Uma MIF ainda com pouco público - Plataforma Media

Uma MIF ainda com pouco público

No fim da 20a edição da Feira Internacional de Macau (MIF na sigla inglesa), organização e participantes continuam a notar a falta de público.

Foi a maior de sempre no que toca ao número de expositores e à representação lusófona, mas os participantes estavam à espera de mais negócios e parcerias. No próximo ano, esperam-se algumas desistências, enquanto o Instituto de Promoção do Comércio e Investimento de Macau (IPIM) garante estar a preparar uma reestruturação do modelo.

O certame deste ano concentrou numa área de 37.000 metros quadrados perto de 1200 expositores, correspondendo a mais 22 por cento de empresas e organizações participantes, em comparação com a edição do ano passado. No que toca à representação dos países lusófonos, foi a maior de sempre, contando com 150 expositores, 130 dos quais pertenciam a Portugal.

Jaime Bessa, da Associação de Jovens Empresários Portugal-China (AJEPC) afirma que esta MIF foi diferente, por ser a primeira vez com uma participação lusófona tão grande. “Acho que correu muito melhor [do que em anos anteriores], porque a nossa participação foi maior, notou-se mais”, diz. Desta vez, o critério foi apostar na qualidade dos produtos portugueses, trazendo empresas que se pudessem destacar nos diferentes setores. “Trouxemos produtos portugueses – vinhos, queijos, azeite, mas também informática, empresas de eventos. Quisemos apostar sobretudo na qualidade”, garante, acrescentando: “Pelos contatos que já foram feitos e pelo feedback dos participantes e dos que experimentaram os nossos produtos, vale a pena participar no próximo ano.”

Jaime Bessa afirma que a grande participação lusófona resultou de um desafio do IPIM e reflete uma “procura crescente do mercado chinês de mais qualidade”. Por isso, é na alimentação que o associado da AJEPC acredita que os produtos lusófonos têm mais hipóteses. “É no vinho, queijos, enchidos – e tem havido uma resposta positiva do mercado chinês”, afirma.

Independentemente das preferências, Jaime afirma que “vale a pena a qualquer empresa portuguesa que tenha um produto de qualidade vir à MIF mostrar, porque aqui faz-se o teste”.

À espera de mais

Francisco Braga da Cruz, designer de jóias, veio pela primeira vez à MIF. “O presidente da AJEPC, Alberto Neto, tem vindo a desafiarme ao longo dos últimos dois anos e resolvi aceitar o desafio. Coincidiu [temporalmente] com a feira internacional de artesanato de Milão, mas resolvi vir por curiosidade e prospeção de mercado”, salienta.

A título de balanço, Braga da Cruz afirma que o saldo é médio. “Não tinha grandes expetativas, porque nunca tinha feito esta feira. Vi grandes oportunidades de negócio, mas têm de ser trabalhadas, não é como Paris, Milão e Berlim. É preciso ter networking, conhecer o mercado.”

Braga da Cruz afirma que ao seu expositor acorreram, além de clientes, pessoas interessadas em montar uma representação da marca. Ainda assim, o designer percebeu que se trata de um “produto difícil”, uma vez que “os preços na China são muito competitivos.” Durante os quatro dias de MIF, teve clientes da China Continental, Hong Kong e Macau, mas deparou-se com uma novidade: “Vendi quase o stock todo do coração de Viana, não estava à espera. Trouxe mais por curiosidade.”

No próximo ano, se surgir a oportunidade, Braga da Cruz irá ponderar se compensa regressar a Macau. “Se coincidir com a feira de Milão, não venho. Há uma diferença de quase 1000 por cento de faturação”, afirma. Andreia Nunes, proprietária da loja de doçaria Flores de Esteva na Sertã (Portugal), também veio pela primeira vez à MIF. “O objetivo era explorar outro mercado além do nacional. A primeira opção foi Macau, porque participei num programa de start-ups e a AJEPC ofereceu a viagem”, diz.

Quanto aos resultados, a empresária – que faz doçaria tradicional da Sertã – afirma que “houve alguns interessados, de Macau e da Malásia, mas que só daqui a algum tempo é que se vai perceber [se vingam]”. Ao certame trouxe um único doce: o coscorel da Sertã. “Escolhi este pelo prazo de validade, que é mais extenso e pode trabalhar-se no mercado externo.” Sobre uma participação futura noutra edição da MIF, Andreia afirma que ainda é cedo. “Vamos ver como correm os próximos meses.”

As desilusões

Para o artesão moçambicano Pedro Nóvoa, a participação na MIF não é algo novo, uma vez que já é a terceira vez que aqui vem. “Acho que este ano foi bastante pior do que os outros dois, foi muito mais fraco em termos de movimento”, diz, justificando que “teve muito menos adesão”, refletindo-se em menos vendas. “Tem menos gente, mas muito menos gente na feira e menos gente a gastar.”

Assim, para Pedro Nóvoa, esta é a última vez que cá vem. “Mais vale ir ao Brasil do que a Macau. A passagem é mais cara, mas o alojamento é muito mais barato. O alojamento aqui é muito caro”, diz, acrescentando: “Claro que a MIF não é apenas de artesanato, mas acaba por ser muito curta e o período de vendas também. Não compensa.”

O presidente da Associação Nacional de Artesãos de Moçambique, Carlos Mondlane, concorda que este ano foi mais fraco do que na edição anterior. “Houve pouca adesão, não sei se é da própria feira, se as pessoas estão mais ocupadas com outras coisas”, diz. Participa no certame em busca de vendas, mas também de parcerias. “Quero ver se há uma empresa interessada em comprar os nossos produtos em maior quantidade. Este ano temos alguns contatos de Taiwan.” Por seu turno, Rui Carvalho, de Timor, está bastante satisfeito. “No ano passado, o meu expositor ficou lá ao fundo, sem destaque, não tive visitantes. Este ano, tem sido melhor”, refere. Proprietário da loja Rui Collections, em Timor, o empresário trouxe à MIF calçado e malas. “Tive muitos compradores, mas parceiros ainda não. Passou por aqui uma empresa de Hong Kong que queria fazer uma parceria, mas agora é que vamos saber se isto vai adiante.”

Segundo os números oficiais, nos quatro dias em que decorreu a MIF, realizaramse 55 fóruns, reuniões e seminários de promoção, além de 574 sessões de negociação comercial – 117 com empresas portuguesas, que envolviam as áreas do vinho, produtos alimentares e bebidas, artigos de saúde, móveis, produtos para cuidados de pele, utensílios de mesa, joias, serviços de turismo, serviços de convenções e exposições e consultadoria de investimento.

Celebraram-se 50 protocolos de cooperação entre entidades governamentais e associações comerciais, que envolviam Portugal e Macau ou os países lusófonos, em diferentes áreas como as convenções e exposições, exploração de mercados internacionais ou vestuário. A 21.ª edição da MIF terá lugar entre 20 e 23 de Outubro de 2016. A coordenadora geral do evento e vogal executiva do IPIM, Irene Lau, afirma que terá num novo formato, de forma a atrair mais público e visitantes profissionais.

Luciana Leitão

30 de outubro 2015

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