“QUERO SER ÚTIL A UMA SOCIEDADE ONDE TIVE OPORTUNIDADE DE ME AFIRMAR” - Plataforma Media

“QUERO SER ÚTIL A UMA SOCIEDADE ONDE TIVE OPORTUNIDADE DE ME AFIRMAR”

 

Oito peixes nadam de um lado para o outro num grande aquário na sala de reuniões do advogado Rui Cunha. O número pode não ser um acaso: na China, o oito é sinal de prosperidade e o peixe de abundância.

“Quando chegamos ao fim da vida, começamos a pensar que já temos desafogo suficiente e não há nada como partilhar”, diz em entrevista ao Plataforma Macau o sócio principal do escritório de advogados C&C, que esteve na génese da Fundação Rui Cunha. O organismo foi criado em 2012 para dar apoio ao Centro de Reflexão, Estudo e Difusão do Direito de Macau (CRED-DM) e tem apadrinhado vários artistas locais na organização de eventos e exposições.

A ligação à cultura vem de há muito e de longe. Rui Cunha nasceu em Bombaim, em 1941, no seio de uma família de Damão, quando “ainda se ouviam os tiros da guerra”. Talvez por isso “seja um pacífico por natureza”.

Em Lisboa, estudou Direito, começou o curso de Cinema e trabalhou como assistente de realização na televisão pública portuguesa. Nesse início dos anos 1960, terminava o domínio português na Índia. “Nunca mais pude receber ajuda da família, tive de me aguentar e valeu o curso de Cinema, que permitiu que entrasse na televisão”.

Foi a paixão pelo Cinema que contribuiu para essa vontade de ajudar a cultura em Macau. E não só. “Aquilo que tenho feito não é mais do que uma retribuição à sociedade que me ajudou a ter o bem estar que tenho hoje”.

PLATAFORMA MACAU – Além de dar apoio ao Centro de Reflexão, Estudo e Difusão do Direito de Macau, a Fundação Rui Cunha tem vindo a prestar um forte contributo para a divulgação da cultura de Macau. Considera-se um mecenas da cultura?

RUI CUNHA – Não vejo as coisas dessa forma. A ideia do mecenato está ligada ao pagamento de impostos, ou seja, quem tem muito dinheiro, em vez de estar a pagar impostos, deduz essa parte do seu rendimento [para contribuir para a cultura]. Porque essa palavra ficou tão associada a uma forma de se livrar do pagamento de impostos, eu não gostaria de ser identificado dessa forma. Nunca fui e não considero que toda a atividade e qualquer contribuição que tenha dado seja considerado mecenato.

 

P.M. – Mas pensando talvez na origem deste termo: alguém que contribua, incentive e patrocine atividades culturais, ganhando algum prestígio e reconhecimento na sociedade onde se insere. 

R.C. – No fundo, aquilo que tenho feito não é mais do que uma retribuição à sociedade que me ajudou a ter o bem-estar que tenho hoje. É uma forma de procurar ajudar.

Em Macau, pela dimensão desta sociedade e do mercado, é difícil a sobrevivência de um poeta, de um músico ou de um artista. É muito difícil que estes consigam ultrapassar barreiras até serem conhecidos. Contam-se pelos dedos da mão os artistas de Macau com alguma projeção.

A cidade não proporciona aos mais novos um acesso imediato à notoriedade nem permite que se sustentem vivendo da profissão. Foi também com base nesse aspeto que nasceu a fundação. Foi criada essencialmente para o estudo de Direito, mas abriu-se para outros campos de forma a permitir que mais pessoas tivessem acesso a uma certa exposição pública. Tem dado resultado no campo artístico, quer da música ou na divulgação de obras que não sejam estritamente de Direito.

 

P.M. – E de que forma apoia estas pessoas?

R.C. – A cedência do espaço e as exposições são sempre gratuitas. Em troca disso, exigimos que não sejam feitas vendas durante a exposição. É permitido negociar com o artista, mas apenas após a apresentação pública para que não haja qualquer ideia de que a galeria aufere uma percentagem. Portanto, a organização de quaisquer organizações de caráter musical, como sessões de jazz, de canto e de piano são gratuitas. Muitas vezes estes eventos são realizados em colaboração com associações de Macau e que não disponham de um lugar para levar a cabo as suas iniciativas.

