KAIPING, AS SENTINELAS ADORMECIDAS - Plataforma Media

KAIPING, AS SENTINELAS ADORMECIDAS

 

Na sequência de uma visita a Kaiping, província de Guangdong, famosa pelas suas habitações em forma de torres de vigia-fortaleza, desenvolvemos algumas reflexões sobre aspetos destas construções, enquadrando-se numa categoria arquitetónica única, razão suficiente para que, em 2007, a Unesco tenha integrado este conjunto de torres denominadas “ Diaolou e aldeias de Kaiping” na sua lista de património mundial.

 

Zili Cun situa-se na planície do rio Tanjiang na povoação de Tangkou, a 12 km da cidade de Kaiping. É uma área que compreende três aldeias: An´heli (‮&‬w‮)‬M‮(=‬), He´anli (‮&‬X‭ ‬‮&‬w‭ ‬‮(=‬) e Yong’anli (٪أ‮&‬w‮(=‬), sendo estas abertas, não muradas, aos campos, encaixadas nas planícies de aluvião, cruzamento de rios e afluentes, dando lugar a traçados de arrozais, lagos com flores de lótus e patos nas margens. É nesta paisagem de terreno fértil e plantas exuberantes que despontam as diaolou, significando literalmente “torres de pedra”.

Zili Cun, onde todas as famílias aqui residentes têm o apelido Fang (‮$‬و) compreende atualmente cerca de 70 moradores, tendo a maior parte emigrado (com maior incidência entre finais do séc. XIX e inícios do séc. XX) para países e territórios como os Estados Unidos, Canadá, Austrália, Singapura, Malásia, Indonésia, Fiji, Hong Kong e Macau. No início de 1920, muitos dos moradores voltaram para a aldeia para comprar terra e construir a sua própria casa no campo ou diaolou, se casarem e criarem uma família. Durante a Revolução Cultural, com a política de Reforma Agrária, muitos dos proprietários emigraram de novo para o estrangeiro. Por fim, ao longo da década de 1980, outros habitantes procuraram melhores condições de vida nas zonas económicas especiais da província de Guangdong.

Espalhando-se por uma vasta extensão em torno de Kaiping, as diaolou resultam do retorno destes camponeses emigrados, da sua vontade de incorporar estilos arquitetónicos europeus, mostrando o seu eclectismo e fortuna, mas também resultado da necessidade de uma construção sólida que resistisse não só aos saqueadores frequentes daquele tempo, como também às habituais cheias.

 

Kaiping Tower-perspective-2TORRES ESBELTAS

Existem, atualmente, 92 edifícios residenciais dentro do limite de Zili Cun, incluindo nove Diaolou defensivas e seis mansões. As diaolou apresentam-se como volumes paralelopipédicos com cinco a seis pisos, replicados numa espécie de marca de reconhecimento destes indivíduos enriquecidos, denunciando igualmente uma certa competição entre os demais pelo emprego de diferentes elementos decorativos e arquitetónicos de gosto ocidental. São torres que procuram uma certa esbelteza, porém, impossível, uma vez encerradas na sua armadura defensiva, sua função primitiva. Encontramo-nos perante uma família de construções com uma tipologia própria denominada zhulou, em contraponto a outras tipologias construtivas.

No seu artigo “As Torres de Kaiping”, a nossa colega arquiteta Cristina Veríssimo identifica ainda mais dois grupos de torres: Torres de vigia, denglou e torres comunais zhonglou. As torres de vigia, colocadas em posição estratégica tinham o propósito de soar o alarme em caso de ataque de forasteiros, compreendendo sempre alguém de atalaia, enquanto as torres comunais são construções maciças, existentes desde o séc. XV, e suficientemente grandes para albergar várias famílias em aposentos próprios. Tanto estas torres comunais como as torres de vigia eram construídas com o subsídio ou mão-de-obra da própria população.

 

VITRAIS ITALIANOS E RELÓGIO ALEMÃO

As diaolou nas aldeias de Zili Cun são essencialmente habitações privadas e refletem bem a diferença entre as casas da aldeia que ladeiam as torres, não só na escala mas também nos materiais e organização espacial.

Que inovações foram operadas no surgimento destas tipologias construtivas? Tomamos a diaolou Ming Shi Lou (؛ت٪‮[<‬س) como referência para, comparativamente, identificarmos uma norma que seja transversal a esta tipologia. Ming Shi Lou foi construída por Fang Run Wen (‮$‬و‮<‬ٍ‮$‬م), (1887-1936), emigrante em Chicago desde 1920 que prosperou rapidamente com um restaurante e, mais tarde, com outros negócios. Deu início à construção da sua Diaolou em outubro de 1925, tendo demorado exatamente dois anos a ser erguida.

A entrada faz-se através de um pátio ladeado por um edificio secundário destinado a utensílios da lavoura e cozinha para criados. A entrada da casa principal ou torre faz-se a partir duma plataforma elevada onde se acede ao piso de entrada dedicado à receção de convidados ou encontros sociais. Fotografias de grandes dimensões do proprietário, sua mulher e suas duas concubinas, colocadas lado a lado, são o cartão de apresentação e boas vindas dispostas no salão central entre mobiliário do estilo Lingnan, painéis com cerâmica embutida, vitrais italianos coloridos e um relógio de pêndulo alemão. (ver planta piso 1). Fang Run Wen nunca chegou a habitar a casa em permanência, pois quando faleceu ainda se encontrava emigrado, contudo a sua mulher e suas concubinas vieram para aqui residir.

