“Não considero recandidatar-me. É um adeus” - Plataforma Media

“Não considero recandidatar-me. É um adeus”

Melinda Chan não volta a candidatar-se depois de ter falhado a reeleição no passado dia 17. Rejeita ter sido penalizada pela ligação ao jogo, mas admite que haverá quem não tenha gostado que defendesse nomes portugueses para lugares de topo da vida pública.

Melinda Chan recebeu nas últimas eleições para a Assembleia Legislativa 8,186 votos, ficando a uma margem de cerca de 160 votos do último candidato eleito para a próxima legislatura. Ao fim de oito anos a exercer as funções de deputada, vê o fim da sua carreira política sem antecipar qualquer regresso. Para a ex-deputada, os resultados das eleições de sufrágio direto deste mês refletem sobretudo um voto de protesto contra o Governo – seja na abstenção, seja na eleição dos candidatos mais críticos. Mas Melinda Chan não vê neles um chumbo à sua atuação no hemiciclo. 

– Porque acha que perdeu as eleições? Acha que se deveu a uma má estratégia ou à separação de alguns grupos em várias listas?

Melinda Chan – Esse é certamente um dos motivos. Houve muitos candidatos. Houve grupos que se dividiram em diferentes listas e isso dispersou o eleitorado. Os resultados das eleições mostraram que a população de Macau está dividida em dois grandes grupos neste momento: os que votaram nos candidatos que se opõem ao Governo e o criticam de forma mais agressiva, e os eleitores das gerações mais velhas que têm outra visão. Situo a nossa candidatura no centro. Queremos que Macau se desenvolva, preocupamo-nos com o bem-estar da população, com o desenvolvimento das pequenas e médias empresas, entre outros temas. Não nos posicionamos em nenhum dos dois lados, estamos no meio, no centro. Na verdade, reunimos mais de oito mil votos o que significa que estas pessoas nos apoiam, mas não foi suficiente para ser eleita. Provavelmente, vai haver uma divisão cada vez maior na sociedade nos próximos anos.

– Mas acha que teve uma boa estratégia?

M.C. – Sim, continuo a acreditar que a estratégia foi boa. No futuro, nos próximos cinco a dez anos, vai ver-se que o que defendemos é benéfico para Macau e positivo para as próximas gerações. Nestas eleições, creio que os mais jovens não pensaram a longo prazo e apenas se preocuparam com o presente e curto prazo. Continuo a achar que fizemos tudo por Macau. Temos de olhar para o eleitorado e considerar vários factores. Segundo sei, muitos dos eleitores na faixa dos 40 decidiram não votar por estarem contra o Governo e este é outro aspecto que tem de ser tido em conta.

– O que faria de maneira diferente se a campanha começasse hoje?

M.C. – Não pensei nisso. Muita gente acha que tenho de fazer uma análise sobre o que correu mal e o que se pode melhorar. A nossa equipa não vai concorrer nas próximas eleições e por isso não vejo necessidade de avaliar o que correu mal. Foi uma decisão da população de Macau. Trabalhei verdadeiramente para a sociedade. Se os residentes não querem mais que trabalhe para eles, é sinal que que não precisam de mim. Posso achar que sou importante para a sociedade, mas se a população não concorda…

– Faria tudo da mesma maneira?

M.C. – Continuo a dizer que estamos corretos, mesmo tendo perdido.

– Consideram-na uma das grandes perdedoras destas eleições legislativas. Alguns analistas associam a sua derrota às ligações que tem com os setores do jogo e empresarial. Concorda?

M.C. – Se isso fosse verdade, não teria feito nada pela sociedade. É verdade que o meu marido é empresário e faz parte do setor do jogo. Não posso negar, nem ignorar esse facto. Mas nos últimos oito anos, não recebi nenhum benefício de casinos ou do setor e não fiz nada por eles. A única coisa que fiz foi trabalhar pelo bem-estar social. Nunca recebi nenhum benefício do Governo. Por isso, acho esse juízo injusto. Nunca recebi qualquer tipo de privilégio para benefício próprio. Nos últimos oito anos, dei o meu melhor todos os dias. Encaro as eleições como um exame e aceito a avaliação. Provavelmente, não fui suficientemente boa e é por isso que a sociedade entende que não precisa mais de mim. 

– Sempre disse que a população gostava do seu trabalho. Ainda acha o mesmo depois dos resultados eleitorais?

