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O antagonismo de duas Revoluções

Sob o tema “Escritores em Revolução: A Revolução Cultural e a Revolução dos Cravos”, juntaram-se Rui Zink (Portugal) e Liu Xinwu (China Continental) para falar de duas realidades em nada relacionadas. Foi o mote para mais uma das sessões do Rota das Letras – Festival Literário de Macau

 

“Qual a influência da Revolução Cultural na Revolução dos Cravos?”, pergunta o moderador da sessão, Yao Feng. “Não acho que tenham alguma coisa a ver, zero”, responde, assertivamente, o escritor Rui Zink.

A Revolução Cultural é designada nos livros de História como o movimento sócio-político que decorreu, sob o jugo do então presidente da República Popular da China, Mao Tsé-Tung, entre 1966 e 1976, com o objetivo de neutralizar a oposição que surgia dentro do próprio partido.

Por seu turno, a Revolução dos Cravos refere-se a um movimento social, ocorrido a 25 de Abril de 1974, que depôs o regime ditatorial do Estado Novo, acabando por vir a desencadear a implantação de um regime democrático.

Salientando a incomparabilidade dos dois movimentos, Rui Zink diz ainda, recorrendo ao humor, que alguns “idiotas” diziam ser maoístas, acabando posteriormente, quando adultos, a assumirem posições importantes. “Vejam como se encontra a Europa, atualmente”, diz, em jeito de piada, referindo-se ao ex-presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, assumido maoista nos tempos da faculdade. Em Portugal, na altura, Rui Zink diz que, vista à distância, a Revolução Cultural “era atraente” para os jovens, e que, durante anos, viam-se pinturas nas paredes, alusivas a esse movimento.

Por seu turno, o autor Liu Xinwu — considerado pioneiro de um género literário denominado ‘Scar Literature’, em que se condenava os excessos da época — onsidera que a Revolução Cultural foi um “desastre e devastadora”, mas que acabou por terminar sem violência, após a morte de Mao Tsé-Tung. “Foi preso o Gangue dos Quatro [os quatro supostos cabecilhas do movimento], durante a noite”, recorda, esclarecendo que se declarou assim terminado o movimento.

A população da China Continental teve então “esperança” na mudança. “Depois de 1976 e até 1978, foi o caos”, recorda. Enquanto escritor, nesta altura de incerteza, optou por lançar a obra “The Class Teacher”, em que primeiro lançava as suas críticas à Revolução Cultural. No que toca à Revolução de 25 de Abril, uma vez que o “Gangue dos quatro baniu a ligação à literatura estrangeira”, Liu Xinwu não fazia ideia de que esta estaria então a decorrer, em Portugal.

Yao Feng — pseudónimo poético do autor e antigo vice presidente do Instituto Cultural, Yao Jinming — volta então a inquirir Rui Zink acerca do pacifismo da Revolução dos Cravos e se este se deve ao próprio caráter do povo português.

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“Se há uma coisa em comum [entre ambas as Revoluções] é que prova como se pode usar a mesma palavra para duas coisas diferentes”, diz Rui Zink, continuando: “Numa [Revolução Cultural] houve um homicídio cultural, enquanto noutra [Revolução dos Cravos] houve uma abertura da mente.”

Rui Zink tinha apenas 13 anos, quando a Revolução se deu. “O meu avô foi preso [durante o regime do Estado Novo], mas ele era forte; mas a minha avó ficou presa na mente, enlouqueceu”, recorda. Por isso, para o autor, Portugal estava “a preto e branco” e, com o 25 de Abril de 1974, passou a ter cores. O autor português diz ainda que “não acredita na genética” e considera “perigoso” associar uma determinada caraterística — a do pacifismo — a todo um povo. Finalizando a sua intervenção, Rui Zink citou ainda ao humorista português José Vilhena, para se referir à censura que se viveu durante o regime do Estado Novo. “Censura é a técnica de separar o trigo do joio, a fim de publicar o joio.”

Yao Feng acrescentou: “Por vezes, as revoluções são sangrentas.” E Rui Zink remata: “A Revolução Portuguesa foi romântica, mas o resultado foi muito bom — com poucas coisas más.”

 

A literatura chinesa
Um dos elementos da audiência inquiriu Liu Xinwu em relação ao “estado estranho da literatura” chinesa que, ao longo da História, sempre esteve associada ao Governo. Em resposta, o autor diz que os escritores “devem centrar-se mais noutras coisas, que não as do Governo”, até porque “é preciso ser-se independente para se ser um bom artista — sendo-se independente, a escrita pode ser livre.”

Houve quem perguntasse na audiência, também a Liu Xinwu, se, nos dias de hoje a ‘Scar Literature’, ainda tem impacto. “Se nasceste depois dos anos 80, seria melhor; agora, se nasceste nos anos 2000… os jovens não sabem nada sobre a Revolução Cultural”, diz, esclarecendo: “Agora há romances na Internet e os jovens lêem tudo online.  Gostam de aventuras e fantasia, o que não tem nada a ver com a vida real.”

Porém, o autor recusa-se a desistir, continuando a falar e a escrever sobre as temáticas que lhe interessam, ainda que saiba que o seu trabalho “não é tão popular” como aqueles que saem na Internet. Seja como for, Liu Xinwu considera importante que o país se esqueça. “É inaceitável que uma nação perca a sua memória”, remata. Assim, enquanto for vivo, insiste em trabalhar e escrever sobre o que acha relevante, até porque “não há limites à sua [própria] memória”.

Ainda na sessão de perguntas e respostas, inquiriram a Liu Xinwu sobre o desaparecimento, ao longo dos tempos, de “bons livros” sobre a Revolução Cultural. “É raro encontrar — gradualmente, têm diminuído. Parece que a publicação da ‘Scar Literature’ tem diminuído. Tenho 33 anos e trabalhei em Xangai [durante a Revolução Cultural], queria escrever memórias, mas será que podem ser publicadas?”, perguntou, acrescentando: “Quais são os limites?”

Em resposta, o autor da China Continental disse, referindo-se à censura que ainda existe no país: “Temos limites, mas não sabemos exatamente quais.” Independentemente disso, Liu Xinwu diz que sempre escreveu o que quis. “Escrevemos pelo bem dos nossos corações; não escrevemos para ser publicados”, rematou.

No fim da sessão, o jornalista Ricardo Pinto — e diretor do Rota das Letras — pediu recomendações de livros alusivos a cada uma das Revoluções. Rui Zink realçou que “diversidade” na escrita e na leitura é a chave. Ainda assim, recomendou o livro de Dinis Machado, “O que diz Molero”, uma reflexão sobre a identidade portuguesa.

Luciana Leitão

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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