Japão quer aproveitar situação de tensão na Península Coreana para mobilizar tropas

por Arsenio Reis

É tensa a situação na Península Coreana, e o confronto entre os Estados Unidos, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte já alcançou uma condição de hostilidade iminente. De forma a forçar a Coreia do Norte a abandonar as armas nucleares, os Estados Unidos afirmaram que irão mobilizar os três porta-aviões USS Carl Vinson, USS Nimitz e USS Ronald Reagan em direção ao país, de forma a exercer pressão militar. A China já revelou de forma não oficial que “se os Estados Unidos atacarem somente as instalações nucleares da Coreia do Norte através de um ataque cirúrgico de forma antecipada, a China não irá necessariamente apoiar militarmente a Coreia do Norte”. Contudo, estas iniciativas são apenas exibicionismo, não correspondendo a qualquer ação real. Os três porta-aviões dos Estados Unidos ainda não foram vistos, e os meios de comunicação chineses também não fizeram mais declarações relativamente a esta negação de apoio. Embora os chefes de Estado da China e dos Estados Unidos já tenham falado duas vezes ao telefone depois do encontro Xi-Trump, tendo o assunto incidido sobre a situação tensa na Península Coreana, Xi Jinping reiterou várias vezes que pretende resolver a questão nuclear norte-coreana de forma pacífica. O Presidente sublinhou: “A China opõe-se firmemente a ações que violem as decisões do Conselho de Segurança da ONU, e espera que as partes envolvidas pratiquem comedimento e evitem agravar a situação tensa na Península Coreana. Apenas se todos os intervenientes assumirem esta responsabilidade é que a questão nuclear da península poderá ser resolvida o mais rápido possível, concretizando a sua desnuclearização.”

Precisamente numa altura em que a China e os Estados Unidos procuram uma solução não-militar para a questão nuclear, e em que toda a comunidade internacional teme o início de um conflito bélico na península, o Japão, contudo, ansiando pelo caos mundial, planta as sementes da desordem. Tomomi Inada, ministra da defesa do Japão, afirmou que, caso ocorra um incidente na Península Coreana, o Japão irá enviar as suas Forças de Autodefesa para salvar os japoneses aí expatriados, e o primeiro-ministro Shinzo Abe referiu também que a Coreia do Norte poderá lançar mísseis guiados contendo gás sarin.

Para além disso, o Japão realizou também uma Conferência de Segurança Nacional na qual foi referido que, assim que ocorra um incidente na Coreia do Norte, os militares norte-coreanos poderão entrar noutros países fingindo ser refugiados, sendo que por isso o Governo deve reforçar as suas forças de guarnição. Relativamente a isto, alguns comentários referiram também que estas ações pareciam ser sobretudo propícias a dar ideias à Coreia do Norte. Por outro lado, Song Il-Ho, embaixador norte-coreano a cargo da normalização diplomática com o Japão, afirmou: “Caso haja uma guerra, o Japão será quem sofrerá mais”. As suas palavras servem apenas lançar mais lenha à fogueira de Tomomi Inada e Shinzo Abe, fazendo com que a situação da Península Coreana não arrefeça e dando ainda mais força às convicções da ministra.

Estas palavras em relação ao Japão deixaram os sul-coreanos extremamente descontentes, com alguns meios de comunicação da Coreia do Sul a criticarem o Japão por instigar conflitos na península, e a classificarem o seu comportamento como simplesmente ignóbil. Este tipo de retórica que anseia e tira proveito da adversidade vizinha apenas tornará cada vez mais distantes as relações entre o Japão e a Coreia do Sul.

Naturalmente, para além dos sul-coreanos com a sua antipatia em relação aos japoneses, muitos outros também questionam o porquê de o Japão demonstrar um comportamento ainda mais instável do que a Coreia do Norte. Toda a sociedade age como se estivesse a acontecer uma guerra entre países vizinhos, e até mesmo o mercado de ações e o mercado cambial foram afetados. Na verdade, até certo ponto, isto pode refletir uma forte vigilância e capacidade de resposta do povo japonês relativamente a crises próximas, mas, por outro lado, a reação de Shinzo Abe é um pouco diferente. Em primeiro lugar, Abe está a fortalecer a legitimidade das suas atividades geopolíticas, afinal de contas as Forças de Autodefesa já eliminaram a restrição antibelicista da constituição, mas ainda não tiveram uma oportunidade para enviar as forças para território estrangeiro. Se ocorrer verdadeiramente um conflito na Coreia do Norte, não será para o Japão uma oportunidade de ouro? Por isso, neste contexto, o país está constantemente a atiçar as chamas. Quanto mais se agrava a situação da Península Coreana, mais o Governo de extrema direita do Japão promove uma atmosfera de inquietação no próprio país, levando o povo a acreditar que necessita de um Governo capaz de entrar em confrontos. Depois, chegando à altura de propor no parlamento maiores recursos militares ou uma expansão do exército e das forças de guarnição, as condições serão muito mais favoráveis. No entanto, o uso de crises regionais como ferramenta para concretizar objetivos políticos não escapará para sempre aos olhos de todos.

DAVID Chan

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