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Aprender a brincar

O ensino infantil, direcionado para as crianНas entre os trРs e os seis anos, sofre uma profunda reforma, jЗ neste ano letivo. O currТculo vai incluir mais atividades lЬdicas e centrar-se menos na escrita. Os inquiridos pelo PLATAFORMA aplaudem as alteraНЫes, salientando que О atravОs da brincadeira que as crianНas aprendem.

ComeНa jЗ neste ano letivo a reforma do ensino prОescolar. Centrando-se mais na aprendizagem da vida quotidiana e do conhecimento cognitivo, ao invОs da escrita e dos conhecimentos adquiridos nas disciplinas. O objetivo, explica a DireНЛo dos ServiНos de EducaНЛo e Juventude (DSEJ) em nota enviada ao PLATAFORMA, О eliminar a ideia de que o prО-primЗrio prepara o ensino primЗrio, eliminando a sobreposiНЛo de conteЬdos entre os dois.

Vai ser implementado o documento de ExigРncias das CompetРncias AcadОmicas BЗsicas na EducaНЛo Infantil, com os cursos mais centrados no quotidiano das crianНas, adiando o ensino dos carateres chineses para um ano antes do ingresso nas escolas primЗrias. “Г uma etapa base para assegurar aos estudantes nТveis adequados de desenvolvimento e qualidade no ensino”, esclarece a nota.

Entre os principais requisitos definidos neste documento contam-se “a promoНЛo da inovaНЛo no currТculo da infantil e nos mОtodos de ensino, especialmente nos jogos”. O objetivo О que as “crianНas tenham uma experiРncia de ensino plural, equilibrada e completa”. No documento consta a necessidade de competРncias bЗsicas, divididas em seis Зreas: desporto e saЬde, lТnguas, indivТduo, sociedade e humanidade, matemЗtica e ciРncias, artes. Elimina-se ainda o ano preparatЧrio para a escola primЗria.

A partir de agora, espera-se que os alunos aprendam “valores Оticos e condutas morais bЗsicas, hЗbitos de higiene, gosto artТstico, conceitos bЗsicos sobre proteНЛo ambiental, gosto pelo desporto e gosto por ouvir leitura de obras infantis”, alОm de saber pronunciar de forma correta as palavras.

Em resposta Иs crТticas acerca da rapidez na introduНЛo da reforma, a DSEJ lembra que, desde o ano acadОmico de 2011/2012, sete escolas fizeram parte de um programa-piloto onde os fundamentos da mudanНa foram postos em prЗtica. Ao mesmo tempo, a DSEJ garante que, desde 2011, tem vindo a formar os docentes para a reforma no prОescolar. Com base no programapiloto, preparou ainda um guia que vai servir de referРncia ao pessoal docente.

A reforma surge no Йmbito do planeamento a dez anos do ensino nЛo superior. “O objetivo О promover a reforma do currТculo do ensino prО-escolar e dos mОtodos de ensino”, esclarece a nota da DSEJ, frisando a ideia de “aprender brincando”. Um novo programa serЗ tambОm aplicado no ensino primЗrio, a partir do ano letivo 2016/2017, e ao ensino secundЗrio, em 2019/2020. Em 2014, a DSEJ apresentou o quadro da organizaНЛo curricular da educaНЛo regular do regime escolar, definindo as linhas de orientaНЛo para o desenvolvimento curricular, as Зreas de aprendizagem e as disciplinas, bem como os horЗrios, com o intuito de otimizar a estrutura curricular e as atividades cientТficas e educacionais.

A reforma surge porque se concluiu que o currТculo escolar e o ensino nЛo se resumem a passar conhecimento, perseguindo tambОm a melhoraria do nТvel de literacia dos estudantes, conclui a nota da DSEJ.

“NЛo hЗ vagas suficientes nas creches, por isso, hЗ crianНas com menos de trРs anos que vЛo diretamente para o jardim de infЙncia, o que provoca danos nas crianНas pequenas.”

(Teresa Vong, diretora do Centro de Pesquisa Educacional da Universidade de Macau)

Passo em frente

A diretora do Centro de Pesquisa Educacional da Universidade de Macau (UM), Teresa Vong, afirma que este О um passo na direНЛo certa. “Antes, o governo nЛo podia interferir, porque os infantЗrios eram todos privados e tinham autonomia para definir como quisessem o seu currТculo”, contextualiza. Ao adotar o novo rumo, o governo segue a tendРncia internacional e a adapta-se de forma “mais apropriada” Иs crianНas desta idade. No passado, as crianНas no ensino infantil aprendiam a escrever, o que era “demasiado exigente”.

