“Não pode haver harmonia à custa do sofrimento de mulheres e crianças” - Plataforma Media

“Não pode haver harmonia à custa do sofrimento de mulheres e crianças”

Oficializada este verão, a ZONTA luta por “mais igualdade genéro”. Recusa o sê-lo feminista, porque precisam a ajuda dos homens para criarem sociedade melhor. Promovem “a mudança” e estão dispostas a discutir tudo; da educação à saúde; da política à economia: “Tudo o que for preciso para lutar pelo bem de Macau”, sintetiza Christiana Pou YeeIeong, presidente da associação que tem Pansy Ho como mentora.

plataforma – Como surgiu a ideia da Zonta?
Christiana pou Yee ieong – A ideia da organização não foi minha, foi da Pansy; mas a prática do bem e o trabalho social está no coração de cada um de nós. No meu caso, deixei o governo porque senti necessidade mudar a minha vida. Depois da Direção de Economia e Finanças, a Expo Shangai – responsável pela presença de Macau, – abriu-me os olhos. Foi uma experiência incrível e conheci muita gente de classe mundial; mas também senti que havia
muita coisa que ainda não tinha feito. Tinha há muito vontade de fazer algo mais por Macau e percebi que estava na altura crítica. Se não saísse do governo perdia a hipótese de dar novo rumo à minha vida, antes da reforma. Muita gente estranhou que eu me tivesse demitido, porque estava em franca ascensão.
Demitiu-se sem saber o que faria a seguir?
[C.i.] – Meio copo estava cheio, mas o outro meio estava vazio. O sucesso e a visibilidade internacional da presença de Macau em Shangai davam-me a plataforma para saltar mais alto no governo, mas senti-me fechada numa caixa e ia bater com a cabeça no teto. A única forma de crescer enquanto pessoa era criar uma plataforma diferente. Sentia- me de certa forma privilegiada, mas longe das pessoas e do mundo real.
É disso que as pessoas acusam os políticos: vivem numa gaiola dourada…
[C.i.] – Não posso falar pelos outros, mas eu queria uma vida mais simples, com outras dimensões. Por exemplo, queria visitar orfanatos enquanto pessoa, e não em missão oficial. Acompanheientãoumaamigaque queria adotar uma criança e acabei eu por adoptar uma bebé de quatro meses. Tinha
sido mãe solteira durante 12 anos, porque criei o meu sobrinho depois da morte da mãe. Não precisava de mais um bebe e sabia como era difícil uma mulher sozinha conjugar a profissão e a educação de uma criança.
Foi um impulso?
[C.i.] – Acho que esteve sempre aqui dentro. A bebé estava doente e ninguém a queria adotar. A minha intenção era ajudar outras pessoas a adotarem; mas quando lá voltei havia um vírus no orfanato e pediram-me para salvar a bebé. Acredito no karma; aliás, acredito em Deus, e pensei que esse era o meu destino. Não estava de todo preparada, mas foi a minha primeira missão.
Chega depois a Zonta, missão mais coletiva…
[C.i.] – A nossa missão é a de promover o estatuto das mulheres, do ponto de vista social, profissional e económico.
Porquê as mulheres? e porquê agora?
[C.i.] – Fazia sentido começar pelo que nos é mais próximo. Sou mulher e entendo os nossos problemas e necessidades; mas este é só o ponto de partida. Batemo-nos “pela agenda da igualdade” porque esse é um mundo melhor, para homens e mulheres. Mas também por todos os assuntos que nos preocupam. Fala-se muito na harmonia social… A família é a base dessa harmonia e o núcleo da família é a mulher. Logo, quando falamos de mulheres, falamos de tudo.
Educação, saúde, economia, política?
[C.i.]–Tudooqueforprecisoparalutarpelo bem de Macau.
Podia não ser uma organização só de mulheres?
[C.i.] – Começamos com o que nos é mais próximo e prioritário, que tem a ver com as questões da igualdade de género e da família.
Onde reside o problema? Na cultura da família ou na tradição social?