A torre é constituída por cinco pisos e terraço, medindo aproximadamente 23 metros de altura. No pisos superiores e até ao quarto piso, a organização mantém-se constante, onde cada piso compreende praticamente um fogo autónomo: Uma sala central para onde dão todas as outras divisões: cozinha, quartos pequenos e um quarto maior, podendo ser destinado cada piso a um a uma pessoa de forma independente ou mesmo a um núcleo familiar, cada andar com uma área útil aproximada de 85 m2. (ver planta piso tipo). É possível observar o mobiliário original e peças trazidas dos EUA tais como um fonógrafo, serviço de chá de prata, frasco de perfume francês ou uma caixa de jóias de porcelana Ming.

 

SETEIRAS E GUARITAS

O quinto piso é, simultaneamente, o andar onde se revela o caráter mais defensivo desta diaolou e o espaço de culto reservado aos antepassados. Implantado na zona central da casa, o altar de madeira trabalhada orienta-se a sul. Das divisões laterais acede-se a duas guaritas circulares implantadas nos vértices do edifício, espaços completamente fechados com seteiras permitindo atingir o inimigo e mantendo a segurança (ver planta piso 5). Por outro lado, metade do andar é ocupado por uma varanda coberta com uma colunata de capitéis jónicos, percorrendo toda a sua periferia e oferecendo ainda nos vértices opostos duas varandas circulares preparadas com seteiras no pavimento, mostrando aqui também a preocupação defensiva.

O último piso é o terraço que oferece uma vista admirável em torno, existindo um pavilhão hexagonal numa mistura de um telhado tradicional chinês com arcada de capitéis jónicos.

 

INFLUÊNCIAS PORTUGUESAS DE MACAU

Desde já podemos identificar um conjunto de aspetos comuns às várias torres habitacionais zhulou presentes na vila. O primeiro é a orientação a sul da fachada principal e portanto da entrada, revelando uma prática que remonta às primitivas habitações chinesas e tendência durante a dinastia Ming. As vantagens prendem-se com a proteção aos ventos de norte e uma exposição solar franca a sul.

Em segundo lugar, as zhulou assentam num embasamento periférico com altura até metro e meio. Este plinto eleva toda a torre protejendo assim o piso térreo de inundações imediatas.

Em terceiro lugar, e cumprindo mais uma vez a sua função de defesa, encontramos janelas relativamente estreitas, providas de portadas de ferro, mantendo contudo um número suficiente de vãos que permita a existência de boas condições de ventilação, luz e vistas. Exteriormente denota-se uma colecção de diferentes estilos de elementos arquitetónicos que percorrem épocas variadas, desde a colunata grega aos arcos quebrados do gótico europeu medieval, passando pelo arco de estilo islâmico, cúpulas barrocas, varandins com influência da arquitetura colonial portuguesa de Macau, simultaneamente elementos tradicionais chineses.

Salientamos, ainda, a existência de varandas nos últimos pisos e terraços, elementos igualmente importados. Por fim, as torres são construídas em betão armado com paredes rebocadas e pintadas, ao contrário das casas da aldeia, em tijolo cinzento aparente.

 

ORGANIZAÇÃO INTERIOR

Kaiping Tower-render-7Ao nível interior os elementos comuns presentes a estas construções são essencialmente a sua disposição organizacional: um fogo por piso, cada qual equipado com cozinha, revelando aqui uma intencionalidade muito ocidental, mas simultaneamente a organização interna de cada fogo reflete os princípios da arquitectura doméstica tradicional chinesa.

Dedicado à receção de convidados, reuniões de familiares e culto aos antepassados, o espaço central com pátio da casa tradicional chinesa é agora transposto para o salão do piso térreo, enquanto o altar de culto fica confiado ao andar mais alto.

Já no piso tipo a sala central principal abre para as alas laterais hierarquizando as diferentes vivências familiares. Por outro lado, na casa chinesa as alas laterais são dedicadas aos aposentos dos filhos, enquanto os pais ficam ao fundo da ala central. Neste caso, a ala esquerda é dedicada aos filhos e à cozinha enquanto a ala direita fica reservada aos pais. Acreditamos que, apesar de se manter uma organização espacial semelhante à hierarquia tradicional chinesa, gera-se aqui um novo modelo de habitar pois coloca-nos igualmente próximo de um padrão multifamiliar idêntico aos blocos de apartamentos que entretanto já tinham surgido em Chicago.

Trata-se de soluções reinterpretadas ressaltando uma arquitetura híbrida, tanto na sua representação exterior como na sua vivência interior, ambas introduzidas no meio rural chinês. Podemos verificar que os diversos tipos arquitetónicos formam, contudo, uma norma bastante definida, atestando a sua singularidade e também, por isso, a sua importância dentro do panorama pertencente a uma linguagem arquitetónica de fusão ou mistura.

A vila de Zili e as diaolou em geral refletem não só a arquitetura tradicional chinesa da dinastia Ming mas igualmente o desenvolvimento cultural importado e adaptado, criando assim uma tipologia muito específica que aqui apresentámos brevemente. Embora esta característica tenha já sido abordada, o aspecto que aqui evidenciamos, na sua importância tipológica, é a existência de uma nova solução interior, implicando por isso, um novo modelo de habitar o espaço.

 

João Palla

 

 

 

Bibliografia

Jinhua Tan, Selia, and Dehua Zheng. “The Architectural Style and Cultural Connotation of Lu Mansions in Kaiping of Guangdong.” Architecture and Urban Development, Advanced Materials Research, 598 (2012): 22–25. doi:10.4028/www.scientific.net/AMR.598.12.

Veríssimo, Cristina. “As Torres de Kaiping.” In Estudos Sobre a China VIII, edited by Ana Maria Amaro, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas., 2:379 – 392. Lisboa, 2006.

Zhang, Guoxiong. Lao Fang Zi, Diaolou and Folk Dwellings in Kaiping. Di 1 ban. Nanjing Shi: Jiangsu Fine Arts Publishing House, 2002.

 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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