Ainda que se possa apontar maior materialismo na comunidade jovem de Macau, sobretudo desde a liberalização do jogo, o analista Larry So diz que há hoje quem procure defender outros valores. E apercebe-se nestas eleições de uma mudança de tendência, com mais jovens a candidatarem-se e, especula, a votar. Ainda assim, as associações estão com dificuldade em encontrar e treinar sucessores, notando-se que os jovens a despontar para a política são menos fortes do que os seus mentores.
Sobre os fatores de tensão na sociedade e que podem gerar uma maior participação na política, Larry So fala em habitação. O especialista em serviço social diz ainda que questões como s desigualdade ou as condições dos trabalhadores migrantes estão longe de constar da lista de preocupações da sociedade. Até porque quem lidera — o Governo e as associações pró-sistema — não tem interesse em levantar estes assuntos, preferindo manter o ‘status quo’.
– Este ano temos o maior número de candidatos e listas em campanha. Porquê?
Larry So – Olhando para as listas do ano passado, os candidatos chegaram à conclusão de que se devia separar as equipas em duas listas, como aconteceu com [a plataforma eleitoral associada a] Chan Meng Kam. Aliás, ainda que Chan Meng Kam não esteja a candidatar-se, foi ele que defendeu a divisão em duas, ou até, três listas. Os Kaifong e a Associação Geral das Mulheres dividiram-se em duas listas. Depois, temos alguns elementos da geração mais jovem e podemos ver, por exemplo, que a Associação Novo Macau costumava ter uma lista e, agora, tem talvez três ou quatro listas. Foi por isso que os números aumentaram. Depois temos os novos candidatos, que não se reveem nos candidatos mais velhos e preferem tentar a sua sorte sem eles. E, neste segundo núcleo, temos a influência de diferentes grupos de interesse, que são as forças que dividem estas equipas em subunidades. Por exemplo, na campanha do ano passado, não tínhamos trabalhadores dos casinos, mas desta vez qualquer uma destas equipas tem um trabalhador dos casinos. É esta a razão também porque estes novos candidatos não se podem juntar às elites, como os Kaifong ou a Associação Geral das Mulheres, que não querem trabalhadores dos casinos.
– Em termos estratégicos, esta divisão das listas é uma boa opção?
L.S. – Parece que toda a gente está a adotar a mesma estratégia ao mesmo tempo. Olhando para os resultados das eleições passadas, se a equipa de Chan Meng Kam tivesse sido partida em duas, talvez tivessem conseguido quatro deputados, mas conseguiu três. Estão a adotar esta estratégia para tentar obter quatro assentos, dividindo a equipa. Além disso, cada lista tenta focar-se num grupo diferente de eleitores. Por exemplo, Song Pek Kei tenta atrair mais jovens entre o grupo de apoio de Fujian. Mas Si [Ka Lon] não está a tentar captar os votos da geração mais jovem, mas antes os votos das donas de casa e dos indivíduos de meia-idade de Fujian. É uma boa estratégia, mas se toda a gente adotar a mesma, temos mais equipas e estamos a olhar para o mesmo número de votos. Isso significa que a competição será muito grande. Uma das desvantagens é que acabam por lutar um contra o outro. Quando toda a gente tem a mesma estratégia, estamos a olhar para as diferentes equipas e o mesmo grupo de pessoas a lutar entre si. Song Pek Kei está a lutar contra Si Ka Lon, tendo Chan Meng Kam por coordenador. A situação deles pode ser melhor, se compararmos com os Kaifong e a Associação Geral das Mulheres, que têm ali um grande problema. Em termos formais, muitos votam na Associação Geral das Mulheres ou nos Kaifong, sem preferência. Mas agora dividiram-se em duas listas. A Associação Geral das Mulheres está só à procura dos votos das mulheres. E, se for esse o caso, os Kaifong centram-se apenas nos votos dos homens? Os Kaifong estão a fazer um grande trabalho junto dos idosos, mas muitos destes são mulheres.
– As duas associações deveriam juntar-se numa única lista?
L.S. – Nas eleições passadas, fizeram isso e por pouco não conseguiam dois deputados. Pensam que terão uma melhor hipótese dividindo-se. Se os jovens não tiverem mais votos… [Agnes] Lam Iok Fong é uma jovem profissional e está, de alguma maneira, a tirar votos da Associação Geral das Mulheres, especialmente os das jovens profissionais educadoras. Neste momento, a candidata da Associação Geral das Mulheres [Wong Kit Cheng] também defende que é uma profissional e que é jovem. O único ponto extra é que a candidata da Associação Geral das Mulheres está à procura das mães, enquanto [Agnes] Lam Iok Fong não está a centrar-se nas mulheres com filhos. Em termos formais, nas últimas eleições, a Associação Geral das Mulheres e os Kaifong não se preocuparam muito com os jovens profissionais, centrando-se nos idosos, nas donas de casa e nas mães. Neste momento, acredito que a Associação Geral das Mulheres tenha aqui um problema, ainda que a associação esteja a tentar reagrupar-se, incluindo jovens profissionais de áreas como os serviços sociais, associando-se a grupos como a Associação Fu Hong.
