Rui Baltazar (editado)/ Moçambique * - NO 50.˚ ANIVERSÁRIO DO LIVRO NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO - Plataforma Media

Rui Baltazar (editado)/ Moçambique * – NO 50.˚ ANIVERSÁRIO DO LIVRO NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO

 

O único livro de Luís Bernardo Honwana, e um dos mais importantes livros de África, fez 50 anos, aqui evocados por Rui Baltazar.

 

Poucas pessoas poderão talvez reconstituir o que era Moçambique em 1964. Mas podem tentar viajar no tempo e, assim, imaginar o que seriam as suas paisagens físicas e humanas nessa altura, que bizarras e insólitas sociedades eram aquelas, como se estruturavam e funcionavam, e estranhar como não era tão claramente previsível o desfecho histórico em que tudo aquilo iria desaguar.

A revisitação desse passado de pesadelo resultará muito mais fácil se lerem com cuidado e muita atenção cada uma das histórias que compõem  o “Nós matámos o Cão Tinhoso”. Para mim, esta obra ilustra, simultaneamente, dois milagres: por um lado, que ela tenha sido escrita por um genial jovem moçambicano naquele ano de 1964 e então publicada, o que caiu, como diria o personagem Quim do Cão Tinhoso, como uma bomba atómica na sonolenta sociedade colonial; que ela se tenha logo tornado um marco de referência da literatura moçambicana e africana, e que a sua perenidade ficasse tão solidamente assegurada, que estamos aqui, passados cinquenta anos, a celebrá-la.

Por isso. atrevo-me a dizer, sem receio de escandalizar ilustres académicos neste ato presentes, que com um pequeno (em volume) livro, o Luís passou a representar, ressalvados os contextos bem diferentes, para a literatura moçambicana o que Cervantes representa para a espanhola. Nós Matamos o Cão Tinhoso delimita claramente dois períodos da prosa moçambicana. Da poesia não falo agora, pois aí a conversa teria de ser outra. Antes desta obra é como se não existisse narrativa moçambicana, ou o que se produziu é de baixa intensidade e mediana qualidade. Depois do Cão Tinhoso, e após se ter dado a fermentação necessária, a novelística moçambicana haveria de ganhar novos fôlegos e alcançar patamares muito elevados de afirmação literária. Basta mencionar o Mia, o Ungulani, o Borges Coelho, a Paulina Chiziane, que todos são herdeiros tardios do Cão Tinhoso. Como foi possível que sete pequenos contos provocassem uma tão grande revolução cultural?

Citando apenas três autores da minha preferência e convívio mais frequente, diria que ao Thomas Mann bastar-lhe-ia ter escrito A Montanha Mágica, ao Hemingway O Velho e o Mar e ao Garcia Márquez Os  Amores nos Tempos de Cólera, para lhes conferir uma dimensão universal. Daí que não me aflija ou inquiete o facto de o Luís Honwana ter publicado apenas este livro de sete contos, e se calhar talvez nem todos sejam contos, pois com ele se consagrou logo um grande escritor.

A sua dimensão é tal que já outro autor, em lugar bem distante, nos brindou com um belíssimo conto inspirado no Cão Tinhoso. Fiquei a sabê-lo quando a mão amiga da Rita Chaves me enviou Nós choramos pelo Cão Tinhoso, do escritor angolano Ondjaki. O Cão Tinhoso realizou, assim, o que o mapa cor de rosa desconseguiu, saltando de um lado ao outro do continente, para ser recuperado pela escrita mágica de um irmão angolano que nos brindou com uma historia comovente, que não é mais do que a imaginada leitura do conto do Luís Honwana numa sala de aula.

