ONDE PARAM OS NOVOS ROCHAS? - Plataforma Media

ONDE PARAM OS NOVOS ROCHAS?

Numa altura em que passam 60 anos sobre a estreia de Augusto Rocha na I Divisão portuguesa a pergunta mantém-se: por que razão Macau não consegue gerar mais talentos no futebol?
Augusto Rocha. O nome diz muito ao coração dos adeptos da Académica, mas também aos macaenses, por ser considerado, por muitos, o melhor jogador que nasceu na Região. Mais ninguém conseguiu seguir-lhe as pisadas em tantas décadas. Em suma, Macau não foi capaz (não tem sido capaz) de gerar novos Rochas, atletas de qualidade incontestável, capazes de dar o passo rumo à internacionalização.
Fenómeno naturalmente associado a pequenos territórios, embora com variadíssimas exceções, como é o caso de Portugal, a questão ganha outra relevância quando se sabe que em Macau o problema não passa, obviamente, pela falta recursos financeiros. Há ainda o exemplo da China continental que tem sabido potenciar o desporto-rei e, pelo menos, atrair alguns elementos que acrescentam experiência e classe ao campeonato local. Mesmo em Hong Kong, aqui tão perto, o nível é muito superior.
Portugal sempre soube aproveitar jogadores das ex-colónias para as suas seleções, entre angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, guineenses, e, até, brasileiros. Mas em relação a Macau, a folha permanece pouco mais do que em branco. Por quê?
Foi isso que procurámos saber com a ajuda de três rostos da Região ligados ao desporto, e ao futebol em particular, que tentam, com algumas pistas, construir um quadro mais compreensível para esta questão.

HÁ TALENTO, FALTAM CONDIÇÕES

Bruno Álvares está no território há três anos e, de Portugal, trouxe a experiência acumulada ao serviço dos escalões de formação do Benfica. Está, por isso, habituado a detetar talentos precoces e garante que os há em Macau. O problema é mais profundo.
“Aqui não falta o dinheiro, mas falta o resto, para tornar o futebol mais atrativo. A primeira lacuna tem a ver com a logística. Os clubes não têm instalações próprias. Temos acesso aos mesmos campos para treinar que tem qualquer residente”, começa por apontar o jovem treinador do Benfica de Macau, atual líder da Liga de Elite.
“Depois, é uma questão de organização. Não se vislumbra, da parte dos órgãos competentes, como o próprio Governo, uma plano ou linha de orientação no sentido de desenvolver a modalidade, logo a partir dos mais jovens. Isso iria permitir que se jogasse com mais qualidade e ter campeonatos mais competitivos, para que, no topo da pirâmide, a seleção pudesse ter um desempenho diferente”, prossegue Bruno Álvares.
Mesmo assim, o treinador encarnado nota uma ligeira evolução nos últimos anos. “Há quatro ou cinco clubes que já conseguem competir pelo topo da tabela, enquanto antes bastava contratar quatro ou cinco estrangeiros, que jogariam sempre e nem era preciso treinar. Agora não. Treina-se, já há uma certa organização, e uma cultura de trabalho mais exigente. Alguns estrangeiros também vieram contribuir para isso”, explica.
Perante este cenário, percebe-se que não estejam reunidas condições para surgirem novos Rochas. «Eu até considero que há talentos. Não muitos, até porque não podemos esquecer que a base de recrutamento é pequena, mas há três ou quatro jogadores que, trabalhados convenientemente, podem atingir outro patamar», aponta o treinador do Benfica, dando o exemplo de Leong Ka Hanq, presentemente em Hong Kong, ao serviço do Tai Po.
“Apesar de todas as dificuldades, temos conseguido bons resultados perante equipas de Hong Kong, onde a diferença é brutal em termos de meios e de organização, por isso alguma qualidade tem de haver. Há matéria-prima, agora faltam medidas concretas da parte da administração ou da Associação de Futebol para dar condições de trabalho diário a estes jovens, mas também é preciso mudar mentalidades”, destaca o técnico.
A questão da mentalidade será, porventura, um dos principais obstáculos ao desenvolvimento da modalidade. «É uma pena pois trata-se de uma população que gosta de se sentir ativa, de praticar mais de uma modalidade, que acompanha os filhos, mas falta encarar o desporto numa vertente mais séria e competitiva. Não digo que se tenha de profissionalizar, mas, pelo menos, dar oportunidade a quem quiser de poder seguir essa via”, resume Bruno Álvares.

FUTEBOL INCAPAZ DE COMPETIR COM OUTROS EMPREGOS

Se, em muitos países, o futebol pode ser sinónimo de independência financeira, quiçá mesmo de fama e fortuna para os mais dotados, já em Macau a lógica está subvertida. Culpa, lá está, do nível de vida. “Um jovem, logo em início de vida ativa, dificilmente vai correr atrás de um sonho quando tem a possibilidade de trabalhar no setor público, num casino ou num banco, onde pode receber mais e levar uma vida desafogada”, aponta o técnico encarnado.
Do presente para o passado, as ideias não diferem muito. Francisco Manhão, antigo jogador, e, até há pouco tempo, responsável pelo núcleo de veteranos, identifica, até, outros nomes que fizeram história em Macau antes e depois de Rocha – como foi o caso de Joaquim Pacheco que estava, aliás, no Sporting, em 1954, quando o conterrâneo lá chegou.
“António Serro também foi, na altura, um grande futebolista. Mas houve outros, como o Francisco Cunha, ou o João Maria Rocha e Mário Costa Alberto, que chegaram a ser convidados pelo Belenenses, mas rejeitaram”, enumera Manhão, atribuindo a uma “mudança de estilo de vida” da juventude a explicação para que, entretanto, essa capacidade de gerar talentos se tenha perdido.
“O Eduardo Jesus Júnior, nos anos 70, deverá ter sido o último. Neste caso, também por via do hóquei em campo que foi uma modalidade muito querida aqui. Os jovens praticavam uma modalidade ou a outra, às vezes até as duas. Entretanto, começou a haver mais atividades e as pessoas foram-se dispersando”, aponta.
Outro exemplo de alguém que leva uma vida dedicada ao desporto na Região é Alberto Carvalhal. Na linha de Bruno Álvares, aponta alguns caminhos que poderiam ser seguidos para revitalizar o futebol. “Além da falta crónica de campos, não há incentivos da parte do Governo para fazer escolinhas como deve ser”, refere, acreditando que é nos mais novos que se deve centrar a aposta: “Tem de haver mais apoio, mais condições para os miúdos, com pessoas a tempo inteiro e, se for preciso, até a um nível profissional. Há um campeonato de juniores, mas competição de juvenis vê-se muito pouco, por exemplo. Devia de fazer-se esse trabalho para que, ao chegarem a seniores, possam ter já um certo traquejo.”
Todo este estado de coisas acaba por levar a que alguns valores sejam descobertos tardiamente. «Aparecem miúdos interessantes, a quem faltou um trabalho de base prévio, mas poderiam ser melhores aproveitados. Precisam, depois, de ter a devida continuidade e também lhes acontece irem para um futebol diferente, sítios onde a língua é uma barreira, no caso de jogadores chineses, e acabam invariavelmente por se perder», conclui.

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