizaram a chegada dos venezuelanos no Brasil: o primeiro foi pendular, ou seja, eles vinham para o Brasil trabalhar ou obter produtos e depois voltavam à Venezuela. Depois teve uma fixação nesta região e fronteira por volta de 2016 e, agora, vemos aquilo que chamamos de trânsito, ou seja, pessoas entrando por Boa Vista para se dirigir a outros partes do Brasil e da América Latina”, explicou.

Segundo o investigador, apesar do registo diário da entrada de centenas de venezuelanos nesta região do Brasil, não há razão para pensar que existe uma crise migratória. “Quando se compara o Brasil, um país de 280 milhões de habitantes, com os 60 mil venezuelanos que, possivelmente, estão em Roraima nota-se que este número de imigrantes é ínfimo”, afirmou.

Refugiados sem ajuda 

Cerca de 700 venezuelanos que moram numa praça em Boa Vista, capital do estado brasileiro de Roraima, dizem-se dececionados com a ajuda humanitária prometida pelo Governo do Brasil. Morando em barracas improvisadas na Praça Simón Bolívar, homens, mulheres e crianças vivem numa situação precária, sem comida, equipamentos de higiene ou água corrente, apesar do calor que se faz sentir. 

“O Governo do Brasil, o Presidente e os ministros vem aqui falar, mas nunca fazem nada para os venezuelanos que estão vivendo numa situação de sem-abrigo”, afirmou Javier Elias Leon, um guia turístico de 47 anos que vive no Brasil há mais de dois anos. “Já vi ministros virem aqui falar, mas nunca ninguém faz nada pelos venezuelanos. Eles dizem que te dão refúgio, mas isto não é um refúgio. Eles tiram alguns daqui para os colocar ali”, criticou.

Michel Temer prometeu em janeiro ajuda humanitária aos venezuelanos a quem for atribuído estatuto de refugiado, mas, até agora, esse compromisso não foi cumprido. E sem o apoio de organizações não-governamentais, a situação humanitária seria ainda pior. 

Angel José Sandoval, militar reformado de 47 anos, é um dos líderes que ajuda na auto-organização da praça, com uma lista com os nomes e dados de todos os venezuelanos que dormem no local. 

“Estamos frustrados, dececionados porque vimos que o Governo nos ofereceu uma ajuda, mas tudo acabou por ser só uma promessa”, afirmou Sandoval, que critica a falta de pressão internacional sobre o governo brasileiro. 

“Sabemos e entendemos que não somos brasileiros e não podemos exigir nada aqui, mas as leis internacionais nos amparam e creio que deveríamos receber esta ajuda que estamos a espera”, afirmou. 

Já Cristian Rodrigues, engenheiro civil de 40 anos, chegou ao Brasil há pouco mais de uma semana e disse estar mais desesperado do que frustrado, pelo que a prioridade é conseguir um emprego. “Estamos desesperados para solucionar o nosso problema, mas não é fácil porque estamos a entrar num país com leis muito distintas das nossas”, disse. 

“Sei que temos de ter um pouco de paciência com o protocolo e com a documentação, mas queremos a mesma liberdade que têm os brasileiros para conseguir um trabalho sem sermos renegados”, reconheceu. 

Em fevereiro, o Presidente do Brasil, Michel Temer, visitou Boa Vista e anunciou a criação de um comité para ajudar os imigrantes venezuelanos. Na ocasião, prometeu que “não faltarão recursos para solucionar a questão” humanitária. “Não descansarei enquanto não resolver os problemas de Roraima”, declarou, então, o Presidente brasileiro. 

No entanto, a ajuda tarda em chegar e nem as doações de alimentos são distribuídas com regularidade na praça Simón Bolívar. Por outro lado, os problemas sociais estão a agudizar-se e são frequentes os confrontos entre brasileiros e venezuelanos. Uma situação que é agravada pela diversidade das origens dos refugiados. “Existe um grupo de desordenados, desadaptados e de pilantras na Praça Bolívar, mas temos um grupo maioritário de gente honesta e trabalhadora aqui”, assegurou. 

Carolina de Ré-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau  23.03.2018      

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