[C.i.] – Em ambas. Veja a violência doméstica: se os problemas da família não forem resolvidos, tornam-se dramas sociais. E o contrário também é verdadeiro. Fisicamente, as mulheres são o lado mais fraco e, na cultura asiática, a mulher é considerada inferior. Mas também nos Estados Unidos, ou em Portugal, sociedades consideradas mais avançadas, há inúmeros casos de violência doméstica. Faz parte da nossa história e mina a cabeça das pessoas.
Macau é uma sociedade machista?
[C.i.]– Quando um deputado[Fong Chi Keong] faz declarações daquelas, infelizmente não posso dizer que Macau não é machista. Por isso temos de começar pela educação e pela consciencialização das pessoas. A verdade é que para atingir o sucesso profissional, ou visibilidade social, as mulheres esforçam-se três vezes mais. Dito isto, quero ser muito clara neste ponto: não somos uma organização feminista; temos uma posição diferente e não queremos confrontar os homens. Precisamos do apoio deles para criar um mundo melhor. Muitas mulheres em Macau podem escolher entre uma carreira profissional ou ficarem em casa a educar os filhos. Devemos ser gratas porque, sem o apoio dos homens, não teriam essa escolha. Mas isso não quer dizer que podem apanhar em nome da harmonia familiar.
Os homens podem apoiar os direitos das mulheres?
[C.i.] – Depende como os define.
Como é que os define?
[C.i.] – A igualdade não será perfeita, mas queremos mais do que há agora; queremos ser avaliadas pela competência e não pelo género. Porque não usar 50% da população para construir uma sociedade melhor? Enquanto mulheres, é isso que queremos contribuir. Uma sociedade mais igualitária é uma sociedade melhor.
Como se mede esse objetivo?
[C.i.] – Não há uma medida científica. Mas se houver mais mulheres na política e na gestão das empresas é bom sinal. Em cinco secretários no governo, só há uma mulher, mas as pessoas parecem muito contentes porque, apesar de tudo, há uma mulher no governo! Se metade da população é composta por mulheres… O problema não está só em Macau. Veja as Nações Unidas, que em 70 anos nunca elegeram uma secretária-geral!
Mais cargos no feminino prova nova mentalidade?
[C.i.] – É um bom indicador, porque o que queremos mesmo é mudar é a mentalidade. Para isso também são precisas alterações legislativas. Precisamos de levantar assuntos, promover a consciência coletiva e encontrar soluções. As mulheres e as crianças são apenas ponto de partida.
Podemos apontar o dedo às mães, por não incutirem a mudança nos filhos?
[C.i.] – Claro! Temos de apostar na educação e mudar as mentalidades. Mas também precisamos dos homens, porque representam metade da população e ocupam a maioria dos postos de decisão. Muitos homens já percebem e apoiam a nossa causa. Estamos a criar a necessidade e, à medida que ela é reconhecida, ajudamos à mudança.
Há várias outras associações de mulheres em macau, mas esse discurso não tem sido muito claro…
[C.i.] – Não comentamos os outros. A ZONTA cresce depressa porque se reconhece que a nossa forma de atuar é necessária: começar pela família para atingir a harmonia social.
Na discussão sobre violência doméstica, o Chefe do executivo usou a harmonia em sentido contrário…
[C.i.] – Em nenhuma circunstância se pode recorrer à violência, nem em casa nem na rua. E mais: Não pode haver harmoniosa à custa do sofrimento das mulheres e das crianças, que não podem ter medo de defender os seus direitos. Para isso, têm de saber que a sociedade os apoia.
Como analisa a igualdade de género na China? [C.i.] – O governo central está muito à frente nas reformas sociais e económicas, incluindo na igualdade de género. A ZONTA mereceu apoio entusiasta por parte do Gabinete de Ligação, que nos encorajou a contactar associações homólogas na China.
A primeira-dama chinesa é hoje promovida como figura política. isso é relevante?
[C.i.] – Pequim tem muito cuidado com a sua imagem internacional e a promoção da primeira-dama é também um sinal de respeito pelas mulheres.

古步毅 Paulo Rego 28 de agosto 2015 page10image28920

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