GABRIEL O PENSADOR, ALMA DE RAPPER, VOZ DE LUTADOR - Plataforma Media

GABRIEL O PENSADOR, ALMA DE RAPPER, VOZ DE LUTADOR

Depois de um concerto em Macau no último fim-de-semana, o músico comentou a atual contestação no seu país, um Brasil cada vez mais dividido. Há “uma cultura de desrespeito ao cidadão por parte dos políticos que a gente não aguenta mais”, diz.

Carioca de gema, Gabriel o Pensador nasceu Gabriel Contino. A escola ensinou-o a ler e a escrever e isso bastou para que versos e histórias começassem a sair da sua imaginação de miúdo pequeno para o papel, e daí para as primeiras canções. Mais tarde, já com vários discos gravados, chegaram os livros.
Em Macau para participar no festival literário Rota das Letras, o músico brasileiro falou à Plataforma logo a seguir ao concerto que o colocou no mesmo palco do Cotai Arena por onde passaram a banda macaense Blademark e o grupo LMC, de Hong Kong. E para começar, falou-se precisamente desse percurso que nasceu com a escrita, a história que se conta em “Linhas Tortas”, no último álbum do Pensador (Sem Crise). “Tudo começou com o gosto de escrever, o gosto pela palavra. Depois descobri a música e gostava de vários estilos, mas quando tinha letras mais faladas eu gostava mais. Foi por isso que o rap chamou minha atenção. E assim começou, na adolescência, quando resolvi levar isto a sério. Tive o sonho de gravar um discoe deu certo. Depois vieram os livros, quando encontrei alguns textos que já tinha escrito e pensei que os meus fãs poderiam gostar de ler.”
Em 1992, gravou a maquete com a canção “Tô Feliz (matei o presidente)”, que lhe valeu um contrato com a Sony Music e o desagrado de Fernando Collor de Mello, presidente do Brasil na época. Apesar da proibição de passar nas rádios, a música tornou-se um hino e Gabriel Contino transformou-se em Pensador. No ano seguinte, grava o seu primeiro álbum, homónimo, e inicia uma carreira com milhões de discos vendidos. Em mais de vinte anos de carreira, Gabriel o Pensador assistiu a muitas mudanças na política e na sociedade brasileiras, sempre integrando essa realidade no seu trabalho. “É difícil. A gente tem fases em que parece que a esperança de ver mudanças mais concretas diminui. O Brasil teve uma ditadura que foi bem violenta, depois passou para a democracia, e pelo meio houve muitas decepções com os políticos eleitos. Quase todos têm casos de corrupção e os governos não inspiram muita confiança no povo, então, é bem decepcionante. Eu vejo com bons olhos as pessoas indo para as ruas, voltando a se manifestar, a tentar demonstrar força, como povo. Fiz uma música há menos de uma semana, que lancei no domingo, chamada “Chega” que fala um pouco sobre isso. Foi colocada na internet e nestes seis dias já teve mais de trinta milhões de visualizações, foi uma coisa bem viral, as pessoas estão realmente necessitando dizer chega. Eu tentei deixar bem claro que, do meu ponto de vista, não é uma crítica simplesmente contra um partido, contra um Governo, mas é uma cultura de desrespeito ao cidadão por parte dos políticos que a gente não aguenta mais.” Quando questionado sobre o apoio a Dilma Rousseff, candidata do Partido dos trabalhadores que se tornou a primeira mulher a presidir ao governo do Brasil, em 2011, Gabriel nega. “Eusempre tenho o cuidado de me manter neutro. Às vezes, nalguma entrevista, posso ter falado um elogio em relação a alguma proposta, mas nunca fui apoiante. Já aprendi que não dá para misturar a minha imagem com a imagem de políticos ou partidos. As pessoas marcam muito isso, seja um elogio ou uma crítica, e associam-te logo àquele partido.” Ainda que não tenha apoiado Dilma, há desilusão no modo como olha para a política brasileira? “Eu evito colocar as coisas assim porque depois isso é replicado e as pessoas tiram do contexto. Tento deixar bem claro que o descontentamento é muito antigo e continua, porque são escândalos muito impressionantes. Acho que devemos cobrar o fim da impunidade independentemente de qualquer bandeira de partido político. Há problemas que são gravíssimos, pessoas sem atendimento no hospital, escolas sem condições, tudo coisas que são desnecessárias. O Brasil tem muita riqueza e esses problemas só existem porque o dinheiro vai para a mão dos corruptos. É muito dinheiro desviado, muito roubo em cada obra, em cada construção, em cada buraco na estrada. E aí só falta dinheiro por isso, porque o Brasil tem muita gente pagando imposto, tem muitas riquezas, e agora está tudo muito flagrante.”
Nos últimos dois anos, com o Mundial de Futebol a mobilizar milhões de reais para a construção de estádios e os Jogos Olímpicos de 2016 a serem preparados, o Brasil tem assistido a um processo de grande turbulência. Nos gabinetes ministeriais, alguns escândalos de corrupção, nas ruas, manifestações populares de grande dimensão, contestando o investimento público nos desportivos e a falta desse mesmo investimento em direitos básicos. Sobre isso, Gabriel o Pensador é peremptório: “Eu fico envergonhado. A gente gostaria de ver notícias boas falando sobre o Brasil, anunciando melhoras, avanços, mas acho que não dá para esconder os problemas. Eu sou um cara que sempre falou abertamente sobre os problemas e isso hoje chega na mesma hora para o mundo inteiro e as pessoas nas ruas chamam muito a atenção. É bom que essas coisas cheguem aos media internacionais, que se veja que existe uma insatisfação.Quando a voz da opinião pública começa a causar problemas, talvez eles escutem mais os anseios do povo. E quando digo povo não é apenas o povo pobre, é todo o mundo que tem suas reivindicações. Quando o barulho fica mais alto, os índices de avaliação do país caem, as agências internacionais interferem, aí já começa a virar um problema e talvez eles vejam que têm de mudar um pouco mais.”
Autor de canções que se transformaram em hinos de protesto, de “Lavagem cerebral” a “Eu queria um Ferrari amarelo”, Gabriel o Pensador não finge desconhecer o poder que as suas letras têm enquanto mensagem social. “Aprendi a entender o alcance das mensagens. Já sabia disso como ouvinte de música, de Bob Marley a Public Enemy. Sabia que as letras das músicas que eu ouvia mexiam comigo, me ajudavam a formar a minha maneira de pensar, desde garoto. Então é realmente intencional que as músicas mexam com as pessoas, que as letras e a interpretação, os instrumentos, que tudo isso tenha um efeito nas pessoas que escutam.” Em Macau, o efeito mais visível deste esforço foi o de juntar públicos de diferentes origens numa festa que durou todo o concerto. O público dos LMF, maioritariamente de origem chinesa, não deixou que a barreira da língua impedisse a celebração e o Pensador foi alternando o português com o inglês, de modo a fazer-se compreender. No final, foi em cantonês que agradeceu, com um sonoro doh je.

Sara Figueiredo Costa

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