– Falou em Chan Meng Kam, que foi o grande vencedor das últimas eleições. Este ano, o ainda deputado disse que não ia concorrer, levando a que muitos analistas especulassem que estaria interessado no cargo de Chefe do Executivo. Concorda?
L.S. – Ele diz que tem sido deputado à Assembleia Legislativa há já algum tempo e precisa de algum tempo para fazer outras coisas. Há muita especulação na comunidade — há quem diga que ele está a tentar alcançar uma posição de topo. Chan Meng Kam pode ter hipóteses se quiser ser Chefe do Executivo, mas parece que temos funcionários mais apropriados, por conhecerem melhor a administração pública. Chan Meng Kam nunca trabalhou na administração pública, ainda que tenha estado envolvido em muitas comissões permanentes [da Assembleia Legislativa]. Dado aquilo que se diz que o envolve, e que tem que ver com o jogo, será ele a melhor pessoa para ser Chefe do Executivo? Se tivermos um Chefe do Executivo desse sector, há muitas pessoas que irão acusá-lo de conflito de interesses.
– Disse que havia candidatos mais apropriados ao cargo de Chefe do Executivo. Está a referir-se a alguém em particular?
L.S. – Na comunidade fala-se no atual secretário para a Economia e Finanças [Lionel Leong Vai Tac]. Antes de ser nomeado, muitas pessoas falavam nele como o próximo Chefe do Executivo. Mas, nessa altura, Chui Sai On estava na corrida e Leong era jovem. Entretanto, passaram-se anos e já ganhou muita experiência na Administração. E teve de construir mais relações com o Governo central, especialmente com a Administração e não com o sector empresarial. Será o mais adequado de todos. Claro que temos ainda Ho Iat Seng, presidente da Assembleia Legislativa. Mas ele mencionou que não estava interessado nessas eleições.
– Este ano vão sair pesos-pesados da Assembleia Legislativa, como Chan Meng Kam, Kwan Tsui Hang, Cheang Chi Keong e Leonel Alves.
L.S. – E devem fazê-lo.
– Devem?
L.S. – Já estão lá há tempo a mais. Não é saudável que tenhamos tantos deputados por vários mandatos, e a maioria está na Assembleia Legislativa desde antes mesmo da transferência. É bom que tenham ajudado na transição, mas é suficiente um ou dois mandatos. A maioria está lá há três mandatos. É demasiado. Devem sair.
– Isto será uma oportunidade para surgirem novos deputados, mais jovens e com visões diferentes?
L.S. – Isso ainda leva a outra ideia… Porque não saíram estes deputados antes? Porque não conseguiram treinar a geração seguinte. Por exemplo, a Federação das Associações dos Operários, nas eleições passadas, não estava segura do sucessor e, por isso, Kwan Tsui Hang manteve-se. [Ella] Lei Cheng I, que é representante da geração seguinte, acabou por disputar o sufrágio indireto e não o direto, de forma a assegurar que a associação teria dois deputados. Na realidade, conseguiram três na Assembleia Legislativa. Porque tomaram esta decisão? Por não estarem seguros dos sucessores. Os Kaifong não têm ninguém. A mesma coisa acontece com a Associação Geral das Mulheres e a mesma coisa na equipa do Chan Meng Kam. Song Pek Kei foi eleita e não estava preparada. Respeito o Leong Veng Chai, mas não é tão forte como Pereira Coutinho. Leong Veng Chai acaba por ser apenas um seguidor de Pereira Coutinho. Quando se está na política e se quer que a ideologia seguida perdure, tem de se passar o testemunho à próxima geração e treiná-la. Mas a maioria dos deputados não o está a fazer. E os que estão a fazê-lo, não têm tido sorte com as suas equipas — é o caso de Ng [Kuok Cheong] e Au [Kam San]. Encontraram a geração seguinte, e é forte, mas os mais jovens, como [Sulu] Sou, não se identificaram com Ng e Au na forma como lidam com a situação política. Os mais velhos continuam a preferir a via reformista, ao invés de radical. Sou é radical.
– Esta inexistência de uma segunda geração de políticos significa que os jovens não estão interessados na política?
L.S. – Sim e não. Em 2004/2005 começou a surgir muito dinheiro e o sistema de valores dos jovens mudou. Falava-se então em ter um melhor emprego nos casinos, e isso dura até agora. Trabalhando num casino nessa altura, como dealer ou administrativo, o salário era muito bom. De 2005 até 2008, os recém-licenciados, se não estivessem no Governo, só poderiam conseguir entre 12 mil e 14 mil patacas, mas, num casino, sendo um dealer, conseguia-se ganhar entre 16 mil patacas e 18 mil patacas. A discrepância era tão grande que os jovens começaram a aperceber-se de que não precisavam de uma licenciatura, bastava concluírem o ensino secundário. Ainda hoje os jovens, especialmente aqueles que trabalham nos casinos, quando têm algum dinheiro conseguem ter um carro e o seu próprio apartamento. Entretanto, hoje, os jovens já falam, quando terminam a licenciatura, em ter um salário na ordem das 20 mil patacas e em ter uma casa e um carro. Mudaram de valores — não pensam em servir a população, mas a si próprios, de forma a ter mais dinheiro. Mesmo assim, alguns jovens veem os problemas desta orientação materialista da sociedade. E estas são as pessoas que se podem tornar vozes na comunidade, defendendo mudanças no sistema de valores. Há jovens que servem a comunidade, podem até não seguir a vida política, mas procuram expressar-se, juntando-se à comunidade artística ou a associações de proteção dos direitos dos animais. Este tipo de associações é uma espécie de serviço público, orientado para ajudar a comunidade. E nestas eleições começo a ver alguma mudança na tendência, com alguns jovens a aparecerem.
