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“O QUE FOI ASSINADO NÃO FOI A PAZ”

 

Rafael Shikhani, historiador e analista político moçambicano, diz ao Plataforma Macau que a paz só acontecerá com a desmilitarização total da Renamo

 

O historiador e analista político moçambicano Rafael Shikhani defende que a assinatura do cessar-fogo em Moçambique não constitui uma paz definitiva, considerando que a sua“consolidação no país passa, necessariamente, pela desmilitarização da Renamo”, maior partido da oposição.

Passadas 74 rondas de negociações entre o Governo moçambicano e a Renamo, finalmente, foi assinada, na noite de domingo, em Maputo, a declaração de cessação das hostilidades no país. O memorando, que marca um cessar-fogo imediato, será visado em uma cerimónia pública, numa data ainda indeterminada, entre o chefe-Estado, Armando Guebuza, e o presidente da Renamo, Afonso Dhakhama.

O acordo, assinado pelo chefe da delegação do governo e ministro da Agricultura, José Pacheco, e pelo líder da delegação da Renamo, Saimone Macuiana, marca o término dos confrontos entre exército e a guerrilha armada da oposição, que resultaram em várias mortes na província de Sofala, centro do país, ao longo do troço que liga o norte ao sul de Moçambique.

O historiador e analista político, Rafael Shikhani, em declarações em Maputo ao Plataforma Macau, defendeu que a assinatura do acordo entre o governo e a oposição não significa a uma paz definitiva, na medida em que, mesmo ao abrigo de um acordo, se a Renamo não desmilitarizar o seu braço armado, o clima de instabilidade continuará em Moçambique.

“ Não foram assinados os acordos de paz. Na verdade, foi simplesmente assinado o fim das hostilidades. Há vários aspetos que devem, a partir de agora, ser observados. Por exemplo, o primeiro é desmilitarização do braço armado da Renamo. Para que se diga que o país está definitivamente em paz, a Renamo deve ser desmilitarizada”, disse.

Segundo Shikhani, Moçambique vive um clima de paz armada, desde 1992, data da assinatura dos acordos gerais de paz que deram término a guerra civil de 16 anos.

“Desde 1992, vivemos, 22 anos de uma paz armada, sem saber o que será de nós no futuro. Não existe em nenhum lugar do mundo um país com um partido político armado. Nós , durante esse tempo, tínhamos a paz mas não a estabilidade”, defendeu.

 

PAPEL DO GOVERNO NA MANUTENÇÃO DA PAZ

No entanto, apesar de ceticismo quanto ao futuro da paz em Moçambique, o analista saudou a atuação do Governo, destacando o seu papel na materialização do que já foi acordado.

“O Governo moçambicano teve uma atuação positiva na situação, desde a promulgação da Lei da Amnistia, a abertura para revisão da Lei Eleitoral entre outros aspetos. No entanto, é importante que a Renamo também assuma suas responsabilidades, transformando-se realmente num partido político”, afirmou.

Questionado sobre o facto do acordo ter sido alcançado às portas da eleições gerais em Moçambique, agendadas para outubro, o historiador disse que, apesar da paz interessar aos moçambicanos em geral, o principal beneficiário é o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, na medida em que as campanhas eleitorais começam em breve.

“ A paz interessa a todos, quem ganha é o país todo. Todos moçambicanos queriam que isto acabasse bem. No entanto, veja que o período da campanha eleitoral está próximo, aliás, a pré-campanha até já se iniciou, e o candidato da Renamo estava impossibilitado de participar se a situação continuasse como estava”.

 

Estêvão Azarias Chavisso, Maputo    

 

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