M.C. – Sim. Não tenho noção de quem me apoia. Não sei quem são estes cerca de oito mil eleitores que votaram em mim, mas recebo mensagens positivas de várias pessoas, mais velhos e mais novos. Apreciam a minha dedicação e o facto de ter ajudado tanta gente nestes últimos anos. Recebi várias mensagens a dizer que as gerações mais novas precisam de mim. Acho que as pessoas valorizam o facto de ser bastante justa e de não ter medo. Só respondo e me preocupo com o cumprimento da lei. Não quero saber do contexto de ninguém. Sou justa com a sociedade e não estou preocupada com ninguém em particular. Enquanto deputada, é assim que deve ser.

– Os resultados eleitorais foram encarados como um sinal claro de desilusão com o Governo e políticos. Concorda com a interpretação?

M.C. – As pessoas estão desiludidas com o Governo. Votar é uma forma de se manifestarem, mas abster-se é outra forma de mostrar que se está desiludido. Não acho que os residentes estejam desiludidos com os deputados, mas acho que estão dececionados com o Governo, especialmente depois do que se passou com o tufão Hato. Afetou bastante as eleições porque as pessoas aperceberam-se de muitas coisas. O Governo deu dinheiro mas isso é uma solução de curto prazo. O Governo tem de mudar, a mentalidade tem de mudar. Temos muitos problemas por resolver que se mantêm há demasiado tempo como as cheias, que se repetem há dez anos e não há uma solução, ou o trânsito que o Governo diz que vai resolver e nada acontece.

 – O que acha que o Governo devia mudar?

M.C. – Primeiro, tornar tudo mais célere. Não vale a pena apontar este ou aquele serviço. São todos assim. Há demasiados passos, demasiados processos. Deviam tornar tudo mais fácil, mais rápido. Há tantos países onde a Administração já tem tudo informatizado. Temos de trabalhar neste sentido e ligar o turbo. Também acho que os secretários estão sobrecarregados. Acho que o Governo devia ter mais recursos, pessoas que ajudassem os secretários, ou dar mais poderes aos diretores de serviços. Há demasiadas áreas sob a alçada de cada secretário. 

– Como avalia o trabalho do Governo nestes últimos anos?

M.C. – No que diz respeito ao bem-estar social, por exemplo ao nível da saúde, houve melhorias. Mas o que fizeram está muito longe das expectativas da população. As pessoas querem um bom sistema de saúde público, não querem esperar para ir ao médico e querem boas infraestruturas de saúde, bons hospitais e centros de saúde.  O tufão também mostrou que o Governo não tem um plano de emergência e deixou bem visível a incapacidade do Executivo. Têm de melhorar muito – mas muito. 

– O Governo disse que não podia ter feito mais tendo em conta a gravidade da tempestade. Acredita nisto?

M.C. – Antes de as coisas acontecerem, temos de ter um plano de prevenção. Nós não tínhamos esse plano. Acredito que os secretários e os diretores de serviços queriam fazer mais mas não podiam porque o espaço de manobra que tinham era muito reduzido. Acredito que os polícias e bombeiros, todos fizeram o máximo que podiam. Vi polícias a nadar para salvarem pessoas. Sem equipamentos e recursos era impossível terem feito mais. Foi uma sorte que a água tenha descido em tão pouco tempo. Se não fosse isso, teria sido muito mais grave e muito mais pessoas teriam morrido. Nem quero imaginar o que poderia ter acontecido.

– Voltando às eleições, há quem defenda que as pessoas também quiseram enviar uma mensagem a alguns deputados que acreditam estar no hemiciclo só para defenderem interesses próprios. Revê-se nesta imagem?

M.C. – Não creio que as pessoas me vejam dessa forma. Nem eu, nem o meu marido recebemos qualquer benefício por ser deputada. Tenho a certeza de que as pessoas quiseram apontar o dedo a alguém, mas não foi a mim de certeza. Isso de certeza.

– Acha que fez um bom trabalho enquanto deputada?

M.C. – Dei o meu melhor. Se foi suficiente ou não, compete às pessoas avaliar. Não é a mim que me compete dizer. Estou bem comigo e com o meu trabalho. 

– Há alguma coisa que faria de maneira diferente?

M.C. – Claro. Se olhar para trás, há muitas coisas que podia ter feito melhor. Se fosse deputada novamente, pensaria nisso. Tendo em conta que não vou estar na próxima Assembleia, não vou fazer balanços.

– Não considera mesmo recandidatar-se?

