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Eletricidade, um bem de luxo

Num momento em que as autoridades guineenses apostam no desenvolvimento de setores como o turismo e a agricultura para fomentar o crescimento económico do país, a Guiné-Bissau não pode, nem deve descurar a eletrificação do seu território, que ainda é incipiente.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), disponibilizados no último relatório da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, na Guiné-Bissau menos de 20 por cento da população tem acesso a eletricidade. Depois de anos consecutivos de instabilidade política, ter acesso a eletricidade ainda é um luxo, caro, e que não está acessível a todos.

Se em Bissau a Eletricidade e Águas da Guiné-Bissau, empresa responsável pelo fornecimento na capital, não tem capacidade de produzir o que se consome, referindo apenas consumos domésticos, fora da capital ter eletricidade ou água canalizada é quase impossível.

A falta de luz impede o desenvolvimento industrial, principalmente do setor agroindustrial, que as organizações financeiras têm defendido como sendo o grande motor para o crescimento e desenvolvimento económico do país. No setor do turismo, mais do mesmo, a dificuldade não é construir um hotel no arquipélago dos Bijagós. É tê-lo em funcionamento com um preço acessível. É que a falta de luz e a dependência dos geradores fere diretamente a rentabilidade das empresas. 

Mudança na produção, transmissão e distribuição de energia

Cerca de 83 por cento dos guineenses não têm acesso a energia, afirmou a representante do Banco Mundial no país, Kristina Svenson. A Guiné-Bissau é um dos países da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP) com o mais baixo nível de acesso à eletricidade.

Para ajudar as autoridades guineenses, o “Banco Mundial adotou uma abordagem integrada ao longo da cadeia de valor”, disse a representante daquela instituição financeira. Ou seja, o Banco Mundial está a apoiar o Governo na produção de eletricidade, na sua transmissão e distribuição.

“A Guiné-Bissau tem apenas 15 Megawatts de capacidade alugada de um operador privado, o que é insuficiente para atender aos pedidos de eletricidade de 40 Megawattss em Bissau”, sublinhou Kristina Svenson.

Até 2030, salientou, a produção tem de aumentar para 352 Megawatts. O que se produz atualmente é caro e não é de confiança, nem para os consumidores, nem para o Estado.

“A situação leva a apagões com cortes médios de energia cinco horas por dia”, disse. A ideia é construir uma central fotovoltaica e importar energia de baixo custo dos países vizinhos.

Já na transmissão, o Banco Mundial pretende apoiar a Guiné-Bissau com a construção de uma linha de alta tensão, ligada ao Senegal, à Guiné-Conacri e Gâmbia, e quatro subestações de alta voltagem localizadas em Bambadinca, Bissau, Mansoa e Saltinho. 

Em relação à distribuição, o Banco Mundial está a apoiar a reestruturação da empresa nacional de águas e eletricidade.

Presidente quer luz para toda a população, incluindo para quem vive nas ilhas

“É inaceitável, nos dias de hoje, continuarmos a viver às escuras, sem luz elétrica permanente nas nossas casas. Queremos luz para todos e a preço acessível para todos os guineenses”, afirmou o presidente guineense, José Mário Vaz.

José Mário Vaz falava em novembro no lançamento da primeira pedra para a construção da central termoelétrica de Bor, com capacidade para fornecer 15 megawatts. O investimento vai custar cerca de 33 milhões de euros e é apoiado pelo Banco Oeste Africano para o Desenvolvimento (BOAD) e pela União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA).

É preciso um “esforço de fornecimento de energia” e que seja “extensível a nível nacional, ou seja, que a luz da rede pública chegue a toda a população, tanto na cidade, como no interior e nas ilhas”, insistiu o presidente. O Governo também tem dado garantias e, segundo o ministro da Energia guineense, Florentino Gomes, o Estado tem estado a trabalhar para reforçar o setor da produção, distribuição e comercialização de energia.

Para apoiar a desenvolver o setor foi apresentado, no início de dezembro em Bissau, o Projeto Regional de Eletrificação Fora da Rede (ROGEP).

Financiado com 200 milhões de dólares (cerca de 169 milhões de euros) pelo Banco Mundial e implementado pela CEDEAO, a ideia é acabar com as barreiras que impedem a participação do setor privado na eletrificação fora da rede. O objetivo é apoiar o investimento de privados em sistemas solares independentes e fornecer eletricidade, principalmente nos meios rurais, e aumentar a eletrificação de casas, empresas e instalações públicas.

Na Guiné-Bissau, apenas dois por cento da população dos meios rurais tem acesso a eletricidade. “Apesar dos esforços significativos para conectar a maior parte da população do país à rede, a exploração de soluções solares fora da rede poderá ser uma estratégia para aumentar o acesso elétrico às famílias e comunidades”, incluindo no arquipélago dos Bijagós, disse a representante do Banco Mundial.

Para o diretor de Energias Renováveis, Energias Domésticas e Eficiência Energética da Guiné-Bissau, António Júlio Raul, é também uma forma de o país iniciar a introdução de “energias renováveis”. O acesso à eletricidade é fundamental para que os países mais pobres do mundo possam registar crescimento económico, social e ambiental e a Guiné-Bissau não é exceção. 

Isabel Marisa Serafim-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

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