Não me inquieta o silêncio a que nos castigou o Luís, mas tenho algumas suspeitas que esse silêncio possa ocultar algo, por motivos que vou partilhar convosco, embora cometendo uma indiscrição que não sei se ele me irá perdoar. Há várias décadas, quando já nascera o Cão Tinhoso, o Luís veio pedir-me que lhe emprestasse por uns dias uma casa de que na altura era dono na Namaacha, pois precisava de isolamento e algum recolhimento para poder escrever. Evidentemente que a Olga e eu logo lhe confiámos a casa e, no final da sua estadia, ali nos deslocámos. O Luís, com aquele excesso de boa educação e generosidade que é seu jeito de estar no mundo, propôs-se ler-nos pedaços do que estivera a escrever. Não porque tivesse que o fazer, mas apenas para compartilhar connosco o produto da sua estadia. E do que a minha memória registou depois de tantos anos transcorridos, foram pedaços de prosa da mais alta qualidade, na linha da escrita descarnada e da musicalidade metálica que caracteriza o Cão Tinhoso, literatura em estado puro, narração de pedaços de vida transformados em arte.

Como muitos de vós sabem, o poeta Fernando Pessoa pouca obra publi- cou em vida, mas produziu imenso, o que levou um intelectual luso que cito de memória a dizer que parece até que o homem não fez outra coisa na vida senão escrever. Ao morrer, o Fernando Pessoa deixou uma mala ou baú cheio de manuscritos, onde se continham muitos dos seus desassossegos, e que, qual tesouro de Ali Baba, permaneceram durante longo tempo desconhecidos até que, lenta e penosamente, foram sendo desvendados. Pois eu, com aquela recordação da Namaacha, desconfio que o Luís poderá ter um baú do género lá em casa. Se felizmente isto se vier a confirmar, e o Luís decidir proceder a novo e atualizado Inventário de Imóveis e Jacentes, mal consigo sequer imaginar as surpresas que de lá saltarão. Mas exista ou não baú, pouco importa. O que importa, sim, é que o Luís nunca desmereceu a celebridade que lhe deu o Cão Tinhoso.

Quem escreveu o Cão Tinhoso militou na clandestinidade, foi, desde muito jovem, um nacionalista convicto, sofreu, na prisão, todas as humilhações ignóbeis a que eram sujeitos os presos políticos, nunca atraiçoou as suas convicções e ideais, e é, por tudo isso e muito mais, um genuíno herói da luta de libertação nacional. Não se espantem que eu use a palavra genuíno que tão maltratada e conspurcada anda em utilizações abusivas por espíritos toscos e medíocres que nem sequer entendem os segredos da linguagem. É que eu só reconheço o poder de estigmatizar palavras a génios literários, como o fez Sartre, ao utilizar no título de uma das suas famosas peças de teatro a palavra respeitosa, que, a partir dessa sua utilização, passou a ter uma conotação injuriosa, quase a exorcizando e tornando inutilizável. O Luís Honwana é, sim, um genuíno herói da nossa cultura e da luta de libertação nacional, e eu não tenho qualquer dúvida ou hesitação em o declarar aqui, neste local que tanto prezo, por mais insignificante e destituído de efeitos que seja o meu testemunho.

Todos nós sabemos que há muita história recente de Moçambique por escrever, e que a fase pós-independência do nosso país foi marcada por uma tendência antagonizante, se é que não mesmo hostil, de certa intelectualidade, fruto de muitas frustrações e complexos acumulados, e que os efeitos dessa tendência até tocaram esta Instituição (Ndr: Universidade Eduardo Mondlane) e não deixaram ainda de se fazer sentir. Mais não direi porque tudo se há-de a seu tempo desvendar, com o decantar lento e seguro da história, que fará a depuração  das águas, purificando-as. E já que mencionei águas e estou a falar do Luís não posso deixar de aludir a que o autor do Cão Tinhoso navegou também pelos domínios da política, bem no centro do poder, que em nada o contaminou. Nisso foi mais o personagem que o autor; foi mais D. Quixote que Cervantes. Mas o ter saído desse convívio ou exercício do poder, sem mácula de corrupção ou vil bajulação, deveu-se à sua coerência com os ideais que sempre perfilhou e jamais aceitou trair, e torna o Luís Honwana um dos raros modelos da nossa sociedade, que pode e deve servir de inspiração às novas gerações, tão carentes de referências éticas e de exemplos vivos que possam seguir.

 

Intervenção editada feita na 

Universidade Eduardo Mondlane, nos 50 anos de Nós Matámos o Cão Tinhoso, que se assinalou a 1 de setembro 

 

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