M.C. – Não. Não quero voltar a candidatar-me. Daqui a quatro anos, terei 56 anos. Estará na altura de me reformar e dar espaço aos mais novos. Sempre disse que quero que os jovens façam mais. Foi uma das tónicas do meu discurso: ter mais jovens a trabalhar pela sociedade. Defendo que o Governo devia procurar ter mais jovens e portugueses nas instituições e organizações públicas. Provavelmente, este foi outro aspeto que não jogou a meu favor. Algumas pessoas, e provavelmente as que ocupam estes lugares, não querem. Este é outro ponto que pode ter motivado a minha derrota. O que defendo tem impacto nos benefícios de algumas pessoas. Há muita gente que não gosta desta posição que defendo de se dar mais espaço e lugares aos jovens e portugueses. Além disso, também estamos contra o sistema vigente de nomeação ou escolha de alguns cargos. Queremos que todas as pessoas possam aceder a certos lugares da Administração através de um concurso público. Defendemos que não devem ser cargos escolhidos internamente. Há muitas pessoas que não gostam desta visão porque isso vai afetá-las. Não lhes interessa mudar o sistema. Seria uma grande mudança. Queremos que quem tem competência tenha oportunidade.

– Defende um sistema mais aberto e democrático?

M.C. – Concordo que os secretários e os diretores de serviços sejam nomeados. Mas os responsáveis que estão abaixo também são escolhidos e nós não queremos. Queremos que exista um concurso público, com as diferentes etapas e que todas as pessoas possam concorrer.

– Disse que não planeia recandidatar-se. A vida política acabou para si?

M.C. – Não considero recandidatar-me. É um adeus. 

– O que vai fazer agora?

M.C. – Nos últimos oito anos, dediquei-me à sociedade. Agora quero dedicar-me mais à minha empresa e à minha família, fazer outras coisas como viajar e estar mais tempo com a família e amigos. Quero visitar sítios a que nunca fui e gostava de conhecer. Os próximos anos vão ser assim.

– Em termos gerais, qual foi a grande mensagem que as pessoas quiseram transmitir nestas eleições?

M.C. – Querem que o Governo faça mais. As pessoas querem uma mudança, no Governo e no sistema. Mostraram claramente que não gostam da forma como o Governo tem atuado. 

– Como interpreta os resultados do grupo dos pró-democratas?

M.C. – Foram melhores que nas eleições de 2013. Nestas eleições houve cerca de 30 mil novos eleitores, que votaram pela primeira vez. Talvez tenha sido este grupo de pessoas que votou neles. Provavelmente esta nova geração, que terminou agora a universidade e que voltou ao território, quer mudar Macau. Quer uma transformação, mas rápida. Quer uma sociedade mais aberta, moderna. Isto é nitidamente uma voz que se fez ouvir. Quer uma mudança rápida e não pequenos passos. Macau já não quer uma mudança de passos, quer dar um salto. É esta a mensagem que as pessoas querem transmitir ao Governo. É assim que interpreto os resultados.

– Qual é a sua posição sobre a democratização do sistema?

M.C. – A minha posição mantém-se. Quero que a Assembleia tenha mais deputados eleitos de forma direta. Pelo menos, metade dos deputados devia ser eleita por sufrágio direto. Quanto ao Chefe do Executivo, também acho que é uma meta mas não para já. Acho que primeiro é importante educar a sociedade nesse sentido, prepará-la para pensar e decidir de forma autónoma. Só depois deste processo é possível dar esse passo. Há coisas que têm de ser feitas antes. A consciencialização e preparação das pessoas têm de ser feitas desde pequenas, logo nas escolas primárias. Primeiro, as pessoas têm de perceber a responsabilidade deste poder.

– Foi deputada durante oito anos. Como avalia o trabalho entre a Assembleia e o Governo?

M.C. – Neste momento há uma boa comunicação, mas há muitas coisas que podem ser melhoradas. E é um exercício que tem de ser feito agora que vai começar uma nova legislatura.

– Como acha que as mulheres estão representadas no novo hemiciclo?

M.C. – O número de deputadas manteve-se, praticamente, mas deviam ser mais. Ainda falta conhecer os deputados nomeados pelo Chefe do Executivo. Espero que nas próximas eleições haja mais mulheres na Assembleia.

– Angela Leong criticou a Comissão de Assuntos Eleitorais pelas regras que impôs à indústria do jogo. A deputada defende que as operadoras contribuem para a sociedade mas são obrigadas a manter uma postura neutra na campanha, o que considera injusto. Concorda com esta posição?

M.C. – O Governo foi bastante claro desta vez, e restrito no que diz respeito à campanha. Mas a verdade é que houve candidaturas que puderam fazer tudo e outras que não podiam fazer quase nada. 

– Acha que o período de duas semanas para a campanha política é curto?

M.C. – Quando a lei eleitoral esteve em discussão, defendi isso. Não é justo para os candidatos. Não temos tempo para fazer campanha e dar a conhecer os nossos programas e políticas. 

C.B.S.

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