Paulo Rego - 10 + 90 = FAZER - Plataforma Media

Paulo Rego – 10 + 90 = FAZER

 

Cito Xi Jinping, não porque representa o poder central ou a verdade absoluta, mas porque, de facto, projeta o pensamento vigente e enquadra aquilo que a liderança política espera das elites governantes, um pouco por todo o país, incluindo nas suas regiões autónomas: na governação, 10% é planeamento; 90% é implementação, sustenta o Presidente. A fórmula pode parecer simplista; será talvez falaciosa se não houver pensamento correto e de qualidade, multiplicando os erros na execução… Mas a forma como a questão é posta diz sobretudo muito sobre a análise que Xi Jinping faz das prioridades da governação e do ritmo a que pretende ver implantadas as reformas económicas e sociais.

Não haverá reformas políticas no curto prazo, já se sabe. As regras do jogo são as que são. Em cantinhos da China como Macau, onde as liberdades, direitos e garantias são excecionais em relação ao resto do país, primeiro importa preservar o atual estado evolutivo e pugnar pelo direito adquirido à diferença. O debate de ideias e a defesa de alternativas, sejam elas quais forem – mesmo as inexequíveis – fazem parte do pacote de conquistas do chamado segundo sistema. Podem estar fartos e cansados de ouvir os protestos, podem até desvalorizar o que eles representam – o que seria um erro – mas eles têm de ser permitidos, dentro do respeito pela ordem legal vigente. A começar pelos representantes do Estado e os agentes da Justiça, que são quem tem a primeira e maior responsabilidade no cumprimento da lei. A pressão abusiva sobre os opositores do regime põe em causa o próprio regime. A detenção dos organizadores do chamado referendo civil passou das marcas e recorreu a mecanismos de autoridade do Estado que devem ser refreados. Mas, de facto, a questão prioritária em Macau não é a da reforma política, mas antes a da reforma das suas políticas. Por um lado, no sentido da resolução dos grandes problemas da cidade: habitação, transportes, urbanismo, poluição, inflação, qualificação do ensino e do emprego, etc; por outro, projetando o crescimento de uma sociedade de serviços trilingue – chinês, português e inglês – capaz de crescer e de se afirmar no contexto das três grandes linhas estratégicas definidas e apadrinhadas por Pequim: ligação à Lusofonia, integração regional e diversificação económica.

Posto isto, temos Chefe do Executivo, legitimamente eleito de acordo com o sistema político existente, com os méritos que tem e com as críticas que merece o seu primeiro mandato. Parece consensual a tese de que o segundo mandato de Chui Sai On será bem mais complicado do que o anterior. Porque há problemas que se acumulam, agravados pela perceção de que não há capacidade de os resolver; como também há novas complexidades crescentes e incontornáveis numa cidade que continua em ritmo exponencial de desenvolvimento, muitas vezes sem regulação adequada, com fraca ou inexistente capacidade de previsão e de planeamento, circunstância que naturalmente resulta também na má execução – ou, pior ainda, na pura inação.

Não se pode baixar os braços perante o advento fatalista de mais e maiores problemas, aceitando-se à partida que a contestação social, económica e política possa ser cada vez maior. Chui Sai On deixou perpassar essa ideia em alguns momentos da campanha. E esse é talvez o seu maior desafio: encontrar a energia pessoal e coletiva para inverter esse sentimento, que se vai generalizando. Por muitos erros que se cometam – porque não há governos perfeitos – a tal “mudança”, prometida em campanha, passa pela real capacidade de planear – o que não é igual a multiplicar consultas públicas – bem como, de uma vez por todas, pela ambição de multiplicar o verbo fazer.

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