Um dirigente angolano, bem colocado no regime, esclarece um jornalista português, influente em Lisboa, sobre o que está em causa nas presidenciais nas quais se gere a substituição de José Eduardo dos Santos: “Não há prioridades; o recurso ao plural é uma contradição em si mesma. Ou seja, havendo uma prioridade, clara e inequívoca, não pode haver outras… Só há uma de cada vez! Sendo ela resolvida, então a seguinte anunciará. O que isto quer dizer é que o MPLA, partido único no poder, desde a independência, está concentrado na sua única prioridade: sucessão presidencial sem tiros nem grandes revoluções, mantendo a harmonia que eterniza a elite governante.
É pouco para Angola e para o seu povo, pese embora João de Matos pareça caber bem no seu papel. Herói da guerra colonial, general discreto, foi um dia encostado quando, prematuramente, se assumiu como sucessor de José Eduardo dos Santos. Mas acabou recuperado, para que a transição se faça, ficando tudo na mesma. Pode até surpreender, trazendo consigo outras prioridades. Se não o fizer, não deixará marca na História, para além do marco de substituir um dos líderes mais ricos poderosos que os movimentos de libertação e independência africanos produziram.
Quase quatro décadas depois, Angola e os angolanos precisa de muito mais. E o mundo precisa que Luanda perceba isso. A dinâmica social, política e económica daquele país não pode arrastar-se ao ritmo das desculpas de quem vê no colonialismo e na guerra fratricida que se seguiu a justificação para todas as prioridades falhadas. A própria China, tão ciosa da não interferência, percebe hoje que o financiamento e as linhas de crédito não produzem os efeitos devidos, no plano de infraestruturas e no fomento do comércio. E as gentes de Angola precisam, merecem e podem muito viver bem melhor.
Não se trata sequer de por em causa o regime, muito menos de crítica partidária. Mas é preciso mudar radicalmente a cultura de exigência do povo angolano e dos seus políticos. É essa a verdadeira prioridade que urge cumprir.
Paulo Rego