Também damos apoio na montagem das exposições e, por vezes, fazemos os catálogos. Temos um orçamento rigoroso e procuramos cumprir esse orçamento, que é totalmente transparente.

P.M. – Esse financiamento vem da sua própria atividade profissional?

R.C. – Temos um fundo inicial dotado por mim de 30 milhões de patacas. Em 2015 e 2016 serão adicionadas 10 milhões de patacas anualmente, totalizando um fundo de 50 milhões, que praticamente está intacto. A ideia é preservar o capital.

Além disso, assumi o compromisso de dar mensalmente um contributo vindo da minha atividade profissional. É desta forma que este espaço se gere. Estou aberto a receber contribuições, mas até hoje nunca pedimos um avo.

 

P.M. – A fundação não recebe ajuda de fora?

R.C. – Até hoje não, mas serão bem vindos todos aqueles que comungam dos mesmos objetivos. Não pedimos contributo à administração ou à Fundação Macau porque não queremos seguir o hábito um pouco generalizado de associações, fundações e instituições, que pedem grandes [somas] e vivem dos subsídios que recebem. A fundação não precisa e não segue esse caminho.

 

P.M. – Os casinos têm contribuído no patrocínio das atividades culturais do território? Stanley Ho, por exemplo, teve um papel importante neste aspeto.

R.C. – Sim, o Stanley deu e contribuiu muito e se calhar foi com ele que aprendi que não devemos apenas ganhar, mas pagar alguma coisa à sociedade. Ele fez e ajudou imenso. O Macau de hoje deve-se a ele que ao longo de 40 anos foi pautando por essa ajuda.

Mas, a maior parte das pessoas ainda tem outra ótica. Estou a pensar nas galerias que abrem em Macau e que estão mais vocacionadas para tirar algum proveito dessa atividade. Não é simplesmente pelo amor à arte.

 

P.M. – Essa falta de apoios reflete a importância que se dá à cultura em Macau?

R.C. – Penso que sim. Se estive na génese da criação da fundação, não fazia sentido criá-la para que depois fosse dependente de contribuições.

Logo à partida quis que tivesse meios suficientes para ir fazendo o pouco que faz. Daí também não darmos muitas bolsas. As nossas contribuições são devidamente analisadas, trabalhamos mais em atos do que propriamente na atribuição de subsídios. Nós recebemos muitos pedidos de subsídios até para estudo. Podemos contribuir pontualmente para o aperfeiçoamento de uma atividade se um músico tiver oportunidade para o fazer e não tiver condições para ir para Hong Kong, Singapura ou Estados Unidos. Contribuímos se verificarmos que é útil a Macau, mas não é a nossa função.

 

P.M. – Têm feito isso?

R.C. – Sim, dou o exemplo de uma pianista de Zhuhai, cega à nascença, que esteve cá algumas vezes e recebeu um convite para atuar em Moscovo, mas não tinha condições para o fazer. Nós contribuímos para a despesa da deslocação, foi um sucesso e o que nos agradou é que foi novamente convidada para lá ir. Por vezes é assim que temos ocasião de lançar alguns artistas.

Temos um outro caso mais sintomático. O primeiro artista que expôs cá, Alan Wong, foi convidado passados uns meses para fazer uma exposição em Paris no Museu Charles de Gaulle.

 

P.M. – Apostam sobretudo em pessoas de Macau? 

R.C. – Sim. Há um outro aspeto que consideramos: pessoas de Macau que estão fora de Macau. Às vezes lia nos jornais que um artista de Macau estava a fazer sucesso como realizador na Austrália ou em Hollywood. Fazia-me alguma confusão porque em Macau não temos escolas de formação de cinema e, portanto, são pessoas que, com o esforço da família ou com o seu próprio esforço deram o salto e conseguiram singrar.