– Espera que haja um aumento do número de votos dos jovens?
L.S. – Sim, estou a contar com isso. É uma das razões por que temos 25 listas candidatas. Algumas destas listas são encabeçadas por jovens e surgiram para tentar a sua sorte, mais pela piada ou por diversão.
– O deputado Ng Kuok Cheong disse em entrevista que as pessoas são felizes e não há grandes motivos para lutarem. Há fatores de tensão neste momento?
L.S. – As pessoas são felizes de forma superficial. Têm algum dinheiro e os jovens estão bem. Mas temos assuntos por resolver, como a habitação. É um grande problema que não conseguimos resolver. Os jovens podem começar a pensar que não têm casa própria e que a maioria do seu rendimento vai para as rendas, e podem começar a pedir mais habitação pública. Este tipo de pressão não pode ser aliviada a não ser que o Governo faça qualquer coisa. Nos últimos 10 a 15 anos, temos andado sempre a falar da habitação pública. Mas quantas frações temos? Menos de 20 mil. Esta é a tensão. O sistema de valores dos jovens mudou e eles preferem rendimento, querem ter a sua própria fração. Se com o próprio rendimento conseguissem isso, o Governo não precisava de se preocupar, porque as famílias estariam felizes. Há muita gente que diz que este Governo é bom para a economia, mas não para a subsistência da população. Mas com as compensações do Governo e os reembolsos, as pessoas vão-se contentando.
– A população de Macau está preocupada com a subsistência, sobretudo com a habitação, conforme se vê pelos vários candidatos. Mas há outros assuntos de foro social que poderiam preocupar a comunidade, como o tráfico humano, as desigualdades sociais, as condições dos trabalhadores migrantes, e que não parecem constar do programa de nenhuma lista. O que é que isto significa?
L.S. – Conforme disse Ng, as pessoas estão felizes. E, sim, podemos estar sempre felizes se não olharmos em volta e se apenas olharmos para nós próprios. Havendo uma fração de habitação pública, rendimento e a possibilidade de viajar várias vezes todos os anos, as pessoas não olham para a comunidade. Não temos essa agenda. A comunidade não está interessada, porque essas são coisas que o Governo não quer defender. O Governo e estas associações pró-sistema mantêm o ‘status quo’. Para eles, ‘status quo’ significa que não podes abanar o barco. Abanar o barco significa que, ao criticares um determinado assunto, as elites podem estar implicadas. Não queremos falar dessas coisas, porque quando mexemos nisso estamos a mexer nestas elites e estas pessoas estão ligadas a isso. Essas são as coisas que mexem com o barco. As famílias ensinam os jovens a não abanar o barco.
– Se ninguém está a abanar o barco, isso tem a ver com o atual sistema de ensino?
L.S. – Sim. O sistema de ensino está a levar-te a acreditar que não podes abanar o barco. Passamos conhecimento, mas não quer dizer que passemos pensamento crítico ou [ensinemos] a olhar para as desigualdades. Estamos a ensinar aos jovens que nós somos iguais e que os outros não pertencem a esta comunidade. E, claro, quando se fala em mudanças, fala-se sempre em mudanças graduais, especialmente o Ng. É ele que diz que as mudanças em Macau são graduais. Concordo com ele até certo ponto, particularmente quando olhamos para [Sulu] Sou, que é radical e não é aceite pela comunidade. Não quer dizer que eu concorde, mas é o sentimento da comunidade.
– Nestas eleições, a Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa parece estar a interferir de forma mais ativa na campanha. É normal?
L.S. – Nas últimas eleições, alguns criticaram a comissão por não estar a fazer o seu trabalho. Desta vez, parece que está a exagerar no trabalho que faz. Como é que podem tentar ensinar os meios de comunicação social a fazer o seu trabalho, por exemplo? Estas pessoas fizeram e fazem parte da Administração, mas nunca participaram nas eleições, nunca estiveram envolvidas neste tipo de operações. Por exemplo, dão orientações sobre como agir no local de trabalho. Mas, se alguém estiver a trabalhar e começar a falar sobre a campanha, claro que será despedido. A minha única explicação é que não têm esse tipo de experiência e tentam que seja tudo muito neutral e objetivo, e que se atenham à lei, literalmente. É muito difícil de implementar isto em Macau.
Luciana Leitão