Na opiniЛo de Teresa Vong, a reforma surge porque “hЗ uma nova geraНЛo de pais” que “percebem melhor o verdadeiro objetivo da educaНЛo”, mas tambОm porque o Executivo tem vindo a aumentar os subsТdios Иs escolas, sentindo-se mais “И vontade para tomar esta iniciativa”.

PorОm, apesar de concordar com o espТrito desta reforma, a acadОmica espera tambОm que o Governo tenha em atenНЛo outros problemas. “NЛo hЗ vagas suficientes nas creches; por isso, hЗ crianНas com menos de trРs anos que vЛo diretamente para o jardim de infЙncia, o que provoca danos nas crianНas pequenas”, lamenta.

No jardim de infЙncia, as crianНas aprendem se puderem brincar: “A ideia mais importante desta reforma О a de que О preciso

explorar o ambiente, construir competРncias sociais, brincar e, mais importante, inspirar e motivar as crianНas a aprender”. Os pais devem acompanhar os filhos na brincadeira, alerta a acadОmica: “HЗ que explicar que nЛo se deve, por exemplo, encorajar as crianНas a usarem aparelhos eletrЧnicos”, afirma, salientando que se preocupa quando se desloca a restaurantes e vР “crianНas pequenas” em frente a um ecrЛ. E deixa um alerta: “A maioria dos pais queixa-se que os filhos tРm dificuldades de concentraНЛo – porque comeНam a brincar com jogos eletrЧnicos muito cedo. Cuidado!”, alerta.

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Desenvolvimento infantil

A psicЧloga clТnica especializada na Зrea educacional, Goreti Lima, tambОm concorda com a reforma. “Acredito que atravОs de atividade lЬdicas bem conduzidas e com um propЧsito claro se aprendem muitas competРncias, quer cognitivas quer emocionais. Os jogos, por exemplo, continuam a ser uma das melhores formas de se passarem conhecimentos e hЗ estudos cientТficos que comprovam isso mesmo, nЛo sЧ com crianНas mas tambОm com adultos.”

Contudo, os docentes precisam de conhecimento e flexibilidade. “O jogo livre nЛo chega; О extremamente redutor. Tem de haver orientaНЛo e objetivos nas propostas, dentro e fora da sala de aula.” Goreti Lima acrescenta: “Aprender a brincar, a jogar, a criar e experimentar О a melhor maneira de memorizar informaНЛo e ter acesso a ela quando for necessЗrio, aplicando essa informaНЛo na vida quotidiana com os desafios prЧprios da condiНЛo humana.” Importante, alerta, О formar os professores e acompanhЗ-los ao longo da reforma.

Mais que as eventuais efeitos negativos do atual prО-escolar – sobre os quais tem dЬvidas – Goreti Lima considera mais importante os comportamentos, as capacidades, as crenНas e valores dos educadores. “Digo educadores porque os pais e outros adultos significativos (como as empregadas) tРm um impacto brutal no desenvolvimento das crianНas e algumas pessoas andam distraТdas e nЛo tomam consciРncia disso. Isto se pensarmos que as maiores perturbaНЫes sЛo ao nТvel relacional, ao nТvel da comunicaНЛo.”

No que toca ao desenvolvimento infantil, a psicЧloga afirma que “hЗ que respeitar a maturaНЛo do cОrebro, assim como do corpo fТsico”, salientando que “uma crianНa com quatro anos estЗ receptiva a aprender porque a curiosidade О uma constante.” Mas tambОm О preciso cuidado com o excesso de estТmulo. “NЛo podemos esperar que uma crianНa com quatro anos corra duas milhas (trРs quilЧmetros), mas tambОm nЛo podemos esperar que seja exТmia a escrever palavras e frases complexas. Deixemos as crianНas serem crianНas.”

Muitas vezes sЛo os prЧprios pais que pedem maior exigРncia no ensino prО-escolar. “Para estarem mais bem preparadas para a sociedade competitiva em que vivemos e para terem um bom emprego. Porque querem que as suas crianНas sejam felizes”, explicam esses pais. Mas ainda que a intenНЛo seja positiva, as consequРncias a mОdio e longo prazo podem ser negativas, explica a psicЧloga.

O ensino prО-primЗrio, sustenta a psicЧloga, О uma das fases mais importantes da vida. “Os primeiros sete anos sЛo cruciais em termos de competРncias sЧcio-emocionais. Tudo o que se diz И crianНa neste perТodo О assumido como verdade absoluta e inquestionЗvel nas fases seguintes do desenvolvimento. Г aqui que nos incutem as crenНas que vЛo perdurar o resto da vida.”

 

Luciana LeitЛo

4 de setembro 2015

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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