Posso citar um dos vários casos: Canal Cheong Jagerroos é uma artista natural de Macau que vive na Finlândia e que um dia entrou aqui na galeria para perguntar o que era necessário fazer para poder expor aqui.

A Canal participou na Bienal de Veneza, expôs em Berlim, Nova Iorque, Bruxelas, tudo quando é sítio no mundo do mercado de arte. Portanto, uma pessoa famosa e que era desconhecida aqui. Nós abrimos a porta. Queríamos que servisse de exemplo para os outros.

Em troca da gratuitidade da exposição, os artistas assumem também o compromisso de fazerem workshops com escolas ou com grupos específicos.

 

P.M. – Por que acha que existe essa dificuldade em evoluir artisticamente em Macau?

R.C. – Macau é um meio relativamente pequeno, não ajuda a que um artista possa ganhar uma certa projeção, tem de ser alguém já muito especial.

A artista de que falei foi também uma exceção porque, em regra, não apostamos nos artistas consagrados, mas em alguém que ainda procura evoluir.

Esta é uma galeria muito simples que serve de degrau para ajudar os artistas a se mostrarem.

 

DO CIMEMA PARA O DIREITO

P.M. – Por que razão decidiu apostar na cultura? 

R.C. – Quando chegamos ao fim da vida, começamos a pensar que já temos desafogo suficiente e não há nada como partilhar.

Embora não muito ativamente, estou ligado à cultura desde que fui profissional de televisão. Nos anos 60, trabalhei na RTP cinco anos quando a televisão portuguesa estava no início. Fui assistente de realização, derivado de um curso de Cinema que fiz.

Completei dois anos deste curso e depois recebi uma bolsa da Gulbenkian para terminar o curso em Paris. Mas como estava no quinto ano de Direito optei pelo seguro. Gostava de ter continuado, mas abdiquei dessa bolsa.

 

P.M. – Não se arrepende? 

R.C. – Não, se me daria um certo conforto espiritual, estou certo que os sacrifícios que teria de fazer seriam muitos. Eu sou da geração do cinema, do tempo de Cunha Telles e fiz parte das equipas do célebre filme do Paulo Rocha, Os Verdes Anos.

Acabei o curso de Direito graças à televisão porque era com o que ganhava que me mantinha em Lisboa.

Em 1961/62, quando se dá anexação da Índia, nunca mais pude receber ajuda da família nem da bolsa, tive de me aguentar e valeu o curso de cinema, que permitiu que entrasse na televisão.

Entretanto fiz a promessa de não pegar mais numa câmara durante oito anos. Completei o curso, entrei para a carreira de magistratura, fui subdelegado na Boa Hora, em Lisboa, e delegado na Lourinhã. Depois vim para o então Ultramar, estive quatro anos em Moçambique, onde fui magistrado do Ministério Publico em Inhambane, Nampula e Lourenço Marques (atual Maputo). Também fui procurador em Timor e juiz em Angola.

 

P.M. – E passados os oito anos voltou a pegar na máquina?  

M.C. – Peguei em Moçâmedes (atual Namibe), quando era juiz e tinha mais tempo. Na viagem de barco que fiz de Lisboa para Angola, conheci um casal de farmacêuticos. Ele ía para Moçâmedes dirigir uma farmácia e também era um fanático da fotografia. Somos amigos até hoje. Transformámos uma das casas de banho dele em câmara escura e começámos a fazer fotografia no sul de Angola. Mandei vir de Hong Kong material de fotografia, concorremos a alguns concursos e atá ganhei duas menções honrosas. Nessa altura recolhi material em filme dos Mucubais (etnia angolana) no sul de Angola. Tudo isso está em Lisboa e um dia ainda vou mexer nisso.

Entretanto fui para Lisboa, onde estive cerca de seis anos e depois então vim para Macau, já lá vão 33 anos.

Agora pensei: por que não aplicar a minha experiência aqui em Macau? Mas não gostaria de ser considerado um mecenas. Ajudo e faço-o porque quero ser útil a uma sociedade onde tive oportunidade de me afirmar e de crescer profissionalmente.

 

Catarina Domingues

 

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