QUIOSQUES DIGITAIS TROCAM BITCOINS POR DINHEIRO VIVO - Plataforma Media

QUIOSQUES DIGITAIS TROCAM BITCOINS POR DINHEIRO VIVO

 

Não pode ser publicitado como moeda, nem difundido com ativo financeiro. As autoridades hesitam na regulação do bitcoin, implicitamente aceite como matéria-prima transacionável, tal e qual como acontece com o ouro, o petróleo ou o aço. Não sendo proibido, também não é regulado. A “moeda digital” ganha espaço nessa zona cinzenta, um pouco por todo o mundo, apenas enquadrada pelos princípios gerais do código penal, em casos de fraude, burla, ou outros crimes como lavagem de dinheiro ou fuga ao fisco. Mas o bitcoin salta agora para fora do espaço digital, que limitava a sua credibilidade e afirmação, para ser trocado por notas, em poucos segundos, em máquinas que começam a ser espalhadas em Hong Kong, Macau e China. Parecem postos de ATM; chamam-se quiosques, para evitar a confusão.

 

As operações de compra e venda duram apenas alguns segundos. Os quiosques digitais trocam dólares de Hong Kong por bitcoins ou bitcoins por notas frescas. O valor, flutuante, parece agora estabilizar à volta dos 0,366 dólares norte-americanos por bitcoin. A primeira máquina surgiu no Canadá, em 2011, dando novo impulso a uma “moeda” cuja utilização já foi explicitamente autorizada pelo governo chinês – desde que os bancos não se metam nisso – é reconhecida por consultoras internacionais como a Merilyn Lynch e implicitamente permitida por estados que, não regulando nem taxando as transações, também não decretam a sua ilegalidade. Muitos acreditam que o futuro está no bitcoin, não só pela facilidade e liberdade das transações, mas também porque se multiplicam “apps” e sistemas de pagamentos que permitem pagar com bitcoins o café, o bilhete de avião ou as compras em lojas e nos supermercados. Os quiosques digitais chegaram a Hong Kong em abril; em maio já estavam em Macau, onde o seu promotor ambiciona espalhá-las por toda a cidade.

A BitcoinNect, empresa com sede em Hong Kong, lançou os quiosques digitais em Hong Kong, seguindo a estratégia de adjudicar o negócio a representantes que os espalhem também em Macau e no resto da China. O diretor executivo, Jason Leung, conta como tudo começou, há pouco mais de seis meses: “Tive esta ideia ao verificar as dificuldades que uma amiga minha tinha em enviar dinheiro para uma filha que está no Canadá, enfrentando uma série de restrições que incluem um teto máximo para cada transferência. Percebi que com bitcoins o processo era livre, fácil e sem limites, pelo que decidi estudar melhor o negócio. Foi quando descobri estas máquinas, às quais chamamos quiosques – para não confundir com as ATM – que garantem a toda a gente o acesso à compra e venda de bitcoins.”

A apetência do mercado, diz Jason Leung, “excede todas as expectativas”. O plano de negócios da BitcoinNect previa a venda de uma máquina por mês, mas em pouco mais de seis meses já há 10 máquinas a operarem em Hong Kong (4), Macau (4) e China (1 em Shenzen e outra em Zongshan), com pelo menos mais dez encomendadas para 2015. “Temos um acordo de confidencialidade e não queremos revelar os montantes médios transacionados por máquina”, ressalva Jason Leung, adiantando contudo que “o negócio cresce à medida que o mercado conhece as máquinas”, através das quais a operação “é tão rápida e eficaz que cada vez mais pessoas fazem mais transações “. Por outro lado, explica, os quiosques digitais vieram resolver um problema de credibilidade e confiança numa “moeda” que antes era apenas transacionável em ambiente digital, o que tornava mais difícil a sua conversão em dinheiro.

“Agora as pessoas podem facilmente trocar bitcoins por dinheiro, 24 horas por dia. É dinheiro real”, resume Jason Leung.

 

OPORTUNIDADE IMPARÁVEL

Matthew Ventura, representante em Macau da Crypto Currency Trading Group, investiu cerca de 125 mil dólares (1.000.000 MOP) na aquisição de quatro máquinas de bitcoins para Macau e uma quinta em Zongshan. Se o primeiro quiosque na China Continental “está ainda ser avaliado, porque não funciona sequer há um mês”, em Macau o negócio parece ir de vento em poupa: “O bitcoin pode ser literalmente omnipresente em Macau,dado o enorme fluxo de turistas que aqui precisam de dinheiro vivo. Muitas vezes vendem relógios ou joias nas lojas de penhores, perdendo 20 a 30 por cento na transação, mas o bitcoin corta dramaticamente essa perda”. E dá outro exemplo: “Pense na comunidade filipina, que utiliza o Western Union para transferir dinheiro para amigos e familiares no seu país natal. Embora as comissões sejam teoricamente baixas, verificados os câmbios utilizados as pessoas chegam a pagar taxas entre sete e dez por cento. Com o bitcoin pagam à volta dos dois por cento, bem menos de metade”. Por fim, exemplifica Matthew ventura, “se um amigo precisa de créditos telefónicos vamos a uma loja comprá-los; damos-lhe o código e ele gasta-os. Podemos fazer o mesmo num quiosque de bitcoins”.

Nesta altura, a estratégia passa sobretudo por espalhar os quiosques digitais: “Queremos ter mais e mais máquinas na Ásia. Estamos a entregá-las a um preço que não visa o lucro da venda mas sim a intenção de as colocar um pouco por todo o lado. Por um lado, quanto mais houverem mais se promove a utilização universal do bitcoin; por outro, há cada vez mais aplicações que permitem pagar transportes, compras ou restaurante com as bitcoins”, explica Jason Leung, que aguarda pelo “momento mágico” de um novo império monetário. “Poucos imaginam quão depressa vingam as novas tecnologias, especialmente em Hong Kong. Basta que uma estrela pop a use e o efeito pode ser verdadeiramente explosivo. Nesta altura estamos a divulgar o bitcoin e a tentar multiplicar as máquinas que o trocam por dinheiro. No fundo, preparamo-nos para o ponto mágico. Nunca se sabe quando ele chegará, mas pode ser já no próximo ano”, vaticina o diretor executivo da BitcoinNet.

Matthew Ventura arrenda espaços em lojas de Macau, onde coloca as máquinas. No futuro pensa em casinos e centros comerciais, mas para já diz que o negócio “está a correr muito bem” e que o volume de transações “cresce todos os meses”. Por isso espera ter “mais máquinas” já para o ano. “O mais interessante”, adianta, é que “estão a ser usadas por pessoas de todas as idades e por turistas com as mais diversas origens na China”. Quanto às reações da concorrência, sobretudo lojas de penhores, ourivesarias e outros negócios especializados em trocar produtos por dinheiro vivo, o representante da Crypto Currency Trading Group garante não sentir qualquer reação negativa: “Somos apenas mais uma opção para que os turistas desfrutem de Macau e dos seus luxos”.

 

VOLATIBILIDADE

Ao contrário dos mercados monetários tradicionais, o valor de compra e venda do bitcoin é o mesmo. Como qualquer outra matéria-prima transacionável, quem o compra pode perder ou ganhar valor com as circunstâncias da (des)valorização. Jason Leung responde a esta dúvida com uma pergunta: “Quanto pode perder quem não comprar bitcoins? No fundo, se tivermos dólares hong kong e não os investirmos, estamos a investir nessas moedas. Nós, por exemplo, acreditamos que o bitcoin é a moeda do futuro, razão pela qual é nisso que investimos”. Mais do que valor potencial de um investimento, Matthew Ventura realça o papel do bitcoin, que “devolve o poder e a liberdade financeira às pessoas”. A propósito, lembra que “se alguém quiser vender algo a outrem, imagine-se em a África, mesmo online muitas vezes tem de revelar o número do bilhete de identidade ou da segurança social”. Já com o bitcoin “pode fazê-lo instantaneamente, sem esse tipo de controlo”.

Um bitcoin chegou a valer 1.000 dólares norte-americanos, tendo ultimamente estabilizado em torno dos 366 USD. Segundo Jason Leung, a volatilidade terminará depois  deste “ciclo inicial “, defendendo que “à medida que utilização do bitcoin for mais frequente, nos restaurantes, nas lojas e em todo o lado, o seu valor tende a estabilizar. Já não se trata apenas de investimento ou de especulação, mas sim de uma nova moeda para o consumo no dia-a-dia”, conclui.

“Para ser tecnicamente correto, ninguém é dono dos bitcoins”, explica Matthew Ventura. As pessoas investem numa moeda que é regulada de forma transparente na plataforma digital Blockchain. A informação é pública e lá estão registadas todas as transações jamais efetuadas. Por outro lado, a introdução de bitcoins no mercado está fixada ao ritmo de 25 a cada dez minutos, sendo claro para todos que em poucos anos essa frequência será reduzida a cerca de metade. Dessa forma defende-se o valor do bitcoin, de forma previsível, transparente e no longo prazo; o que é uma grande vantagem em relação às políticas monetárias e financeiras dos governos nacionais”, sustenta.

 

Paulo Rego

 

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